Mais uma carta de um coração em frangalhos

Ilustração: Brian Rea

C.,

Entendo seus pontos e sempre tento ser flexível às questões, dúvidas e períodos da vida das outras pessoas. Eu sigo compreensiva porque gosto de estar com você, então me coloco nesse terreno que parece tão inseguro e um tanto quanto inóspito aos olhos de uma virginiana (rs). Crescer é estar em movimento, titubear, aprender com os outros e é, também, a busca por uma certeza que nunca vai chegar. E nós dois, ainda que em momentos diferentes, vivemos esse processo intensamente.

A nossa relação casual tem sido turbulenta e eu vejo ela amadurecer em mim e permanecer como uma linha reta para você. Acho que, no ponto que estamos, isso está claro. Mas compreendo que, ao lidar com universos inteiros que são outras pessoas, não há espaço para exigências e cobranças muito restritas. As coisas vão se construindo com o respeitar, o admirar, o conhecer, o (tentar, sempre tentar) entender e os acordos mútuos.

Depois que me senti magoada por você, meu plano era não te ver mais. Algo me puxou de volta e eu me senti completamente idiota por ceder a esses impulsos. Mas algo em você me recebeu de novo(que até hoje eu não sei se era só a vontade de transar) e eu senti que nós dois somos meio idiotas mesmo. Outro dia você disse que fico mais bonita quando não estou sendo blasé e, olha: ainda sinto um turbilhão de coisas confusas, então finjo indiferença e sigo me sentindo mais segura.

Assim que começamos a nos ver, te enxergava menos como um ser humano complexo e mais como um figura unidimensional, mas as visitas recorrentes ao seu apartamento sacolejaram meu emocional e parece que meu coração entrou em descompasso. Você ganhou novas dimensões. Injusto eu fazer incursões ao seu mundo, com os cigarros em cima da mesa, a Piauí ao lado da cama, os móveis que sua mãe — por meio de um golpe em quadrilha — lhe induziu a comprar, as roupas enfileiradas no cabideiro e todos os seus anos de vida materializados naquele espaço.

Escrevo isso porque escrever é uma coisa que sempre faço quando preciso estruturar meus pensamentos e me fazer entender. Escrevo isso, também, porque é ruim ficar com falas engarrafadas, e meu projeto de vida é não reproduzir o cenário das vias paulistanas aqui na minha cabeça.

Prolongar o nosso meta-relacionamento significa transitar por vontades divergentes, o que só pode acabar errado. Eu não quero ficar com raiva de você e odeio a ideia de que a gente termine isso de um jeito ruim.

Eu queria ter uma conclusão concreta sobre tudo isso, mas já percebi que talvez esse percurso esteja fadado ao vai e volta. Só queria que você entendesse que estar comigo nunca vai ser tão casual assim, e que você precisa ter cuidado com os meus sentimentos, e que talvez isso não seja algo que você possa me oferecer nesse instante.

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