Bia visita Valpo: um guia em prosa da viajante solo

Depois de um mês em Santiago, um pouco mais acostumada com o novo território e capaz de encontrar as estações de metrô sem usar o Google Maps, decidi usar um final de semana prolongado para fazer uma viagem à Valparaíso. A mais ou menos uma hora e meia da Capital, a pequena cidade potuária atrai muitos (por muitos digo quase todos) turistas que vem ao Chile, em especial nas temporadas mais calorentas.

Pelo que os santiaguinos me contaram, a graça toda está em andar, apreciar a arte urbana, tirar fotos e comer pescado — nada muito emocionante. Eu já tinha entendido que não dá para confiar muito na falta de empolgação dos Chilenos com seu próprio país, inclusive acho que, apesar do bom trabalho com a preservação da memória nacional (e sobre isso também preciso falar em outro post), a população como um todo precisa de um workshop de autoestima. Em um carrete (gíria para festa) na casa de um amigo aqui, me peguei conversando com um rapaz que havia morado no Brasil. Depois de observar, de longe, os vários copos de piscola (pisco + coca cola) e outras tantas bebidas destiladas que os convidados tinham constantemente em mãos, comentei que no Brasil a gente também bebe bastante, mas de um jeito mais tranquilo. A resposta dele foi: nós bebemos muito porque somos um país triste

Sabendo disso, fui para a rodoviária com a esperança de encontrar uma cidade que superaria minhas baixas expectativas. Durante a viagem, a moça sentada ao meu lado, que não era chilena, achou que eu tinha cara de quem fazia aquela viagem com frequência e, a cada 30 minutos, me perguntava se já estávamos chegando. Eu sacava o celular, abria o mapa e mostrava a distância que faltava para alcançarmos o destino final. Ela me agradecia, eu voltava a dormir. Até a hora que a dúvida batia de novo. Assim seguimos a viagem, que acabou durando um pouco mais que o esperado por causa do trânsito na saída de Santiago.

Quando desci na estação de ônibus, dei de cara com um bagunçado centro, seguindo o script de qualquer boa cidade latinoamericana. Senti o cheiro de fritura e avistei as Sopaipillas (uma espécie de pastel) nos pequenos quiosques e mesas de madeira abarrotadas com toda qualidade de castanhas. Comprei um pacote de amêndoas e decidi ir andando até o hotel. Reservei um quarto no Ibis, que fica no bairro Porto — uma parte menos gentrificada da cidade (lê-se: mais suja, com mais gente esquisita pelas ruas e mais barata), mas ainda assim próxima aos principais pontos turísticos.

Depois de andar algumas quadras, pela milésima vez em viagens que faço sozinha, percebi que a escala do mapa havia me enganado e que o hotel era mais longe do que eu imaginava. De mochila nas costas, sacola de ativismo belorizontina em mãos e uma bolsa a tiracolo, a primeira coisa que me veio à mente foi pedir um táxi ou uber.Mas com um orçamento de viagem apertado e o medo de ser descaradamente roubada por um taxista (prestem atenção nos taxistas em Santiago, se eles sacarem seu sotaque — eles vão sacar– tem 99% de chance de que eles cobrem um preço absurdo por qualquer rota), procurei me informar sobre como o transporte público funcionava por ali em uma estação de metrô. Comprei meu cartão, subi no vagão do trem e tomei meu rumo. Cheguei ao hotel gastando algo em torno de 500 pesos.

Eu tenho a impressão que de as pessoas da minha idade tem uma obsessão por formar opinões sobre qualquer tema ou lugar em tempo recorde. Como eu estou longe de ser a excessão em qualquer estatística (ainda mais feitas por mim mesma), nos 20 minutos de estadia em Valparaíso decidi que tudo era feio e que eu não deveria ter gasto meu dinheiro com essa porcaria de viagem. Aliás, o mau humor tomou lugar quando cheguei e, sem o Certificado de Viagem (aquele papel que nos entregam quando chegamos a um país como estrangeiros), descobri que teria de desembolsar uma taxa ridiculamente alta que os chilenos pagam em reservas de hotelaria. Enfim, fica aí a dica para quando vocês forem fazer viagens aqui dentro do Chile, levem o maldito papelzinho para toda parte.

Depois de descansar um pouco, saí para jantar em um restaurante relativamente perto. O El Pimentón, que estava em uma lista de recomendações que meu amigo de Santiago compartilhou comigo. O ambiente é agradável, a comida é apenas ok, acho que na real dá para passar a viagem sem essa parada gastronômica. A empanada de queijo com camarão que comi deu pro gasto e a caminhada até ali valeu a pena para dar uma olhada mais longa na cidade, que até aí continuava a não me surpreender muito. Li no blog do Ricardo Freire um comentário que fez bastante sentido: “Você sai de uma cidade organizadinha e modernosa como Santiago e de repente dá de cara com um lugar caótico, cheio de prédios caindo aos pedaços”. Mas depois que esse pequeno susto passou, foi rápido para eu dar lugar a uma admiração e curiosidade por tudo que as ruas inclinadas e paredes coloridas de Valparaíso tinham para me oferecer.

