O que a sua imagem e a dos bem sucedidos tem em comum?

Os bem sucedidos são inspiradores para que busquemos o sucesso, mas o que será que há por trás disso que não percebemos à primeira vista?


Existe uma coisa que incomoda bastante as pessoas: o sucesso pautado por um estereótipo repetitivo, que geralmente está associado a coisas quase impossíveis de serem feitas por pessoas normais.

É o cara que largou tudo para viver do que gosta. O jovem de 20 e poucos anos que fundou uma Startup de bilhões. A criança que vende artesanato ou limão na frente de casa — quem nunca? — e assim, paga seus estudos…

E por que isso incomoda?

99,9% das pessoas que trabalham nesse planeta, fazem porque precisam de dinheiro para pagar suas contas. Boa parte delas, fazem o que não gostam, ou não gostam do que fazem, do chefe, do mundo ao seu redor. E ver que alguém tá sendo feliz no trabalho traz muitos questionamentos, inclusive da capacidade de cada um. A maioria dessas pessoas não sabem exatamente o que gostariam de fazer. Além de que, esse negócio de fazer o que gosta é bem subjetivo.

Afinal, quem pagaria para uma pessoa dormir, assistir séries e viajar por aí ao menos uma vez por ano? Isso sim é fazer o que ama.

Mas essa coisa de ver o tempo todo “pessoas conseguindo” mexe com a gente de muitas formas. Primeiro, porque gostamos de acreditar na histórias das princesas da Disney, segundo porque começamos a questionar que o mundo de fantasia não nos parece assim tão perfeito quando comparado com a nossa própria realidade.

Busca “larguei tudo” no Google — sou ótima na arte da colagem ;)

É impossível ler uma notícia como essa e não pensar: “o que estou fazendo da minha vida?”. “Por que eu não consigo largar tudo e sair por aí fazendo o que gosto e sendo feliz?”

Gostamos de ver o sucesso e a felicidade alheia, mas questionamos arduamente nossa capacidade de ser o reflexo do que admiramos.

Mas aí você lê textos como esse (um pouco superficial e agressivo) e esse (profundo e preocupado com o impacto da mensagem) e vê que não está sozinho nesse mundo. Existem pessoas questionando esse culto ao “largar tudo”.

E veja bem, já larguei tudo 2 vezes para ir viajar, é maravilhoso enquanto se está lá e o quanto é possível perceber o tamanho da força que existe em nós. Mas temos que ter um cuidado gigantesco ao sair ‘evangelizando’ que essa é a melhor coisa do mundo, porque não é. “Largar tudo” não faz de ninguém melhor que os outros por isso. E jamais podemos esquecer que a realidade é sempre muito dura. As dificuldades triplicam quando você enfrenta o mundo, os paradigmas e os velhos conceito ao arriscar tudo para encontrar seu lugar no mundo.

Acontece que esse é o perfil que queremos vender e comprar, a coragem, o final feliz, o empreendedorismo, o sucesso!

Não à toa, dentro do tema empreendedorismo, podemos encontrar diversas notícias e reportagens como essas:

Pesquisa por “jovem + empresa” no Google.
O arquétipo do empreendedor impecável, prodígio e fora-da-curva em todos os sentidos. (http://www.wylinka.org.br/deep/?p=265)

Essa ideia inspiracional tentando provar que o mundo é colorido se existir uma gama de coragem, fé e persistência provoca as mesmas reações que sentimos ao percebermos que não fazemos o que amamos, ou precisamos suportar inúmeras insatisfações e frustrações para honrar as contas sagradas de todo mês. É preciso, antes de tudo, entender algumas coisas…

1 — Quanto mais velha a pessoa for, mais presa ao conceito de trabalhar para viver estará arraigado. Mais conservador e avesso ao risco essa pessoa tenderá a ser.

2 — Quanto mais novo for, mais propenso ao risco, maiores serão as possibilidades de inovação, porque o mundo ainda é uma descoberta, e mais acesso a novas tecnologias terá.

3 — Regra e exceção existem para entendermos o conceito, não para termos como verdades.

