Não quero mais brincar de startup

Faz mais ou menos 6 meses que iniciei um novo negócio, minha primeira startup. Confesso que apesar de ter participado de diversos lançamentos de produtos, criações de negócios, empresas em primeiro estágio de maturação, a experiência em ter um negócio incerto é bem diferente.

Primeiro, porque você precisa pensar em coisas que naturalmente só pensaria depois de 10 anos em um negócio tradicional. Você precisa, inclusive, pensar em como sairá desse negócio. Sim, esqueça aquela ideia de abrir a empresa dos seus sonhos, crescer, ter 200 mil funcionários e nunca pensar em como irá se livrar disso tudo. Desde o primeiro dia será necessário saber como deve-se preparar o último dia, ou ao menos saber como será caso outros cuidem do negócio para você. Esse pensamento dói no começo porque é inevitável se apaixonar cada vez mais pela ideia, mas depois de um tempo tudo passa a ser normal, tanto a saída caso nada dê certo, quanto a saída (exit, como chamam no ecossistema) caso tudo dê muito certo.

Segundo que pensar em um bom produto é bem diferente do que criar um produto que você não tem ideia alguma se alguém vai querer usar ou comprar. Até pode ser que existam ferramentas para testar isso, como o MVP (minimun value product ou produto mínimo viável), só que nem isso é garantia, já que a máxima do “cliente não sabe o que deseja” se aplica muito bem a esses casos. No meu e-commerce eu já tinha entendido que validar com amigos é o mesmo que cair na tentação de comer um brigadeiro e achar que não vai engordar só porque deu 3 voltas na quadra para comprar o mesmo. Pura ilusão!

Amigos são ótimos, de verdade, mas compram pouco e não são os reais usuários do seu produto.

Portanto, técnicas e mais técnicas que muitas vezes você desconhece terão que ser empregadas e reavaliadas o tempo todo. Nomes que parecem ter sido tirados de uma caixa de pandora: como lean startup, growth hacker, lead, exit, mvp, venture capital, seed, angel, design thinking, canvas… Nesse casos os males dos negócios são soltos então é bom ter um google por perto porque essas palavras de origem estrangeiras e poucos familiarizadas serão suas melhores amigas, ao menos por um tempo.

Tudo, absolutamente tudo precisa ser criado em pouco tempo: da ideia ao modelo de negócio. Muitas vezes você não tem nem a certeza de como o usuário irá receber a sua ferramenta e muito provavelmente já precisará saber como irá cobrar ou faturar com ela.

O mais importante dessa brinks é que existem diversas possibilidades a serem testadas, desde experiência do usuário até monetização, e uma escolha errada pode comprometer todo o restante do projeto.

E exatamente por isso é uma grande aposta e um excelente exercício para pessoas ansiosas! →sarcasmo detectado

ESPELHO, ESPELHO MEU, EXISTE UM ANJO QUE POSSA BANCAR ESSE PROJETO MAIS DO QUE EU?

Depois desse turbilhão de novidades vem os primeiros interessados em conhecer mais da sua ideia.

  • Tem Business Plan? Tem algum protótipo pra eu avaliar? Quem são seus concorrentes? Qual o plano de expansão? Etc

Tudo isso com 5 dias de empresa. Acontece! Existe um senso de urgência gigantesco para que tudo saia do papel o mais rápido possível para que boas oportunidades sejam aproveitadas e que alguém mais esperto, com mais dinheiro e mais facilidade não faça tudo isso antes que você. Apenas corra, eu diria.

E olha, verdade seja dita. Investidor até que é legal — falaram porque nunca vi um com dinheiro de verdade — mas toma um tempo desgramado que muito provavelmente você estaria dedicando a desenvolver o produto e/ou prospectar clientes. É sedutor, já pensou ter sua ideia financiada por alguém desde o começo? QUE SONHO! Ainda mais se você, assim como eu, for uma eterna “wanna be” da fortuna. Que até faz coisas que agregam valor pra sociedade mas não consegue o pulo do gato chamado: dinheiro.

Money que é good nóis não have

Fora o investidor — tamo aí qualquer coisa — a outra boa brincadeira pra tirar o seu tempo são as inscrições de programas de aceleração, já foram 7, das quais 5 já deram retorno. Em 5 tentativas, não fomos selecionados em nenhuma, parece bem aproveitado esse tempo, só que nada adianta se inscrever só porque é bacana, dá uma grana razoável por um share considerável. É preciso foco nesses processos. Caso contrário, sua vida vai se transformar em responder perguntas como: descreva seu negócio em 5 palavras e grave um elevator pitch de até 3 minutos dizendo tudo que você levaria no mínimo 1 hora para dizer.

