
Nobre e rara novela das seis
Ouso dizer de cara: “Joia Rara”, a nova novela das seis da Globo, tem tudo para ser uma das melhores produções de época já feitas no Brasil. O que não quer dizer que a história seja tão boa quanto.

“Joia Rara” vem para substituir “Flor do Caribe”. No lugar das praias ensolaradas, uma trama de época, pesada, fria, amarela – o que não caracteriza um defeito, longe disso. A trama de Thelma Guedes e Duca Rachid (do sucesso “Cordel Encantado”) aposta na luta de classes sociais e no romance impossível de uma operária (Amélia/Bianca Bin) e o filho do dono de uma loja de joias (Franz/Bruno Gagliasso). Uma história mais gasta que sapato velho, mas com uma roupagem e caracterização pouco vistas antes.
A trama tem a marca dos diretores Amora Mautner e Ricardo Waddington, saídos do sucesso “Avenida Brasil” e também diretores de “Cordel Encantado”: estão lá a fotografia amarelada, cheia de contrastes chiaroscuro, quando não quase escuras, seja em qual ambiente for. Os personagens falando ao mesmo tempo também estão lá: os operários quando brigam, as meninas do cabaré, os monges, a família Hauser. É tudo muito natural, ainda que o texto e a trama sejam ambientados nos anos 1930/1940. Além de que Thelma Guedes e Duca Rachid são da “escola” de Walcyr Carrasco, o que poderia abrir espaço para muito mais didatismo como pode ser conferido em “Amor à Vida”, uma trama contemporânea das nove da noite.

Mas didatismo não faltou: as autoras são conhecidas por levar temas religioso-espirituais às tramas. “O Profeta”, recém-reprisada no “Vale a pena ver de novo” é um exemplo, além de terem sido colaboradoras em “Alma Gêmea” e “A Padroeira”, ambas de Carrasco. Os discursos do monge Ananda* (Nilson Xavier – não há como não falar de “Chico Xavier”) podem soar como “doutrinadores”, na tentativa de levar ao telespectador uma filosofia diferente. Confesso que esses temas não me agradam – acho maçantes – mas sem isso não haveria trama: Pérola (Mel Maia, a joia rara) é a reencarnação de Ananda, filha de Franz com Amélia. E, evidente, o público desse horário gosta desse tipo de história.
P.S.: Ananda fala português e tem justificativa: um dos discípulos é brasileiro e o ensinou tudo sobre o Brasil. Nada de marroquinos ou turcos falando português, como Gloria Perez sempre faz.

As cenas da Cordilheira dos Himalaias e nos templos foram primorosas – assim como todo o primeiro capítulo. O cabaré do Rio de Janeiro liderado pelo sempre incrível Marcos Caruso conta com Lola (Letícia Spiller, ótima na primeira apresentação) e Aurora (Mariana Ximenes, que ainda não aparece, mas pelas cenas do clipe, está matadora). Apesar de contar com frases clichês (Manfred ao irmão: “Você chegou na frente, como sempre”) e os ensinamentos do monge, “Joia Rara” saiu-se muito bem especialmente na caracterização e ambientação das cenas: o rádio com sucessos da época, o monge Ananda dizendo que é fã do melhor jogador de futebol do Brasil à época, Leônidas da Silva, as referências do cinema no cabaré e em várias cenas e a abertura cantada e com música especialmente composta por Gilberto Gil com ilustrações da história foram os pontos altos.

Por outro lado, “Joia Rara” pode afastar o telespectador acostumado com o sol e o calor da antecessora “Flor do Caribe”, que terminou com 21 pontos de média. “Lado a Lado”, a mais recente trama de época do horário, sofreu na audiência por ser também uma novela muito escura, pesada, ainda que com produção igualmente caprichada. Até o cabaré de “Joia Rara”, com quentes apresentações, não escapa da pouca luz. O que é ótimo do ponto de vista técnico e artístico: é uma marca dos diretores ter a fotografia assim e dá cada vez mais crédito a produções do horário (estima-se que cada capítulo de “Joia Rara” custe R$ 700 mil, um recorde).
“Joia Rara” pode ser a pedra preciosa que faltava às novelas das seis.
Atualizado em 17/09, às 08:40:
Em tempo 1: “Joia Rara” estreou marcando 20 pontos de audiência com picos de 23. Índice superior ao de “Flor do Caribe” e “Lado a Lado”, ambas com 18.
Em tempo 2: Nilson Xavier, especialista em telenovelas, deu a letra: “ A embalagem é primorosa e o produto é telenovela – ou seja, vem recheada de personagens maniqueístas e clichês do gênero”, além de falar sobre as referências do cinema. Vale a pena a leitura: “Joia Rara” tem estreia cinematográfica
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