“Amar e servir: continuarei com esse lema por toda a vida”

Prestes a ser ordenado padre no próximo dia 21 de abril, o diácono Athila José Tintino contou um pouco de sua trajetória rumo ao sacerdócio.

Diácono Athila José Tintino. (Foto: Bruno Golfeto Timóteo)

Por Bruno Golfeto Timóteo e César Augusto Ferrari

O jovem Athila José Tintino, desde criança, sempre teve um grande sonho na vida. Mas ao contrário da maioria das crianças, ele não queria ser médico, astronauta ou jogador de futebol. Seu desejo, demonstrado com atitudes incomuns para a pouca idade e uma boa dose de determinação e perseverança, se tornará realidade em breve: no próximo dia 21 de abril, após cerca de oito anos de muita dedicação aos estudos e trabalhos missionários, ele finalmente receberá a Ordenação Presbiteral, em cerimônia que será realizada na Igreja Matriz de São João Batista, na cidade de Laranjal Paulista, na qual vive desde os cinco anos de idade.

Athila, hoje com 27 anos, nasceu em uma família humilde, na pequena Nhandeara, região de São José do Rio Preto. Seus pais, apesar de católicos, não eram frequentadores da Igreja, e desde muito cedo, com aproximadamente 4 anos de idade, o jovem já sentia em seu coração que sua vocação seria o sacerdócio.

Quando se mudou com sua família para Laranjal Paulista, morou próximo à Igreja Matriz de São João Batista, e sempre por conta própria, participava das missas e demais atividades ali desenvolvidas. A partir disso, começou a se relacionar com as pessoas que organizavam essas atividades, e isso fez com que seus pais retornassem à Igreja e viessem a receber os sacramentos da iniciação cristã.

Athila será ordenado na Igreja Matriz de São João Batista. (Foto: Bruno Golfeto Timóteo)

Na Juventude, Athila tentou levar uma vida “normal”, como ele mesmo define. Chegou inclusive a se apaixonar, na adolescência, e por um tempo sentiu que talvez aquele sonho de infância pudesse ficar no passado. Mas o desejo de tornar-se padre aumentava à medida que o tempo passava e, aos 17 anos, decidiu comunicar à família que estava com data marcada para ingressar no seminário.

Nessa entrevista, ele conta um pouco de sua caminhada, desde a infância, época em que pela primeira vez manifestou-se em seu coração a vontade de ser padre, passando pelo aprendizado intelectual e missionário, graças ao seminário, os dilemas e desafios que enfrentou nesse período, e de suas expectativas para o futuro, quando assumir as funções de sacerdote. Ele também dá sua visão sobre temas polêmicos como celibato, padres “midiáticos” e analisa os papados de Bento XVI e Francisco, sob a perspectiva do que a imprensa em geral divulga a respeito dos rumos da Igreja Católica Apostólica Romana.

Bruno: Em que momento você sentiu que tinha vocação para ser padre?

Athila: Na primeira vez eu tinha pouco mais de 4 anos de idade. Me perguntaram o que eu gostaria de ser quando crescesse, e então eu apontei o dedo para um padre e disse “eu quero ser aquilo lá”, ainda nem sabia exatamente o que era. Por volta dos meus 6 anos, eu já morava em Laranjal Paulista, e meus pais, apesar de serem católicos, não frequentavam as missas com regularidade, e por isso eu ia às celebrações sozinho, pois morava muito próximo à Igreja. Depois de um tempo, meus pais, observando esse meu comportamento, passaram a ser mais presentes nas atividades da Igreja, e após, fizeram catequese, receberam os sacramentos da iniciação cristã, se casaram e batizaram meu irmão mais novo. Na adolescência eu queria ser um adolescente normal, eu ia para bailes, festas e tinha uma vida social como todos os outros, porém, eu não me sentia realizado. Eu não me encontrava naquele meio, e então comecei a fazer os encontros vocacionais em Botucatu, por volta dos 17 anos de idade. Eu dizia aos meus pais que estava indo a um encontro de jovens, e quando eu finalmente amadureci essa minha vontade e recebi do seminário a carta de admissão, eu me reuni com meus pais, disse que queria ser padre e que ingressaria no seminário em poucos meses. Minha família me apoiou bastante e depois disso eu fui realizar meus estudos.

