Sem Alarde #01

FERRAGENS

Querida esposa,
uma coisa aconteceu e preciso ficar na Suécia por mais um tempo.

Finalmente comprei o Lada que havia mencionado na última carta. Viajamos por lugares fantásticos e que você provavelmente gostaria muito de conhecer, mas o Lada capotou algumas dezenas vezes em um barranco e se chocou violentamente contra um pinheiro. Eu estava dentro. Tentei saltar do veículo, mas por algum motivo não consegui desatar o cinto de segurança, de modo que o Lada, o Pinheiro e eu nos tornamos um só. Vivemos juntos, desde então. A convivência inicial foi um pouco dolorosa, mas agora me considero uma pessoa feliz aqui em Ferragens, um pequeno lugar, pequeno mesmo, em alguma localidade ao Leste da Suécia.

Criei uma rotina e penso em levar uma vida comum aqui por uns tempos. Tenho até uma pequena horta no que sobrou do banco do passageiro, uma horta que batizei de Hortência. Ela é regada com água da chuva e alimentada com os sais deste fértil solo. Já floriram carrapichos e venho desenvolvendo uma nova técnica para o cultivo de capim. Dentro de alguns anos, penso chegar ao protótipo de um combustível à base desta fabulosa plantinha que é o capim. As pesquisas cansam. E quando não me distraio com Hortência, recorro a Tobi, o meu sangue-suga. Creio que ele veio até mim atraído pelo forte cheiro de sangue e logo viramos como unha e carne. O Tobi é uma das criaturas mais dóceis e amáveis que já conheci. Aprendi a me distrair e a dar menos importância às pequenas coisas com o meu fiel amigo. Eu costumava acariciar sua cabeça enquanto ele limpava os ferimentos da minha perna com sua língua mas, por algum motivo, a perna infeccionou e os paramédicos precisaram arrancá-la. Melhor assim, com uma perna a menos tenho mais espaço aqui (e depois, eu não a estava usando mesmo). Eu gostaria de poder levar Tobi comigo quando voltasse para casa. Ele pode ficar em algum lugar no quintal, você vai gostar dele. Podemos plantar um pinheiro no quintal. Ou então trazer o nosso quintal para a Suécia, se não tiver mais pinheiros no Brasil. A vegetação aqui é diferente e o clima é frio. E apesar dos pesares, gosto daqui. Não é a casa dos meus sonhos, ou nem mesmo a casa dos seus sonhos, mas o pinheiro me traz sombra e os destroços me protegem do frio. Aqui aprendi a ser um homem simples. Vivo entre a natureza e encontrei a qualidade de vida que tanto falam nos comerciais de imóveis. Certamente, a vida perfeita é essa que acontece por acidente. Acordo com o som dos pássaros, e na minha horta em se plantando tudo se dá pois a terra é fértil, e talvez isso tenha a ver com os pássaros e toda a matéria orgânica que eles lançam ao solo como uma chuva de vida. Às vezes a matéria orgânica também cai em minha cabeça. Capins até já começam a nascer nela. A propósito, este é o novo método para o cultivo de capim que eu havia mencionado.

Sobre o Lada e os danos materiais com o acidente, creio que não há com o que se preocupar. Hoje em dia todo bem é tão perecível quanto recuperável, de modo que nada é seu e tão logo ninguém precisa arcar com o que não tem. No caso, o Lada que eu nunca tive, mas que é o meu Lada. O rapaz do seguro me explicou essa coisa mas sinceramente não vi muito sentido. O fato é que ele me prometeu, com um ar cheio de entusiasmo, que por eu ter quase perdido a vida, adquirido sequelas irreversíveis e destruído completamente o carro que na verdade tinha um problema no freio, eu ganharia um outro como indenização. Eu disse que não preciso de mais um carro se eu não consigo sair do que eu tenho, mas agradeci assim mesmo com uma banana depois de algum tempo de esforço sobre-humano para fazê-la. É assim que as pessoas se cumprimentam na Suécia, com uma banana. O rapaz do seguro foi embora e logo depois já haviam outras pessoas conversando comigo. Como um grupo de hippies que apareceu por aqui outro dia, e que queria expandir a consciência nas imediações de Ferragens. Expliquei que em Ferragens por motivos de racionamento de espaço não era permitido expandir nada, nem mesmo consciência. Os mandei a merda e mais uma vez tive um bom trabalho para improvisar a banana. Outras visitas vieram, mais visitas foram embora. Os suecos são muito atenciosos, realmente. Mas os paramédicos são os únicos que estão por aqui na maior parte do tempo. No começo foi legal, a companhia. Mas agora já sinto falta da privacidade de antes. Outro precisei defecar em público e para alguns milhões de pessoas, que assistiam a uma transmissão ao vivo pela internet. Desde que me mudei para meu exílio particular em Ferragens me tornei um homem notório e exílio não foi exatamente o que eu encontrei, sobretudo particular. Mas agora está tudo bem. Digo, neste EXATO momento está tudo bem. Os paramédicos saíram para almoçar e a imprensa saiu apressada. Parece que descobriram um escândalo e eles obedientes foram cobrir. Nunca gostei desse pessoal da imprensa. Mas ainda na primeira semana que me descobriram (e eles cobriram) resolvi vender uma entrevista. Porque para imprensa eu não dou nada, eu só vendo. Segue uma transcrição da entrevista, devidamente traduzida ao português, e onde abri mão de maiores descrições e detalhes dos jornalistas para poupá-la, querida, de qualquer dano ao seu córtex arrojado.

