Minha memória saiu pra comprar cigarros…

…e nunca mais voltou.

Foto: Centro de Campinas. — Por Bruno Silva (YashicaMat LM + Filme Lomography B&W ISO100)

Trabalho há 20 km da minha casa, em outra cidade, vou trabalhar a bordo de um ônibus fretado todo santo dia. Salvo algumas exceções, quando tenho que ir de carro quando perco a hora. E foi o que aconteceu sexta-feira passada.
Quando cheguei em casa ao fim do dia, fui pegar o carro para buscar minha esposa no trabalho e… cadê meu carro? “ROUBARAM!” Foi a primeira coisa que pensei. A segunda foi: Puta que pariu, voltei de fretado e esqueci o carro na empresa.

Sim, voltei do trabalho todo pimpão de ônibus e esqueci que tinha ido trabalhar de carro.
Com 33 anos nas costas tive que apelar pra minha mãe me levar até a empresa de carro - pois não passa ônibus por lá - pra não ter que passar o fim de semana sem carro.

Onde foi que eu errei nesses 33 anos de vida?

Errei a época do nascimento.

Nasci em 1981. Tempos onde você vendia o telefone fixo pra ajudar na compra de uma casa. Naquela época o máximo de informações que eu recebia por dia se resumia à escola (consultando a Barça, Delta, Enciclopédia do Estudante), em casa lendo jornal ou a Super Interessante e nos bate-papos com os amigos. TV, só Jornal Nacional ou Globo Repórter.

Isso quer dizer o quê?

Quer dizer que meu HD interno é tipo o que eu tinha no meu 486 DX4 100MHz, meu primeiro computador: 100Mb. Ou seja: Foi moldado para receber certa quantidade de informações por dia que hoje não representam 1% do bombardeio de distrações e informações (mais distrações que informações relevantes) que tenho a partir de cada nascer do sol. Sendo acordando e consultando a temperatura do dia no celular, seja nas malditas redes sociais, e-mails, mensagens internas no trabalho. Nossos dias estão mais corridos, mais atribulados, e cada vez conseguimos absorver menos do que deveríamos. Meu cérebro dá um “ok, blz, vou lembrar”, mas no fim das contas, de que eu tinha que me lembrar mesmo? Foi-se. Ficou perdido no oceano de bobagens, de inutilidades.
Tudo virou abobrinha.

Aí vejo aquelas pessoas dizendo pra pararmos de fotografar e guardarmos mais na memória os momentos bons. Não, cara. O lugar menos seguro pra se guardar alguma coisa, ultimamente, é minha memória.
“Olha, vou te contar uma coisa, mas não conta pra ninguém!” — Fica tranquilo. Eu vou me esquecer disso em 10… 9… 8…

É um caminho sem volta. Bom mesmo era quando, pra melhorar a memória, era só tomar Biotônico Fontoura, que tinha álcool e deixava a criançada sem lembrar nada no dia seguinte.

Agora me dá licença que tenho muito que fazer.

O que eu tinha que fazer agora mesmo?

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