[+18] Na vida cão, a sessão pornô da rua é a catarse

Foto meramente ilustrativa

O que mais, gatinha? O que mais, gatinha?

Essa pergunta ainda faz eco na minha cabeça quando me lembro do protótipo de barman tirando onda com a prostituta. Ela vestia uma saia, um top sem forma que só cobria os peitos e estava com um rabo de cavalo malfeito. O típico clichê da puta barata e gorda. Ele oferecia a ela salgadinho, drinks, cerveja, refrigerante e o que ela quisesse. Ela ficou com um suco sem gelo.

O ambiente era escuro, com música alta e batidas de som. As luzes davam uma sensação de movimento em câmera lenta. A luz estroboscópica emitia pulsões de luz em intervalos de tempo sincronizado. E lógico, não poderia faltar ali o globo de luzes coloridas.

Que diabos eu fazia ali?!

Eu estava em busca dos antes requisitados cinemas de rua. Aqueles que com o tempo, redução de clientes e falta de verba, fecharam as portas na cidade sorriso e em território tupiniquim. Sabia que naquele dia seria um tanto quanto complicado encontrá-los. E os que estão abertos exibem sessões corridas que ataca ou fere o que é considerado moral, pudico ou de bons costumes.

É sobre dominação, é maior que você, a projeção surge de fora e o ambiente é construído para potencializar a experiência. Você se insere num mundo diferente, foca no ato e esquece dos problemas do mundo cão. Como um soco no estômago, uma ferramenta de conhecimento pessoal e do diferente. Uma fuga da realidade.

Trata-se de uma conversa inteligente. Vamos bater um papo?

Prédios de cimento batido, com pinturas mal acabadas no coração de Curitiba. Trânsito, tráfego intenso às duas da tarde de terça-feira. E as pessoas — pós-almoço, pós-coito, pós-briga, pós-sono, pós-aula. No São Francisco, bairro boêmio e queridinho dos turistas, uma demanda alternativa de oferta e procura.

Depois de andar por alguns locais no centro da cidade e não encontrar o que eu procurava, encontrei numa das ruas de lá, num outro dia inclusive, uma placa que indicava um “Cine Privê”. No pós-trabalho, resolvi ver qual era a das cabines pornográficas. Depois de um trago, resolvi respirar fundo e entrar.

Poucos metros quadrados, o ambiente formava um “L”. Diversas cabines fechadas no corredor, um balcão vazio e filmes pornôs dispersos nas prateleiras improvisadas. O consumidor poderia assistir diversos filmes ao mesmo tempo. Só havia uma regra: uma pessoa por cabine. Observei bem o local até achar alguém. Que diabos de pergunta eu ia fazer? Que diabos de justificativa eu ia dar por estar ali? Bem, quem disse que eu precisava dar alguma justificativa? Meus bons costumes gritando pra eu sair correndo dali?!

O senhor que veio em direção a mim no meio da tarde tinha cabelo grisalho, um óculos de armação simples e me fitava com certa surpresa. Perguntei sobre os cinemas de rua, e ele me apontou a próxima esquina.

Achei que ali fosse um puteiro, pensei. Mas funciona de forma bem conveniente. Na boca da rua, um bar. Nos fundos, próximo as escadas, uma bilheteria. Sessão corrida, pelo tempo que quiser, com quem quiser. Perguntei o horário de funcionamento, das 10h às 18h. Agradeci e sai do local, eu não queria estar ali sozinha.

No caminho para casa, com fones e rindo da situação, um homem veio atrás de mim. Me abordou na primeira deixa.

A luz do dia, eu ali sendo orientada sobre cinema pornô por um desconhecido, que portava nas mãos tremulas contas a pagar, uma carteira e dois DVD’s pornôs que ele me mostrava com entusiasmo.

Freud, no início do século 20, em seu artigo sobre a vida sexual humana explica que a motivação da sociedade é, em última instância, uma motivação econômica. Como ela não dispõe de gêneros alimentícios suficientes para a manutenção de seus membros sem que eles precisem trabalhar, é necessário limitar o número desses membros e desviar sua energia da atividade sexual para o trabalho. Oras, mero mandato social. Domado, Restringido, submetido. Como diria o jovem Cooper: convenções sociais.

