Os (grandes) erros de 13 reasons why.

(Peço que antes de me julgar, leia até o final)

A série 13 reasons why vem chamando muita atenção do público após ser lançada no Netflix, em parte por tratar de um assuntos tão importantes , como o bullying, assédio, transtornos mentais e suicídio; que são, mais do que nunca (infelizmente) temas bastante atuais. Porém, por serem assuntos tão relevantes, a série acaba por errar ao retratá-los de forma raza e cheia de clichês.

A começar pelo elenco. Sim. A série se dispõe a falar sobre bullying, aceitar as diferenças em um momento dificílimo como é o ensino médio. Porém, todo o elenco da série é “padrãozinho”. Todos poderiam facilmente ter saído de uma agência de modelos.

Como falar sobre inclusão, aceitar as diferenças e não mostrá-las? Ok, pessoas bonitas também sofrem. Mulheres principalmente. Meninas sofrem um bocado por causa da nossa cultura machista, independente de seu tipo físico, porém, não ter nem ao menos um personagem de óculos, aparelho, sobrepeso, ou uma espinha sequer (ninguém na idade de Hannah e seus colegas está imune a isso), me parece muito malhação dos anos 90! Parece besteira, mas, a mídia e seus padrões impostos são grandes responsáveis por grande parte dos distúrbios alimentares e outros problemas mentais como ansiedade e depressão, cujos diagnósticos entre jovens só crescem. Não se sentir pertencente a estes padrões, se sentir excluído já faz bastante estrago na cabeça de um adolescente.

Porém o erro mais grave da série é a forma com que o suicídio foi retratado. A série peca ao mostrar o suicídio como uma solução bastante atraente. Na cabeça de uma pessoa que está passando por este tipo de situação (bullying e assédio, depressão e outros) existem os desejos de: fazer as pessoas se sentirem culpadas por ter feito você sofrer e ter sua existência reconhecida, fazer com que as pessoas, de repente, saibam quem você é e até mesmo que passem a vê-lo de outra forma, fazê-los sentir a sua dor.

Na série, Hannah, ao se suicidar, enviou fitas cassete para 13 pessoas, que, segundo ela, foram as responsáveis pela sua atitude. Ao fazê-lo, conseguiu fazer com que todas as pessoas que um dia a magoaram “pagassem” de certa forma pelo que fizeram, além de ter sua existência reconhecida. Sua voz (nas fitas) finalmente foi ouvida de uma forma que não pode ser negada.

Um outro erro grave é propor a ideia de que as pessoas são o motivo. Hannah achou 13 motivos, 13 pessoas que, da forma como a série retrata a situação, legitimam a atitude da personagem, expiando-a de toda a culpa de um ato onde, apesar das circunstâncias, a única “culpada” (se é que isso existe nesta situação) é ela mesma.

Na cabeça frágil de uma pessoa que está passando por isso, o suicídio, legitimado por seus algozes e trazendo o resultado desejado torna-se muito, mas muito atraente. E isso é muito perigoso.

Uma das coisas positivas da série é mostrar o outro lado do bullying; mostrar quem o pratica. Os 13 personagens a quem Hannah dedica suas fitas vêm de lares sem estrutura familiar, problemas com orientação sexual e identidade de gênero, pressão por resultados; ou seja: mostra aquilo que já sabiamos; quem pratica o bullying está exaltando os defeitos dos outros para esquecer-se dos seus.

Mas para quê escrevo isso? Uma crítica à série? Na verdade mais que isso.

Eu passei por tudo isso.

Eu sofri bullying (temos que achar um nome em português para isso) durante muitos anos da minha vida. Eu sofri abusos. Eu fui agredido verbal e fisicamente por ser “diferente” justamente daqueles padrões impostos que eu falei antes. Por não pertencer a estes padrões fui julgado, oprimido, agredido e muitas vezes negligenciado, até mesmo por quem deveria me ajudar.

Pensar em suicídio era algo mais do que esperado numa situação como estas. Eu desejei (e muito) fazer isso de uma forma que as pessoas finalmente “me ouvissem”, me percebessem, me reconhecessem. Portanto, não falo de um lugar qualquer.

Eu sou um sobrevivente.

Há anos (já perdi as contas) faço tratamento. Terapia e medicamentos. Não é nada bonito. Não há nada poético nisso. Eu sofri e muitas pessoas sofreram comigo. Familiares e amigos.

Mas eu lutei, lutei muito e hoje eu posso dizer que eu estou bem.

Resolvi escrever este texto, pois, acredito que é importante lutar. Portanto, se você assitiu essa série e sentiu, por algum milésimo de segundo que seja uma vontade de fazer o que Hannah fez, peço a você que pare agora! A série pode estar trazendo a tona sentimentos negativos, o chamado triggering (também temos que achar nome em português para isso).

No processo para uma vida melhor temos que nos desfazer de algumas coisas, hábitos e até pessoas que trazem este sentimento a tona. Hoje, me rodeei de pessoas que amo e me fazem bem. Infelizmente, deixei para trás pessoas que amo muito, mas que, não me ajudavam no processo de melhora. (saiba que amo vocês, mas, cada um tem seus momentos). Prefiro as comédias e sou apaixonado por desenhos animados, não perco um! Pratico exercícios físicos regularmente e me alimento bem. Parece besteira, mas garanto que não é.

A depressão é uma doença. Uma doença como muitas outras e há tratamento. Muitas pessoas não conhecem o assunto e julgam as pessoas que sofrem deste mal. Outras pessoas romantizam a doença, falam a torto e a direito que sofrem de depressão por algum motivo que lhes convem.

O que eu posso dizer para você neste momento é: Você não está sozinho e é importante lutar pela sua vida. Você será capaz de coisas fantásticas, mas para isso, precisa se esforçar, é um processo. Eu sei que é difícil ouvir coisas boas no começo. Sei que é difícil acreditar, mas, garanto que vale a pena.

Se você tem um desejo de “vingança” ou de ser reconhecido, eu te garanto que o sucesso vai ser muito mais eficaz. Uma coisa que eu aprendi na terapia, é que o suicídio é um ato egoísta. Se você o fizer as coisas não se resolvem, só pioram. A imagem que as pessoas terão de você é de uma pessoa fraca. (Elas não sabem o que você passou e do quão forte você foi até aqui).

Portanto eu estou te escrevendo para pedir que tenha calma. E te dizer que tudo vai dar certo. (parece impossível, eu sei).

Caso você realmente esteja sentindo isso que eu falei, procure ajuda. Fale com alguém que você conhece, com seus amigos, sua família, não se isole (a tendência é essa). Neste caso, ou se você for familiar ou amigo de alguém que está passando por isso, saiba que existem vários lugares em que você pode procurar ajuda. (aqui na minha cidade, Maceió, existe o CAVIDA, — deixem nos comments outros lugares nas suas cidades).

Por fim, te peço que não procure por razões para morrer. Nunca! Uma razão para estar vivo (um sonho, um amigo, sua família) valem mais do que 13 razões para cometer um suicídio.

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