(olhos verdes)
Eu a percebo de longe. Vejo seus olhos plásticos vidrados em algo que lhe chamou atenção. Está fascinada. Observo-a e ela me vê. Nossos olhos se encontram e sustento o olhar, admirando a beleza dela. Alguém a tira do meu campo de visão e eu a perco de vista. Em minha cabeça, que estava sofrendo por antecedência, já passavam-se anos deste encontro e eu lembrava com melancolia daquela mulher. Como eu poderia esquecer alguém que nem ela?
Durante esse devaneio, volto ao que estava fazendo e de costas para o balcão, alguém pigarreia e me pede licença. Levanto minha cabeça e me deparo com aqueles olhos que antes me pareciam plastificados, agora me parecem profundos.
Será que você poderia me ajudar? Se eu pudesse eu te daria o mundo, meu bem. Eu nem a conheço e já estava encantada. Talvez ela nem tivesse a intenção, mas eu era completamente dela naquele momento e não poderia perceber nada ao meu redor que não fosse o brilho dos seus olhos ou o movimento de seus lábios enquanto me enchia de perguntas que eu não prestava atenção, só o som da sua voz entrava em meus ouvidos, tal qual uma música, me encantava.
Eu não sabia o que estava acontecendo, não sabia o que estava sentindo. Era algo tão novo. Nunca tinha sentido isso por ninguém.
No meio de todas as perguntas que ela me fez, peço desculpas pela atenção que não prestei e a chamo para sair. Vamos jantar amanhã a noite, o que acha?, eu arrisco. Ela me olha, faz uma negativa e diz: por que deixar para amanhã, podemos jantar hoje mesmo. Logo menos te encontro no restaurante da esquina e nos vemos.
Na ânsia desse encontro, esqueço o casaco e saio tão rápido que esqueço que havia marcado de esperar um amigo na saída do trabalho, pois ele tinha prometido arrumar minha câmera. Era um bom moço, mas não o merecia. Pensava nele como um irmão e não como um marido, mas era assim que ele me via, apesar de todas as minhas negativas. Não era capaz de ver com ele um futuro feliz.
Chego ao restaurante, mas não a encontro em lugar algum. O garçom pergunta se estou esperando alguém e nesse momento eu me dou conta que nem o seu nome eu sabia. Olho para todos os lados, a procura dos seus belos olhos e descrevo a fisionomia dela. O garçom me abre um sorriso e diz que alguém com essa descrição estava a espera de alguém com a minha descrição, está nos fundos, por favor, me acompanhe.
Eu a vejo, enquanto ela bebe um gole de vinho. Num lapso, me vejo me perdendo novamente em seus olhos e na sua voz.
Ela é a modelo perfeita para as minhas melhores fotos. Tem o enquadramento perfeito. Qualquer ângulo lhe favorece e seu sorriso é um chamariz.
A noite passa tão agradável e eu não quero que termine. Eu gostaria de passar horas e horas e dias e meses só para ter certeza que eu iria gravar com perfeição cada um dos seus detalhes. Quero gravar esse momento, esse sentimento na minha carne por toda a minha eternidade. Todos esses sentimentos bons. A forma como ela me trata. O carinho que brota das suas mãos. O aconchego que ela tem. O cheiro do perfume me atrai. Tudo nela parece que foi feito para me agradar.
Devo partir, está tarde. Por dentro só quero gritar para que fique mais um pouco, que deixe o lugar comigo e parta comigo a um lugar que se torne só nosso.
Jamais saberei o que aconteceria conosco se eu a tivesse convidado para outra coisa, mas eu gostaria de descobrir.
