Aulas de natação para novos adultos

No meu colégio, as olimpíadas eram disputadas por séries distintas: quinta vs sexta, sétima vs oitava e os três anos do ensino médio se juntavam em um mesmo bloco. O ano acima do meu tinha uma penca de meninas atléticas, altas e rápidas. Dentro da minha turma, era possível contar nos dedos algumas que se destacavam pela desenvoltura nas quadras. O negócio é que o bicho pegava mesmo no dia de competir a natação: nenhuma de nós queria participar, era vergonhoso entrar na água para perder feio, enquanto nossas competidoras ondulavam os corpos com agilidade nas raias ao lado. Porém, pior do que perder nadando mal era nem ao menos tentar, então lá íamos nós, trajando um maiô azul marinho cavado, lutar pelo resto de orgulho que poderia ser preservado. E eu, claro, era uma das que quase sempre se voluntariava para compor o exército da salvação. Eu não era a pior de todas, mas estava longe de ser uma Joanna Maranhão em treinamento.

A ansiedade antes de mergulhar me matava, quando escutava o tiro de largada sentia meu coração chegando à boca. Nadava olhando para os lados, perdendo segundos preciosos, só para me certificar de que, sim, eu iria perder. A cada vez que minha cabeça levantava buscando ar, ouvia os gritos dos alunos que rodeavam a piscina da escola, torcendo pelas suas corajosas representantes. Acho que eu até ganhei medalhas de prata algumas vezes, o que fazia todo o mal-estar valer a pena. E a cada olimpíada, eu dizia: olha, ano que vem não nado mais!

Em 2017, meus joelhos estragados por corridas sem alongamento estão pedindo arrego, e eu me vi encarando a piscina de novo. Ainda não voltei de vez, mas fiz algumas aulas experimentais para decidir se era algo que eu queria incluir na minha vida. Em cada uma delas, senti a Bia dos tempos escolares emergindo em meio ao cloro, tentando ser boa o suficiente, mostrando para o professor que eu sabia o que estava fazendo. Idas e voltas desengonçadas, tentativas frustradas em contar uma cadência para pernas e braços, o sentimento de que a piscina era bem maior do que os supostos 25 metros. Um dos professores nessas aulas experimentais, notando meu desconforto, me disse:

– Olha, o que te atrapalha mesmo é que você fica muito ansiosa pra chegar do outro lado. Foca em manter uma boa postura, se você fizer do jeito certo, vai chegar rapidinho.

Depois disso pensei duas coisas. A primeira é que aquele professor poderia facilmente ser um psicólogo. A segunda é que ele tinha muita razão, eu sempre estive esfolando a cara no chão pelos meios só para chegar aos fins mais rápido. Fiz isso durante toda minha vida acadêmica, nas relações amorosas/familiares e na vida profissional, também. Esse é o tipo de comportamento que acaba com a gente silenciosamente, porque ter o olho preso demais a um futuro que está por ser feito significa que o meu agora está defasado, e nunca é bom o suficiente.

Nossa capacidade de abstração faz de nós, seres humanos, diferentes — com ela, somos capazes de sentir empatia, fazer planos, imaginar o que ainda não aconteceu e inventar novas coisas. O problema é que na lógica do mundo em que vivemos hoje, essa habilidade pode ser subvertida em algo esmagador. Temos muito o que pensar, e se não trabalhamos algum tipo de controle sobre nossas mentes, é impossível levar a vida com saúde emocional.

Na minha terapia, percebi que procuro nos meus interesses românticos coisas que almejo para mim mesma. O que em parte é comum, todos fazemos isso, mas começa a ser destrutivo quando você usa essas “pessoas-meta” menos como inspirações e mais como ferramentas de automutilação. É sofrido: tem horas que olhamos ao nosso redor e sentimos que todos são mais competentes, inteligentes e bem resolvidos. E, na verdade, estamos todos aqui nadando, só que algumas pessoas fizeram aulinhas desde criança (nos melhores clubes, às vezes), tem aquelas pessoas mais velhas que tiveram mais tempo para aprimorar as pernadas e braçadas, alguns vão demorar um período longo para chegar ao final da piscina se quiserem se manter inteiros. Pelo momento, só vou tentando o meu melhor para não engolir água demais, manter meu corpo firme, escutando com atenção as vozes de quem torce por mim.

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