El Pimentón

Durante a viagem, sempre que eu parava para comer, tirava um caderninho da bolsa e escrevia sobre o meu roteiro até ali: o que eu tinha visto, as comidas que tinha provado e minhas impressões em geral. Como essas anotações servem um pouco como guia de dicas, achei legal compartilhar aqui.

Um sábado para descobrir

Parte 1

Botei o pé para fora do hotel e um velho esquisito começou a me seguir na rua. Mesmo já sendo 9 da manhã, a rua não estava muito movimentada. A essa altura na minha carreira de empreitadas internacionais solo, acho que já sinto menos medo do que o recomendável em muitas situações. Fiz uma cara feia, falei para ele cair fora e segui meu caminho para tomar café da manhã.

Subi o Cerro Algere observando o sol da manhã cair gentil sobre os sobrados coloridos, tirei algumas fotos e, em poucos minutos, cheguei ao El Desayunador. Nesse lugar você come um café da manhã por cerca de 3800 pesos, não é muito barato, mas se você tiver com uma folga de grana e quiser uma comida reforçada pela manhã, vale a pena. A comida é gostosa, o café bem feito e o imóvel tem uma decoração amável. Recomendo chegar cedo porque vai ficando bem cheio, quando saí lá pelas 10 da manhã já tinha fila na porta.

El Desayunador


Parte 2

Enquanto espero pela minha comida em um restaurante um pouco mais caro que meu orçamento permite (Caleta Portales, que me forneceu a linda experiência de comer o melhor ceviche que já provei), observo a praia com seus tímidos banhistas outonais — que não ousam entrar no Oceano Pacífico quando a temperatura aqui fora é de 19 graus.

Depois de tomar o café, caminhei em direção ao Hotel Fauna, bem conhecido por aqui, e realmente vale a pena conferir. De baixo, fiquei dando uma espiada nas pessoas que, ainda com cara de sono, tomavam café do charmoso terraço do hotel. Depois de tirar mais algumas fotos, sentir o quentinho do sol que deu o ar da graça e a brisa de cidade litorânea, desci o Cerro Alegre em um dos muitos “ascensores” que tem aqui em Valpo.

O próximo ponto seria o Cerro Bellavista, onde fica uma das casas do Pablo Neruda, a La Sebastiana . Confesso que, antes de vir ao Chile, não sabia quase nada sobre o poeta, mas depois de visitar 2 de suas 3 casas acho que já criamos um novo nível de intimidade. Tenho um pé atrás com todos os homens escritores (e artistas em geral), porque “excêntrico” costuma ser a palavra usada para dar respaldo a qualquer coisa que eles façam na vida. Apesar das minhas ressalvas, não posso negar que ele parecia saber dar uma boa festa. A casa é realmente linda e compensa muito visitar, apesar do preço salgado para a entrada (7000CLP). Como a construção fica bem no topo do Cerro, a vista é lindíssima, além da casa ter uma arquitetura interessante.

Dali dei sequência ao passeio: desci o Cerro Bellavista fotografando os grafites nas ruas e pensando no meu almoço com cheiro de mar. (nesse momento, a cidade obviamente já tinha ganhado minha simpatia, aliás, vou além: tinha ganhado minha admiração). Depois do ceviche que mudou minha vida, caminhei pela orla, onde encontrei uma feira nada gourmetizada. Ali, pescadores e seus familiares vendiam todo tipo de peixe, que o cheiro forte anunciou de longe. Andei por ali envolta nesse odor forte, a atmosfera me lembrou o mercado Ver-o-Peso, em Belém. Apesar do sol ter se escondido, continuei caminhando pela orla, comendo um churros de 500 pesos e vendo o movimento na areia.


Andei muito mais pela cidade e fiz check em outros pontos turísticos, a graça toda realmente estava em andar, tirar fotografias e comer bem. Nada a reclamar. Tive um sábado agradável e, depois de um dia passeando por lá, Valparaíso ganhou meu coração. Às vezes eu descrevo novas cidades que visito como a mistura das que eu já conheço, mas Valpo não é bem essa mescla de outros lugares. Um polo de artistas, com cheiro de mar, belezas escondidas e ritmo pacato. A cidade vai se apresentando aos poucos e, para que tem vontade de descobrir, é um prato cheio de minúcias interessantes.

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