Bruno: O que seus pais disseram quando você anunciou que iria ingressar no seminário?

Athila: Meu pai questionou um pouco. Me perguntava se eu tinha certeza, pois eu iria me tornar uma pessoa pública, seria procurado diariamente pelas pessoas, sofreria críticas e seria uma vida difícil. Já a minha mãe não ficou surpresa e me disse que já sentia em seu coração que eu iria me tornar padre.

Diácono Athila José Tintino ao lado de seus pais. (Foto: Pascom/Paróquia São João Batista)

Bruno: Como você fazia para ir nos encontros vocacionais em Botucatu?

Athila: Eu pegava o ônibus da Viação Caprioli pela manhã, e retornava para Laranjal Paulista no fim da tarde. Eu ia por conta, e sempre alternava entre sábados e domingos, e às vezes, por eu trabalhar ajudando meu pai, que era pedreiro, eu não conseguia comparecer.

Bruno: Como era a sua rotina no seminário e quais atividades você exerceu?

Athila: Eu ingressei no seminário no ano de 2008, nós éramos em três, porém, os outros dois acabaram saindo meses depois e eu fiquei sozinho. Eram 14 disciplinas e eu tinha aulas sozinho, na sala de aula ficávamos somente o professor e eu. Depois eu prestei vestibular para a faculdade de Filosofia, fiz estágio em algumas escolas, como professor, dentro do próprio curso, e após me formar, prestei vestibular para Teologia. No total eu cursei 3 anos de Filosofia e 4 anos de Teologia. Concluídos os estudos, eu fui morar na Paraíba, trabalhando com dependentes químicos na chamada “Fazenda da Esperança”. Em outubro do ano passado, retornei para Laranjal Paulista para a minha Ordenação Diaconal, que ocorreu no mês de dezembro.

Bruno: Quais foram as maiores dificuldades que você enfrentou no seminário?

Athila: No seminário, assim como em todos os lugares, existem dificuldades e principalmente pessoas que muitas vezes não estão realmente interessadas e focadas no mesmo objetivo que o seu. No início, a minha maior dificuldade foi esse contraponto entre você estar interessado, ter um foco, e aquele que compartilha contigo da mesma vida não ter foco. Isso me desanimava e me deixava até um pouco preocupado. Outra dificuldade foi o amadurecimento, porque durante esse tempo nós não podemos focar apenas em ser padre, para não nos esquecermos do momento presente, principalmente em relação aos estudos. Eu entrei no seminário ainda jovem, então eu passei por todo esse processo de amadurecimento humano lá dentro. Teve até um momento em que uma paixão surgiu, o que me fez ficar em dúvida sobre a minha verdadeira vocação. Aos 22 anos eu comecei a pensar sobre a solidão de um padre, sobre a ausência de uma família, de fato, fiquei pensando sobre quem iria cuidar de mim na minha velhice, mas isso me ajudou muito, porque hoje eu digo sim à vida sacerdotal consciente de todas as minhas escolhas e renúncias.

Athila em sua Ordenação Diaconal. (Foto: Pascom/Paróquia São João Batista)

Bruno: O que mudará após a sua Ordenação Presbiteral?

Athila: A Ordenação Presbiteral, diferente do que muita gente pensa, não significa que eu irei subir de cargo, ser “algo a mais” dentro da Igreja. Serei ordenado presbítero, ou seja, estarei apenas assumindo uma outra função dentro da Igreja. Não deixarei de ser diácono, pois uma ver ordenado, me torno diácono por todo o sempre. Passarei apenas a exercer a função sacerdotal, oferecendo o sacrifício da Igreja a Deus e dar ao povo os sacramentos da penitência e da unção dos enfermos, por exemplo.