Seja uma pessoa objetiva e um youtuber nato, basicamente.

E pensar que antes a conversa de elevador era algo parecido com comentar sobre a preocupação se ia chover ou não. Saudades!

A bem da verdade, nunca entendi direito os benefícios de ser acelerado, mas estava lá inscrevendo pra ver se alguma boa alma viva se conectava com nossa ideia e meio que de repente, sei lá, surgisse uma oportunidade. A gente sempre acha que tem um brilho especial, até descobrir que é só mais um no meio da multidão. =(

EU NÃO AGUENTO MAIS

Foi quando cheguei para os meus sócios e parceiros e tomei a frente de perdir encarecidamente que a gente focasse em buscar clientes, eu sei, startup precisa de um tempo de maturação e desenvolvimento do produto, os sócios tem outros projetos e prioridades, o país está em crise e a grana escassa, tudo corrobora para que as coisas demorem a sair. Um investidor ou uma acelaração ajudaria muito nesse começo e sei que pareço velha dizendo isso, mas é real, sou da época que cliente é quem fazia o caixa da empresa sorrir e a mágica acontecer.

$$$ e não downloads. “Obrigada seu produto me ajudou muito” e não “ sua ideia é demais, toma aqui esse abraço de boa sorte”.

É glamouroso ter investidor e ser selecionado e premiado pela ideia? É sim, abre uma infinidade de portas, mas cansa, dá trabalho, frustra. Sem contar que metade dos investidores/parceiros marcam reunião e não aparecem, vamos dizer que há coisas muito mais importantes na fila de prioridades dessas pessoas e com muita sorte nada irá atrapalhar no dia marcado. Aliás, já pensei em mudar o nome da empresa para “Podemos remarcar?”, seria, no mínimo, mais honesto.

E A PLATAFORMA, VAI DESISTIR TAMBÉM?

Confesso que às vezes dá vontade. Tirando um número por baixo, já acompanhei mais de 250 empresas desde que me formei. Muitos empreendedores receberam um pouco do meu conhecimento ao longo da minha jornada profissional e do muito que levei deles, carrego uma certeza: empreender é para os fortes.

Agora, vou mais além, ter uma startup é para pessoas muito resilientes e capazes de desapegar da ideia e do projeto, por mais suor que tenha sido derramado. Teimosia, nesse caso, pode ser só uma forma de se colocar mais e mais esperança em algo com pouca chance de dar certo. Não sendo apenas um sonho em risco, mas tempo e dinheiro estão diretamente ligados nessa soma.

Por isso, segui o conselho de um startupeiro: pegue um atalho.

O ATALHO

Estamos desenvolvendo uma plataforma complexa e trabalhosa para venda de imóveis através de realidade virtual e realidade aumentada. Isso leva tempo e demora para dar o retorno e é um modelo de negócio bem arriscado, ou ele vai dar muito certo, ou não vai dar em nada. Não existe um meio termo.

Entretanto, o mercado já está consumindo um produto mais simplificado, tendo boa aceitação e pagando bem por essa solução. Não saímos totalmente do foco, começamos a entrar num mercado alvo: construtoras e incorporadoras e a testar parte da nossa solução.

Por um tempo, teremos que ser concorrentes de quem gostaríamos de ser parceiros. Essa decisão também não é fácil, porém parece sensata quando falamos em clientes pagantes.

Essa solução veio da pergunta: — se eu tivesse tempo e dinheiro, eu investiria nessa ideia?

Muitas vezes a gente se aprofunda na sensação e adrenalina de criar uma nova empresa e produto, a ideia é o ópio e pessoas compartilhando isso é a cereja do bolo. Você se motiva e motiva quem está por perto e torna essa sensação absoluta. É preciso ter muita clareza para não se deixar levar por essa empolgação.

Parece brincadeira, e pode até ser, porém criar a Smart2City e o produto BuildAP tem sido uma das experiências mais imersivas que já tive, de gestão a estratégia, de tomada de decisão a relacionamento com pessoas. É um mundo bem diferente, de muita incerteza.

E tudo isso é bem sério, tão sério que não quero mais brincar. Quero sair logo do PlayGround!


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