Não é sério o que dizem sobre a galinha d’angola
Nunca tive a pretensão de reencarnar Sísifo, Prometeu ou qualquer outro grande nome, de ser o martírio do mundo e de deixar um reavivado rastro de inspiração pela humanidade.
Mas aqui, na ponta dos pés e na condensação do respiro, submersa em panos e na companhia de luzes frias e quentes, sempre senti que deveria sofrer até o próprio limite da vida. Afinal, que coisa horrível era aquela de ser fraca.
Talvez eu merecesse sofrer, talvez nem sempre. A questão da Justiça, um pouco crucial em outros aspectos da minha vida, aqui não era assim tão relevante. A Verdade é que eu tinha a obrigação de aguentar, aguentar o que quer que fosse.
Talvez tudo isso tenha começado por pura sobrevivência. Eu olho para a minha preocupação com as contas em casa quando mal sabia fazer contas fora dela e, bom, tenho alguma certeza de que foi por sobrevivência. Mas depois creio que esse tenha se tornado apenas um modus operandi, um habitus que só existe nesse microcampo, um campo fechado, trancado, sem hierarquias, todo escuro e silencioso por dentro. Mas é o que é e é o que há por aqui.
Desde o impulso e a culpa de comer até os olhares pesados sobre a abstenção da fome, eu via que tudo que entrasse e tudo que fosse regurgitado de mim precisava ser forte. Porque ser fraca sempre foi a última das qualidades, a geradora de um medo maior do que sua própria prática. No final de uma lista infinita de expectativas um tanto cômicas e outro qual insalubres, a fraqueza talvez fosse a única parceira para a qual eu não pudesse me entregar.
Ceder a ela era como ceder ao horror, ao Inferno, ao desprezível, ao inaceitável e ao necessariamente esquecido. E lidar com os resultados de qualquer outra coisa à qual eu resolvesse ou fosse obrigada a ceder, bom, também fazia parte de ser forte.
No fundo eu acho que ninguém jamais disse, com palavras, que eu precisava ser forte. Tudo que eu sempre ouvi esteve colocado muito fora do tempo e muito preso a ele também: você é forte. A pessoa mais forte que já conheci.
Tal qual um mito Original, a minha alcunha já estava ali. Desde sempre. Mas quem acredita nisso?
Num acúmulo de fraquezas, de dores, de mutilações de pele e alma, diziam que eu era forte. E talvez isso doesse mais do que qualquer outro rasgo, porque sempre foi e também nunca foi uma espécie de verdade.
Eu escrevo no passado mas também o trago para o hoje. Eu destruo meus fígados e levanto minhas pedras em relativo silêncio. Porque romper o silêncio é ser, de alguma forma, uma grande iconoclasta. E quase nunca num sentido suficientemente revolucionário.
