
Carta ao Bruninho do passado.
Hoje é 24/11/2015 e eu acabei de completar 20 anos de existência e também 20 voltas ao redor do Sol. Bizarro isso, né? Pensar que à cada ano que passa completamos uma volta ao redor do Sol… Às pessoas costumam perder o hábito de prestar atenção na maravilhosidade das coisas, mas isso é algo que, felizmente, eu resgatei na gente. Tinha dito pra mim mesmo que ao chegar nos 20 anos iria escrever uma carta pro Bruninho do passado. Apesar desse carta ser direcionado pra você, muitas outras pessoas vão lê-lo, então é melhor contar uma história desde o começo.
Até um tempo atrás, se eu não me engano em uma situação que estava reunidos eu, a mãe e a Carol (esposa do meu tio e nova integrante da família) na sala da casa da Vó, ela começou a contar do dia em que teve a gente. Essa história eu já tinha ouvido milhares de vezes mas não sabia da parte em que fui pra casa. Bom, você sabe que a mãe engravidou de nós aos 21 anos e que você é, como diria ela, é "apressado" e nasceu de 7 meses e que no dia que você nasceu, o Vô jogou ela no carro e foi perambulando em diversos hospitais de São Paulo pra dar entrada na emergência pra ter você e quase todos os hospitais recusaram, até que no último momento, quando não tinha mais jeito, o Hospital São Paulo deu entrada ao seu trabalho de parto, né? E que por ter nascido prematuramente, pôs em risco a vida da sua mãe, na qual o médico teve que perguntar pra ela se, em última instância, ela desejaria se a vida dela fosse preservada ou fosse sacrificada pela vida do bebê, né? Então, nesse dia ela estava contando toda essa história pra Carol e contou também a parte que nós ainda não tínhamos ouvido, que no caso é a parte em que ela nos trouxe pra casa. Como nascemos prematuramente, tivemos que ficar quase 1 mês na incubadora. A mãe estava um pouco chateada por ter que deixar a gente no hospital mas tava aliviada que viemos à vida. Um mês depois, no dia 24 de Dezembro de 1995, ela recebeu uma ligação do hospital, dizendo para ela comparecer lá, sem dizer o motivo. Ela disse que ficou aflita e foi correndo com o Vô pro hospital. Ao chegar, a enfermeira disse que tava tudo bem e que tinha uma surpresa pra ela: poderia me levar pra casa naquele dia. Esse era seu presente de Natal. Eles voltaram pulando de alegria e, quando eles chegaram, estava a família toda reunida na casa da Bisa pra ceia de Natal e nós pegamos todo mundo de surpresa. Aposto que foi um dos melhores natais que tivemos.
Eu e você fomos muito bom em ir contra o fluxo natural das coisas. Uma prova disso é termos nascido de 7 meses quando o fluxo natural diz que as pessoas costumam nascer com 9 meses. Nós tivemos coragem de desafiar os alicerces da vida e isso mudou tudo. Por exemplo, se tivéssemos nascido de 9 meses, teríamos nascido em 1996, e se tivéssemos nascido em 1996 nós teríamos entrado na escola mais tarde, e se tivéssemos entrado na escola mais tarde, não teríamos conhecidos nossos melhores amigos que passamos 9 anos convivendo juntos, todos os dias. Se tivéssemos nascido de 9 meses, teríamos completado 18 anos apenas no outro ano, e isso impossibilitaria novas bebedeiras em lugares novos enquanto nossos amigos estão lá e impossibilitaria de conhecer pessoas novas.
Hoje você tá crescido. Sua voz engrossou. Você tem barba e bigode na cara e quase ninguém ainda te chama de “Bruninho” (você passou a vida todo sendo baixinho mas espichou do nada e deve imaginar quem são as pessoas que continuam te chamando de Bruninho e sabe também que elas vão te chamar assim pro resto da vida). A vida de adulto é meio bosta, você sabe, mas saiba também que você teve novas experiências, criou novos laços, conheceu novos lugares, se decepcionou bastante, riu até a barriga trincar diversas vezes e chorou também algumas vezes. Tudo é sempre uma balança de dois pesos.
Sua mãe tem muito orgulho de você, apesar de tudo. Aliás, todo mundo tem orgulho de você. Principalmente a Vó, você sabe que ela tinha muito orgulho de você, demais mesmo. Inclusive a gente lidou bem com a perda dela e dos nossos bisavós, mas saiba que ela está bem, pois ela transparecia isso em todos os sonhos que tive com ela. Hoje em dia a gente ainda tem a atitude “aborrescente” de se isolar e e se fazer distante mas eu tenho ciência de que, apesar de agir assim, isso é fase e vai acabar.
Eu queria te dizer que você pode ficar tranquilo que todas as nossas boas memórias estão guardadas e eu prometo que vou guardá-las até o último instante de vida. Prometo que vou potencializar todo nosso âmbito de pessoas e lugares conhecidos e risadas dadas. Da próxima vez que conversarmos
Isso tudo foi escrito pouco antes da meia-noite do dia 23 e o Surto dos 20 Anos bateu forte. Fazendo toda essa retrospectiva, senti uma tristeza enorme uma grande solidão. Questiono toda minha existência até agora mas também me lembro com felicidade de tudo o que vivi até hoje. Apesar de tudo, to muito grato por ter nascido prematuramente e ter nascido nessa cidade, nesse estado, nesse país e nessa família. Por um pequeno detalhe, tudo poderia ter sido diferente, né? Teoria do Caos e tal (sim, você ama essas coisas)…
Então é isso, Bruninho: você chegou aos 20 anos de idade. Pode ficar tranquilo que você continua sendo o mesmo menino bobo e idiota que sempre foi e pode ter certeza que eu nunca vou deixar isso morrer na gente. Ah, também nossas éticas e ideais estão bem guardadinhos, você continua sendo um garoto responsa. Eu sei que o que você mais queria era parar nessa idade e viver todo seu passado de novo em loop até estar velho suficiente pra partir, eu sei que suas memórias, seus laços e suas experiências são as coisas mais preciosas e mais valorosas que você tem, mas não há caminho de volta e temos sempre que agregar mais experiências, não é mesmo? Enfim, foi um prazer te reencontrar hoje. Eu estava com saudades de você, e pode deixar que eu vou fazer de tudo pra cuidar bem do nosso espírito.
Eu gosto muito de você, moleque.
Nos vemos de novo daqui há 10 anos.