artes, mar e existência
O mar é como um lar para mim. Desde pequena aquela água salgada é um bálsamo para meu coração, entre as ondas que curam e ardem e aliviam e afogam. Que vêm e que vão. Que destroem casas e que reconstroem a alma.
Eu estava lá esse fim de semana. Precisava me curar entre a maresia grudenta e a areia que, desagradavelmente, entra em lugares de forma incômoda. E entre aquelas lindas ondas, iluminadas pelo sol e pela lua (eu presenciava o mar em todos os horários possíveis), eu via o quanto o mundo era uma imensidão. O quanto a vida pode ser imensa, se permitirmos.
Peguei minha aquarela em pastilha e comecei a jorrar as cores pelo papel. O som das ondas ditava o ritmo do pincel na minha mão. Eu me deliciava com minhas cores frias que tanto amo: o azul, o verde e o branco. A praia é uma explosão de cores, mas eu a retratei com cores frias e neutras. É como eu me sinto. É como minha alma se acalma. Como ela é.
Dentro de mim tudo queima, arde, brilha intensamente em cores frias. E eu me despejava entre as tintas conforme desenhava o mar. Conforme sentia o pôr-do-sol se erguer no céu e o vento gelado bater em minhas pernas. As cores continuavam a dançar pelo papel. A cada mistura de cores eu sentia minhas preocupações, medos e angústias se tornarem homogênios em meio ao cinza, ao azul e ao verde.
A arte se mostrou a melhor meditação que eu poderia pedir. Uma mente inquieta encontrou silêncio entre as cores. E isso me fez pensar em como a arte é uma forma belíssima transitar pelo mundo. Como é importante encontrar nossas formas de nos expressar. Descobri que para mim, a arte em geral sempre será a melhor coisa que eu terei para me transbordar nesse mundo. É o que pinta, forma, registra, descreve, transcreve, brilha, firma e intensifica o existir. É o que constrói e reconstrói a alma. E como o mar, a arte pode ser linda e mortal, calma e selvagem, é garoa e tempestade, é sol e é dia nublado, é a inconstância das vivências.
A arte é ser. É se tornar. É ressignificar e renascer.
E a partir desse lindo e delicioso silêncio, não havia mais nada ali. Apenas a vida, as cores da pintura e o mar.
Três coisas que descobri serem imensidões.
