Eu e as meninas

Eu não sou uma menina brilhante, mas sou muito sensível. A minha vida, que nem a de tantas outras meninas, não se conforma em uma rota tradicional. Ao mesmo tempo que esse caminho desviante diz muito sobre mim, tudo que eu tenho de parecido com vocês também faz parte da minha personalidade. É bonito e triste como nos unimos para chorar. Eu sou agradecida por ter vocês, meninas. Ainda bem que temos umas às outras para checar se a menstruação escapou e manchou nossas roupas.

Hoje eu também queria me desculpar. Vocês conseguem me desculpar se algum dia eu fui insensível aos seus sofrimentos? Eu já diminui mulheres para me sentir melhor, hieraquizando o que deveria ser um dos lugares mais seguros do mundo — a nossa relação. Quando nós estamos sozinhas, sinto que meu coração quer explodir! Sem a presença do que tem de ruim lá fora, a nossa conversa dura por um tempão. E, ali, a gente não se preocupa em mostrar que somos fortes e nem temos que gritar com os homens para pedir um espacinho. Naquela conversa sobre as coisas mais triviais, as chateações vão decantando, e só sobra a água límpida.

Vocês já me viram com os olhos marejados e vieram me acudir, ou decidiram que não era a hora certa para conversar. Mas esse tipo de empatia não surgiu do nada, foram anos e anos sentindo as mesmas dores, os mesmos medos e as mesmas frustrações. O que nos dá liga, meninas, na maioria das vezes é esse material cinzento, que faz peso em nossas cabeças dia e noite. A nossa energia potencial, meninas, é imensurável. Quer dizer, juntem toda essa raiva por causa dos “ei, morena”, “sua gostosa” e outros chamados dos que querem ser nossos donos. Ainda assim, nós gritamos, gritamos e gritamos e ninguém parece querer escutar de verdade — tamanha é a força estrutural dos que teimam (teimam!) em ser nossos donos.

O meu alento no final do dia é saber que eu tenho vocês. Eu tenho, nos braços de vocês, momentos de afeicão. E é com vocês que eu quero correr junto. Seja fugindo do perigo ou na direção da glória que ainda há de chegar.