Vazio do vazio
Esse poema eu escrevi em 2014 e lembrei dele no ônibus hj
Contemplo o templo em que meu corpo se transformou
Com o passar de um tempo
Tempo que sequer me avisou
Tempo que não me temeu
Tempo que me tomou o contemplar, o contar tempo com os dedos
Tempo na tela, tempo no talo
Temo que eu já esteja no talo
Templo da criança tola
Que tremia de medo e se esqueceu de parar de temer
Que cresceu e se esqueceu de crescer
Que existiu e se esqueceu de existir
Templo só, agora; nada mais
Templo corpo, não mente
Mente sim, diz-me tantas coisas, irreais:
Que sou mais forte que sou
Mais completa que sou
Mais humana que sou
Não soo como pessoa
Soo como ressoa
Um toque no tronco de uma árvore morta
Um nó de dedo contra a madeira oca
Nós na minha cabeça não são mais que meus cabelos embaraçados
Nós na minha cabeça nunca foram enlaçados
Nós contra a minha cabeça fazem aquele mesmo som
E não consigo me esvaziar
Nunca tive e não tenho o que tirar
Pois meu corpo é templo, mas minha mente não é oca
É oca
Sou oca
Como o corpo de um bem-te-vi
A caminho de um horizonte,
Todo o tempo
Toda a vida
Sem perguntar por quê.