Essa imagem talvez seja a maior prova que para empreender e construir uma empresa de sucesso não existe tarde demais. John Pemberton inventou a Coca-Cola quando tinha 55 anos.

O garoto(a) prodígio é exceção e por isso desperta tanto interesse da mídia, mas não é regra. Em nenhum lugar desse mundo está escrito que temos que empreender aos 18 anos ou nunca teremos sido destaque ou seremos importantes. Por mais que pareça regra nos Estados Unidos, nem todo empreendedor vendeu limonada na frente de casa quando era criança.

E a maior nocividade de se vender somente esse perfil é o mesmo que o de quem largou tudo pra [insira aqui sua aspiração motivacional]. Porque passa a ideia que empreender é fácil, que qualquer um com um computador e uma ideia boa, vai conseguir criar uma empresa de bilhões. Não é que isso seja impossível — a prova está nas notícias que borbulham — mas nem de longe é uma tarefa tranquila e natural.

O risco dessa imagem “oba-oba” é desestimular ao invés de inspirar. É por o risco na mão de pessoas que não sabem exatamente onde vão pisar. É a ilusão do “se ele conseguiu, por que eu não posso?”. Você pode, mas saiba que tudo nesse mundo tem ao menos um ônus e ao menos um bônus, depende dos riscos que aceita correr e principalmente o objetivo que se tem na vida.

Mês passado, dei duas entrevista sobre empreendedorismo, tentei passar uma imagem otimista, porque essa sou eu, mas sem perder o foco na realidade. Sim, vendi artesanato para minhas amigas quando era criança feitos por mim. Aos 20 anos tive uma empresa inovadora para a época, já fui trainee, tinha um futuro promissor e larguei tudo para me reencontrar e hoje tenho a dura tarefa de empreender e fomentar o empreendedorismo e é apenas essa última imagem que quero passar.

Porque apesar da estória bonitinha que queremos contar, nada disso foi uma entrega efetiva. É disso que precisamos, entregas reais, valores reais. Fazer a diferença de alguma forma, não apenas abrir empresas revolucionárias com potencial bilionário sem considerar os riscos, os dramas, empecilhos e dificuldades que se passa para se chegar lá.

Assim como o pessoal da matéria, tão importante quanto o sucesso que tiveram é entender o que eles de fato passaram e como eles superaram suas próprias dificuldades, não deve ter sido fácil, tem barreiras, tem a realidade nua e crua batendo na porta todos os dias. É essa identidade que está faltando alcançar, essa afinidade com o especial e a conquista.

Estamos sedentos por realidade, transparência e verdade. Queremos a todo custo ver gente como a gente. Ser representados por quem tem coragem, fé e perseverança, sim, mas quem também sabe que para triunfar é preciso muito mais que isso, todos os dias, quando a vontade de desistir aparece, quando as contas insistem em aparecer todos os meses sem trégua. Quando precisa olhar intimamente pra sua vida e convencer a você e as pessoas que o cercam que não é maluco por ter um sonho e que no final tudo isso valerá a pena.

Existe uma conexão direta entre as escolhas que fazemos, os riscos que aceitamos correr e a energia despendida para alcançar o que se almeja. Não é apenas uma questão de esforço ou sacrifício versus recompensa e felicidade, há muito mais envolvido nessas duas esferas, nesse espaço que separa o bem sucedido do que não chegou lá. A maioria está atrelada a como reagimos ao mundo e não necessariamente em fator do que recebemos dele.

Uma vez, dando um curso de Finanças para micro e pequenas empresas, um senhor levantou a mão e indagou:

  • E se eu não quiser ter uma multinacional? Se eu quiser ter apenas minha panificadora e ser feliz assim?

Não há problema algum em se ter uma vida normal, não tem restrição alguma em não fazer coisas grandiosas. Sucesso nem sempre é ser o maior, melhor e inesquecível. Para muitos, sucesso é ser feliz, ter um emprego bacana que sustente seus sonhos, sem muito alvoroço, sem muitos holofotes.

Brilhante mesmo é se reconhecer dentro dos seus sonhos, grandes ou pequenos, e ser feliz com eles.

Essa sim é uma história que inspira! No fim das contas, todo mundo quer, mesmo que minimamente, ser feliz.

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