Me perguntam sobre saudades

a lágrima escorria e dizia tudo por mim

Mas é claro que eu tenho saudades, quem é que não tem? eu tenho saudades de tudo, eu confesso, lembrar do primeiro dia do ano, e querer sumir só de pensar no último, dói o peito. lembrar dos risos e sorrisos, dos abraços, dos tombos, dos beijos e até alguns choros. olhar o hoje, ver que a melhor coisa que pode acontecer no meu dia é ser estável, ou seja, acontecer nada, se nada acontecer, tudo está bem. saudade me da, saudade eu tenho, de sair todo final de semana, ou até no meio da semana, de ver os amigos, de abraçar cada um, de rir a doer a barriga. hoje eu me escondo, com medo de mim, com medo do que pode acontecer e eu nem sei o que pode acontecer. vergonha eu tenho das últimas lembranças, pudera eu ter controle, eu bateria perna a fora e esqueceria tudo o que passou, tudo o que passa, mas não dá. não saio e rio como antes, não saio e grito, brinco, não saio como antes. nada é como antes e eu não escolhi isso, eu luto contra um inimigo oculto que sabe cada um dos meus pontos fracos. os dias me tornam cada vez menor, eu caio no esquecimento, outro dia sonhei que morria e um mês depois ninguém mais lembrava, ninguém mais falava de mim, lá de cima eu via tudo calada, tentando entender, tentando aceitar. hoje acordei a pensar nessa possível realidade, já estou parcialmente morta, a dor as vezes vem e me faz companhia, já que o desatino que salva e me pune de poder sentir. não me lembro o último amigo que falou comigo, cada dia mais no canto, meus passos tem sido calculados como se houvesse um inimigo a solta. eu olho as incontáveis lista de planos de realizações e me pergunto por quê ainda há pranto, porquê ainda há dor. a ida ao cinema não me alegrou, o parque, a jasmim que comprei e na semana seguinte morreu, morreu de tristeza, de pena, de ódio, de desamor, por mim… a música nova a comida nova, o livro novo, o passo novo, tudo é novo, mas aqui dentro tudo é velho, tão velho que já se aconchega e chega tão breve, tão rápido, tão ríspido e dói, risca, machuca. de que serve esses planos se trilho o caminho da dor, na minha frente só há horror e qualquer um sabe como me assunto fácil, como tenho medo de escuro, nessa trilha não ha luz nem uma mão para que eu possa segurar e me aliviar por não mais caminhar só. as palavras caem feito as lágrimas que eu fingo não mais chorar, os dias passam, como eu transito pra lá e pra cá. as vezes me olho, no canto do quarto, no canto da cama, olho o espelho e pergunto o que diabos aconteceu, por que que tudo escureceu. confesso que as vezes tenho pena de mim… as perguntas sempre respondidas de um tudo ótimo, acontece ta tudo bem, ninguém sabe mais o que me falar, nem eu sei mais o que fazer, eu faço artes teatrais, minto pra um, pra outro, afinal quem liga, em quem dói mais? no fim o público sorri, a peça tão bem feita. muito bem interpretada, quem iria dizer que era a maior furada. outro dia cai na rua, eu tropeçei e chorei, uma moça veio me acolheu, por um segundo eu vi luz, não, está tudo bem, é que meu cachorro morreu, outra peça encenada, onde é que isso vai da? será que eu ainda vou ter meu lugar? eu poderia falar e falar e falar, e tu poderias ouvir e ouvir e ouvir, mas ambos sabemos que não é isso que queremos, mas como alcançar se o passo machuca meu calcanhar e se te vendas com medo de me desvendar. onde eu fui e caminhei? que males eu criei? e a luz no túnel, será que há? eu agradeço a algo que eu mal consigo aceitar, há tanta fé, mas tanto medo de se desgastar, se perder. os dias aqui são tão escuros e aí fora tudo floresce, por um momento tenho inveja, meu corpo estremece, essa é a única hora que não lamento, que sorte a minha eu passar pelo teu sofrimento. bendito seja aquele que ainda pode caminhar, que consegue sorrir e melhor ainda sonhar. meus traços são finos, minha pele está cada dia mais pálida morbidez. isso era pra pra ser um texto bonito, ou um poema fino mal amado, mas tornou-se apenas a súplica de mais um ser desgraçado. desgastado.

aqui?

ainda?

resisto?

persisto?

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