Gilberto Gil — Refazenda

Gilberto Gil, 1975

“Refazenda” talvez seja a música mais importante dos mais de 50 anos de carreira de Gilberto Gil. Lançada em 1975 no disco do mesmo nome, o primeiro a ser gravado depois do músico baiano passar a gerenciar a própria carreira, ela apontava para uma nova direção. A bossa-nova já tinha ficado para trás, o rock e a psicodelia também e agora era a vez da Tropicália ser deixada um pouco de lado. Gil resgatou ritmos nordestinos, na boa e velha volta às origens, para gravar uma canção que falava justamente disso. Com uma certa influência tardia do movimento hippie, a canção exalta a questão cíclica da natureza, para onde eventualmente retornaremos, pois “nós também somos do mato”.

Mas ao contrário do pato e do leão, não somos “apenas” do mato e o contexto histórico da época fez muita gente achar que Gilberto Gil estava tentando driblar a censura. O abacateiro, que é central na composição, tem a mesma cor do verde oliva do uniforme dos militares e o trecho “acataremos teu ato” parecia falar da opressão do regime. Mas não era nada disso, como o próprio Gil esclareceu, anos depois. Em “Refazenda” o músico preza mais pelo nonsense e começou a compô-la como uma brincadeira surreal com palavras que rimavam, somada a uma ideia que ele tinha com amigos de criar uma comunidade alternativa em uma fazenda, a famosa “Guariroba”.

O resultado é Gil tendo a árvore do abacate como interlocutora e essa árvore, alguns dizem, pode ser uma referência a Árvore da Vida, um conceito utilizado em várias mitologias para falar justamente do ciclo natural de toda a vida na Terra. Mas a conversa com o abacateiro também soa como uma reflexão sobre, de fato, dialogar com a natureza, mas não apenas no sentido da troca, de plantar e colher frutos (de forma literal e figurada), mas da natureza interna, de aprender a dar tempo ao tempo, não acelerar um processo que precisa ser respeitado pois, se não for, vai te fazer colher o azedo tamarindo, em vez da doce manga.

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