Do dia em que convulsionei para o dia em que acordei chorando

Dora Lutz

Eu sempre senti intensamente.

Para mim, nunca foi raro uma pequena gota se tornar rapidamente uma tempestade, um turbilhão. E, desde que sei, me sinto conectada à natureza. A chuva acompanha as emoções e o sol ilumina os pensamentos.

Quando comecei a escrever, notei que respingava.

De tanto olhar o céu, me acostumei com as estrelas. Tantas noites passei por elas sem olhá-las por mais de três segundos, absorta com as próprias constelações terrestres. Foram brilhando menos e menos, pouco a pouco. No instante em que voltei a inclinar a cabeça para cima, já não as via. Não sabia há quanto tempo haviam desaparecido. Só me restava a lembrança. E mesmo ela, já começava a percorrer o caminho da saída…

No mar, me sinto perdida. Lá, esqueço o que todo dia acaba por me consumir. Ali, apenas existo. Eu e as ondas, nós a quebrar.

Transborda.

Já não sei mais quem.

Dora Lutz

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Dora Lutz

Publicada na antologia poética "Quem dera o sangue fosse só o da menstruação" com "Perecer" e colocando aqui as outras produções e respingos.

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