Bruno: Foi difícil para você assumir o compromisso do celibato?

Athila: A Igreja não impõem o celibato a ninguém, ela o tem como uma regra de vida para os padres, bispos e diáconos que não são casados. O celibato é sempre uma entrega, mas quem escolheu essa vida fui eu. Quando eu entrei na minha caminhada rumo ao sacerdócio, eu já sabia que eu seria cobrado nesse aspecto. Eu acredito que tendo a consciência disso e entrando livremente, as dificuldades são bem menores. É claro que há a atração, pois como eu disse, já me apaixonei nesse período em que estive no seminário. Em um lugar que eu trabalhei teve uma moça que me despertou um sentimento diferente. Essa atração existe e nunca deixará de existir, porque a gente não deixa de ser homem. A questão é que você promete o celibato e agora vive o passo da castidade, diante de todas as situações do mundo, você vai oferecer a sua vida para aquela causa, no caso, sendo padre, oferecer a sua vida pela causa do Reino. Então, eu, particularmente, não tive tanta dificuldade em lidar com o celibato.

Bruno: Tem algum padre que você se espelha ou tem como referência?

Athila: Na mídia, o padre Zezinho, que interpreta músicas como a “Oração pela família”, por exemplo. Eu o admiro porque mesmo infiltrado no meio artístico, o padre Zezinho nunca deixou de viver a pobreza, a simplicidade, e principalmente, nunca deixou de ser padre, no sentido de vida prática. Ele sempre soube o que era e nunca deixou que a fama e o dinheiro subissem à cabeça. Além disso, as músicas dele não ficam somente em um hit ou em uma batida do momento, ele utiliza esse dom que Deus lhe deu para evangelizar. Se pegarmos as músicas de autoria do padre Zezinho, veremos que são músicas que têm um sentido até catequético, que ajuda a entender a fé. Na diocese tem alguns padres que a gente acaba se espelhando, observando seu jeito de celebrar e lidar com o povo, então você vai olhando e tirando o seu próprio modo, baseado em tudo isso. As pessoas, inclusive, me perguntam que tipo de padre eu serei. Nas verdade, não existem tipos de padre, eles acabam colocando a sua personalidade e aí sim, geram tipos, mas eu quero ser um padre segundo o coração de Deus e fazer somente aquilo que a Igreja me pedir, seja o que for, e estar aberto às necessidades da Igreja. E voltando a falar um pouco da mídia, na minha opinião, não cai bem um padre com um jeans agarrado. Eu penso que já que você faz a opção por um estado de vida, você tem que se privar de algumas coisas. Nada contra os padres que pensam diferente, mas eu não assumiria para mim uma vida nesses moldes. Teve um fato no qual um determinado padre, após celebrar uma missa, já com as vestimentas do dia-a-dia, começou a cantar e as pessoas subiram nos bancos da Igreja e começaram a gritar “lindo”, como se estivessem no show de um cantor qualquer. Para mim, isso faz com que as pessoas percam o senso do Sagrado, e o padre, por usar aquele tipo de vestimenta, acaba não remetendo as pessoas ao Sagrado. Eu não estou aqui para julgar ninguém, mas eu não me vejo nesses moldes.

Interior da Igreja Matriz de São João Batista. (Foto: Divulgação/Paróquia São João Batista)

Bruno: O que você pensa sobre as comparações que são feitas entre os papados de Bento XVI e Francisco?

