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anti-intelectualismo: sentimento hostil em relação aos méritos da ciência, da educação, artes e literatura.

o emprego de elementos anti-intelectuais no discurso político frequentemente é marcado pela combinação de farsa e irresponsabilidade ideológica.

a CNN, maior rede de notícias do globo(*), recentemente publicou uma série de três artigos(**) sobre o vice-presidente dos EUA general Mike Pence, ícone da onda “anti-intelectual” na política americana.

Pence é um ávido crítico da comunidade científica quanto às mudanças climáticas: “aquecimento global é mito” — sem qualquer respaldo científico acrescentou que “a terra está mais fria que há 50 anos atrás”.

afirmou também que a ciência evolutiva (de Darwin) não merecia o mesmo respeito que outras visões sobre a origem da vida; e misturou dados pra tentar ‘soltar a tese’ de que o “tabagismo não era a causa de morte de 2/3 dos fumantes”.

esse tipo de político faz sucesso especialmente pelo potencial de cativar um sentimento que já existe em boa parte da sociedade que se sente excluída ou marginalizada do acesso ao saber científico (por motivos diversos como, por exemplo, condições sócio-econômicas), mesmo que não ‘plenamente conscientes’ disso.

o ciclo moderno do anti-intelectualismo (recordando a perseguição do vaticano a Galileo como exemplo) que geralmente atrai curiosos inicialmente com pequenas falácias, tem mostrado faces ‘inusitadas’ (pra não dizer perigosas): uns tantos grupos tem defendido que a terra é plana e recentemente um grupo britânico promoveu uma convenção onde definiram que a gravidade não existe(***).

assustadoramente, movimentos dessa natureza ganham força no Brasil insuflados pelo momento de campanha presidencial. concentram-se ao redor da candidatura de um sujeito que em quase 30 anos da carreira como deputado dedicou-se principalmente a propagação de um discurso de ódio e intolerância.

ONU, imprensa do mundo todo, comunidades científicas internacionais inteiras — da economia, da natureza, do direito, da política — e até a própria democracia têm sido continuamente descreditadas por esses movimentos em favor de uma suposta “grande causa” de frear “a grande ameaça” aos valores de bem: família, tradição, propriedade.

todos, absolutamente todos aqueles que partilham minimamente de senso democrático e republicano, que prezam pelo saber e progresso científicos, e pelo inestimável valor da educação, das artes e da cultura, têm hoje o dever de manifestar-se contra a capitulação desse decadente episódio na história da civilização.

é tempo de dizer #eleNão! tempo de bradar #eleNunca! tempo de gritar #fascismoJamais!

(*): assim como a grande maioria da mídia corporativa mundial, não surpreende que só dê publicidade ao que lhe é conveniente.
(**): https://edition.cnn.com/2018/08/31/opinions/mike-pence-problem-with-science-dantonio-eisner/index.html
(***): https://emais.estadao.com.br/noticias/comportamento,convencao-de-terraplanistas-define-que-gravidade-nao-existe,70002291629