Frequentador das sessões de rua, ele e sua mulher gostam de ir até a Desembargador Ermelino de Leão. Ela, empresária, esteve num relacionamento abusivo por quase toda sua existência, encontrou naquele homem um refúgio e a liberdade de ser quem ela quisesse ser. Ela pode vestir roupas curtas e fazer tudo o que tem vontade, longe do ex marido opressor que mantinha o mesmo repertório na cama. Diversão era o sobrenome daquele casal. Instinto, desejo, perversão.

Ele tentou me explicar como chegar no endereço, como eu não conseguia me localizar, se ofereceu pra me mostrar o caminho. Aceitei. Elemento número um da ética é o compromisso com a verdade. Objetivo principal: não mentir. Ele queria saber o que eu gosto, o que eu procuro, por que eu queria frequentar aquele lugar e ainda me deu um convite a um ménage à trois — porque não são todos os dias que a gente sai recebendo um convite desses, né?!

Escapuli do questionário. Disse que era curiosa. Divaguei sobre liberdade sexual e não parei de fazer perguntas. Ele perguntou se eu bebia, aceitei uma cerveja. Quando eu vi, já tinha subido um lance de escadas, ele tinha pago nossas entradas e estávamos no bar. Ele me serviu um copo e ficamos conversando por uns dez minutos. O telefone dele tocou, ele ignorou. O telefone tocou de novo. Disse para ele atender, ele me disse que era a mulher e perguntou se eu me importava em ficar ali sozinha. Ele partiu.

Claramente eu não me importava de ficar em um ambiente desconhecido, com raparigas e homens atrás de uma punheta — ou de uma chupada.

O movimento no segundo andar aumentou, de costas para a porta principal percebi o movimento. Algumas pessoas passavam no banheiro antes de voltar ao trabalho ou ir para casa. O Ari havia me alertado sobre os olhares curiosos, mas me garantiu que ninguém me abordaria se eu não desse um sinal.

No terceiro andar, poltronas disponíveis para 270 pessoas. Segundo o vendedor de bilhetes, a rotatividade de clientes por dia chegava a 200 pessoas. 14 conto cada cabeça, pelo tempo que quiser. No duro, quase 3 mil por dia. De segunda a sábado, ali, das 10h às 22h. No domingo, das 12h às 22h. E a entrada para menores de 18 anos era proibida.

Um retroprojetor e dez horas seguidas de muita putaria, sexo hétero e genitálias explícitas. Sessões corridas. O gênero foi introduzido no país na década de 1970.

O que marca neste ambiente é o que acontece dentro da sala. Quando questionei o Ari sobre uma aventura épica que ele tivesse tido com a mulher, me disse que em uma dessas sessões, "rolou ali mesmo, pra quem quisesse ver”, e relembrou de um homem que chegou neles e perguntou se poderia participar. Ele não respondeu, quando viu o homem estava chupando a mulher e conta que ficou com muito tesão.

Enquanto os filmes são exibidos, práticas sexuais ocorrem sem censura, o espectador tem a liberdade de andar pela sala iluminada pelo telão. Frequência majoritariamente masculina, de todas as idades.

As garotas de programa e transexuais oferecem seus serviços ali mesmo no chão, nas poltronas ou no banheiro. Portam pouca roupa, insinuam seus corpos e a oferta é a preço de banana.

Discrição, “sexo anônimo”, possibilidade da prática sexual com desconhecidos e pouca iluminação. Afinal, “negar os nossos instintos, é negar tudo o que nos torna humanos”.

Existe diferença entre o que você gostaria de ser e o que você é. Em 1791, por exemplo, Mozart morre deprimido porque esperavam dele o trivial, não o genial. Não atendeu aos desejos da demanda. Foi castrado, reprimido e invalidado.

O instinto que temos é a necessidade, o desejo é a pulsão — vem do outro, não há desejo sem falta. Não desejar mais nada é a morte.

Com qual intensidade você vive?

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*texto originalmente publicado no Pós-Créditos