Athila: O papa Francisco tem ajudado muito a Igreja com o seu modo de ser. Amo o papa emérito Bento XVI por toda a sua contribuição à Igreja e acho injusto o modo como a mídia mal-intencionada deturpa a imagem de um em detrimento ao outro. Foi Bento XVI quem abriu todo o espaço de revisão da caminhada da Igreja, seja na liturgia, nas questões matrimoniais, e a revisão das questões morais, por exemplo. O papa Francisco chegou e abriu mais ainda, ou seja, ele está continuando um trabalho que já havia sido iniciado pelo papa anterior. A questão é: as pessoas acolhem o papa Francisco naquilo que ele é ou naquilo que a mídia o tornou? Há poucos dias, quando saiu uma notícia sobre a nulidade dos matrimônios, eu vi no jornalismo da Rede Globo de Televisão a informação distorcida, falando totalmente o contrário daquilo que havia sido definido pelo papa. Depois disso, as pessoas começaram a achar legal, dizendo que o papa está sendo mais moderno, mais aberto, mas na verdade não era nada daquilo. Ele simplesmente estava confirmando aquilo que a Igreja sempre fez e promovendo para que se fizesse mais. Não houve mudança alguma, ele simplesmente está colocando as questões em estudo, favorecendo. Se o povo de fato escutasse o que diz o papa Francisco, certamente entenderia mais a Igreja. Por isso temos que tomar cuidado com aquilo que lemos e ouvimos dessa mídia mal-intencionada e ficar com aquilo que a Igreja está mostrando de fato. Inclusive convido as pessoas a acessarem os veículos oficiais da Igreja, como o site do Vaticano, além dos documentos da Igreja que estão todos publicados lá, para deixarem de ficar somente com aquilo que já vem interpretado pela mídia.

Bruno: Quais atividades você exercerá a partir do dia seguinte à sua Ordenação Presbiteral?

Athila: A princípio, nós ficamos à disposição do bispo diocesano, que nos direciona para aonde ele achar que é necessário. O padre Sebastião dos Santos, pároco da Igreja Matriz de São João Batista, está estudando, fazendo mestrado em Direito Canônico, com duração de aproximadamente 3 anos, na cidade de Marília. Mensalmente ele passa uma semana por lá, e então o nosso bispo diocesano, o arcebispo Dom Maurício Grotto de Camargo, pediu que eu permanecesse na paróquia de São João Batista, na qual eu cresci, e ajudasse o padre Sebastião enquanto ele estiver nesses estudos. Ainda não temos certeza, mas provavelmente eu fique em Laranjal Paulista pelos próximos 2 ou 3 anos, como vigário paroquial, ajudando o padre Sebastião naquilo que for necessário. Depois desse período, ou até mesmo antes, caso haja necessidade, serei encaminhado para aonde a Igreja decidir, desde que não venha a prejudicar a comunidade local.

Visão externa da Igreja Matriz de São João Batista. (Foto: Reprodução/Internet)

Bruno: Deixe uma mensagem final para os nossos leitores.

Athila: Agradeço a oportunidade de expor um pouco da minha vida e da minha caminhada rumo ao sacerdócio, e deixo aqui um apelo para todos: busquem cumprir a vontade de Deus. Todo o nosso empenho é para conduzir o povo para Deus. Então nunca busquem outra coisa na vida senão Deus. Nós, seres humanos, somos todos limitados, não existe ninguém perfeito entre nós, pois se existisse, esse alguém não seria humano, mas seria Deus. O meu lema de Ordenação Diaconal foi “amar e servir”, e repito esse lema para a Ordenação Presbiteral, eu não mudei o lema, continuarei com esse lema por toda a vida. A nossa vida só tem sentido se a gente ama. Os nossos dias são breves, quase todos os dias eu vou na funerária para sepultar ou fazer o rito das Exéquias de alguma pessoa que falece. O que são 80, 70, 30, 40 anos diante da eternidade? É muito pouco tempo. Se não aproveitamos o hoje para amar, nós perdemos o sentido da vida e acabamos caindo nos mais diversos buracos da existência. Vamos todos juntos começar a construir esse Reino que Deus tanto sonha para nós. Um Reino sem guerras, sem divisões, sem desigualdade, um Reino em que o amor seja a base de tudo. Não perca tempo na vida. Passe cada segundo da sua vida amando, pois isso sim é que vale a pena!

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