A bipolaridade e o empreendedorismo e como lido com isso

Há algumas semanas, eu lancei um novo projeto, antes de divulgar eu fiquei imensamente receosa de falar sobre ele, pois eu sabia que receberia uma série de críticas, só não sabia que seria tão sério.

Antes de falar sobre o quanto a bipolaridade pode afetar um empreendedor, preciso me reapresentar…

Eu sou a Bruna, tenho 31 anos e possuo diversos projetos, uma marca de roupas, uma startup, algumas realizações e muitas vontades, além de muitas ideias. Em 2013, depois de uma separação e uma demissão, eu entrei em colapso. Busquei então entender porque eu desejava tanto ter algo, e depois que tinha, já não era bem isso, ou ainda faltava algo.

Foi ali, naquele momento que procurei um psiquiatra para saber se eu era louca, ele disse:
- você é mas podemos dar um jeito!

Brincadeiras a parte, acabei descobrindo que sou uma bipolar leve com espectro bipolar. Foi um susto. Normalmente, as pessoas pensam que ser bipolar é alguém mau humorado ou bem humorado que fica trocando os polos de humor constantemente, além de achar que a pessoa não bate bem das ideias. Não que eu bata, veja bem… Mas é algo um pouco mais sério e diferente que isso. No colégio, diziam que eu tinha TDAH devido a minha hiperatividade e energia. Aliás, o diagnóstico é bem parecido, porém cada uma tem suas especialidades.

Primeiro eu precisei quebrar o preconceito, depois digerir o mais rápido possível para tentar seguir a minha vida, e foi ótimo, muita coisa passou a fazer sentido. A parte curiosa é que se você procura na internet, verá que muitas pessoas famosas tem ou tiveram isso, o que dá um certo tom de genialidade para a coisa.

Como costumo dizer: ‘às vezes a gente se faz de maluco para parecer gênio.’

Mas nem de perto é algo bom de se ter, depois de 8 meses de tratamento eu decidi que não seguiria com os remédios e tentaria me adaptar a isso.

OS OUTROS

A parte mais difícil de ser um bipolar são os outros. É realmente complicado viver e entender uma pessoa com bipolaridade, no meu caso eu simplifiquei para dois espectros: quando eu acho a vida um máximo (e eu me sinto a última bolacha do pacote), quando eu acho a vida uma droga (e eu me sinto o farelo da bolacha).

Só que as pessoas, de uma forma geral, seguem padrões de sucesso, de perfil ideal, de felicidade, de escolhas… E para elas, conviver com alguém que constantemente vive em outro ritmo é bem confuso. Lógico que existe a personalidade de cada um, de como um bipolar lida com essa situação, etc

Por exemplo, para a maioria das pessoas eu NÃO TENHO FOCO, e quando eu falo de um projeto novo, ou de uma mudança de planos, isso soa como o 8° pecado capital. Ninguém entende, me acham uma perdida, uma desorientada, alguém com super potencial, mas né, não sai do lugar.

A algumas semanas atrás, eu ouvi coisas duras de pessoas próximas…

“Para a gente ter um relacionamento, você precisa tratar sua bipolaridade”
“Você tem tudo para dar certo, mas precisa manter o foco, pegar uma coisa só para fazer e ir até o fim”
“Saia já do playground, você tem medo de enfrentar o que vem depois?”
“Quando eu fazia isso, de ter vários projetos, eu percebi que poderia ser medo do fracasso”
“Você não tem foco, foco, foco… x100"

Então eu passei a me sentir a mosca da bosta do cavalo. Mas ok, porque a essa altura da vida eu já sei que eu não tenho problema de falta de foco, eu tenho na verdade hiperfoco.

O QUE É HIPERFOCO?

Falando assim parece até bonito, só que vou explicar… Pessoas com hiperfoco pegam algo para fazer e ficam aficionadas, não pensam em outra coisa, botam toda a energia do universo naquela atividade, parecem apaixonadas, empolgadas, malucas e felizes.
Uma pessoa de hiperfoco precisa de muita energia, e o maior desafio é se manter apaixonado e envolvido. Não existe aquele meio termo, sabe como é? “vou fazer aqui de qualquer jeito porque tanto faz” <<<< isso não existe para uma pessoa de hiperfoco.

E isso é um saco, na verdade. Porque você precisa gostar da atividade, senão você não faz. Porque você precisa ter um ritmo senão você desanima. Porque você precisa ter um propósito, e assim por diante.

O empreendedor x a bipolaridade

Manter-se apaixonado é um desafio e tanto, ao adicionar isso a uma empresa, ou projeto, passa a ter um peso muito grande.

Empreender por natureza é um desafio, devido as dificuldades, devido a inúmera quantidade de pessoas dizendo que não vai dar certo, devido ao desgaste. Mas isso nem de longe é o x da questão.

Uma pessoa com bipolaridade e espectro bipolar gosta de desafios, de novidades, de aventura.

E esse é o grande x da questão: a necessidade de se manter vivo. Nada é mais apaixonante que o novo, que a descoberta. Porque o novo dá medo, traz ansiedade e curiosidade e aquele gostinho de desafio.

EU E MEU CONFLITO

Sou uma pessoa extremamente adepta a mudanças, aliás, costumo dizer que a mudança é minha zona de conforto. Ao contrário da maioria das pessoas, o meu objetivo é não mudar, para mim é muito difícil me imaginar fazendo do mesmo jeito por tanto tempo.

Por outro lado, uma das minhas maiores qualidades é a determinação. Quando quero algo, eu luto por isso, e dificilmente não consigo. Lógico, tem exceção, tem obstáculo, tem tudo pela frente, mas eu persisto, e como sei isso? Pelo meu histórico.

Posso dizer que Determinação + hiperfoco + inquietude podem ser uma combinação interessante.

Infelizmente, isso afasta as pessoas e muitas vezes me faz não querer ser eu.

Por isso, vivo constantemente tentando fugir de mim mesma, tentando ser coisas que não sou ou não quero ser. Como ter um emprego fixo ou me manter em um relacionamento que já não me traz tanta novidade.

Nesse momento, num trem indo para Munique, tenho pensado muito em tudo isso, pensado que eu preciso novamente decidir se passo a ser o que as pessoas esperam de mim, para tentar quem sabe encontrar esse tal sucesso pessoal e profissional.

Se continuo buscando encontrar formas de ter isso sendo exatamente quem eu sou, tentando ser uma pessoa melhor, claro, mas sem remédios ou medidas mais intensas.

Ou se me contento que simplesmente não sei se um dia isso se definirá.


Ps.: Uma coisa que aprendi com a vida é não ter medo das próprias fraquezas, tampouco ter medo de expô-las, porque essa é uma forma de desafiá-las.

Escrevo esse texto para quem constantemente diz que “não tenho foco”, porque sei que o “foco” é o último das meus problemas.

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