— A LUTA PELA SOBREVIVÊNCIA DO HOMEM PRESO NAS FERRAGENS DE UM CARRO CONTINUA! ESTAMOS AQUI COM ELE, QUE VAI NOS CONCEDER UMA ENTREVISTA EXCLUSIVA DIRETO DO LOCAL DO ACIDENTE! BOM DIA! COMO É ESTAR PRESO ENTRE AS FERRAGENS DE UM CARRO?

— Um pouco chato no início, mas a gente acaba se acostumando.

— MUITA DOR?

— Sim, mas a gente também acaba se acostumando.

— “ACABAR SE ACOSTUMANDO COM A DOR”. QUE LIÇÃO DE VIDA, GENTE! O SENHOR PODE DESCREVER O QUE ESTÁ SENTINDO?

— Sinto um pouco de sono porque não tenho conseguido dormir bem. Está cada vez mais difícil encontrar uma posição confortável com essa barra de ferro atravessando meu abdômen. Tirando isso acho que estou em perfeita ordem. Não sinto a mão esquerda, por conta do frio. Os dedos da mão direita também não sinto, porque secaram e caíram, também por causa do frio. Mas eu que sou do Brasil gosto do frio, é diferente. Dizem que é melhor que calor…

— IMPRESSIONANTE! O SENHOR QUER MANDAR ALGUMA MENSAGEM PARA SEUS FAMILIARES NO BRASIL? A NOSSA REDE DE TV É TRANSMITIDA PARA TODO O MUNDO!

— Não. E se a senhora me permite, eu vou dormir. Passar bem.

Queria que os paramédicos não voltassem e me deixassem apenas em companhia de Tobi, Hortência e meu Pinheiro. Mas se eles não voltarem jamais poderei saber se continuo vivo. E eu preciso ter certeza de que estou bem. Preciso deles me ressuscitando e me aconselhando a não morrer. Não morra, ecoou uma voz outro dia, então surgiram cabeças me olhando assustadas e vieram os aplausos, a comoção, os flashes. Não morrer é basicamente o que tenho feito há pelo menos 33 anos, e ainda podemos acabar nos esquecendo de como se faz para driblar a morte. Ao contrário de todas as outras atividades, viver é uma coisa que se desaprende com a prática.

Fiz bons amigos em Ferragens. Hoje fui apresentado a um profissional da igreja. Como jamais fui religioso conversamos sobre assuntos de outras correntes, como a filosofia de Kant, política internacional, astrofísica, mecatrônica, ocultismo, futebol e crianças, um assunto que ele parecia dominar bem. Ele insistiu que eu me confessasse e eu disse não tenho crimes a confessar. O meu amigo é um homem erudito, mas um completo idiota também. Ser um imbecil é o seu lado bom. Transcorri sobre planos futuros. Mas logo ele disse “é melhor não ter essas ideias a longo prazo” e enfiando as mãos em Ferragens me deu tapinhas amigáveis nas costas. E assim ele foi embora. Disse que voltava, com um aceno entusiástico. As pessoas sempre vêm cheias de compaixão e vão embora com pressa, se fazendo parecer animadoras. Depois que me mudei para Ferragens, sem uma perna, com uma barra de ferro perfurando o abdômen e escoriações em todo o corpo, cheguei à conclusão de que sou um homem de sorte. Tudo convergiu para que eu continuasse vivo. Durante o acidente, por exemplo. O carburador estourou justo ao lado do meu rosto queimando minha pele mas me dando este precioso líquido que é a água, a mesma água que me manteve vivo por dias e noites até que algum mal-educado me cutucasse. Ele me acordou com uma vareta, e quando abri os olhos e pedi mais água o intrometido deu um salto de gato pra trás saiu em disparada, os calcanhares chicoteando o rabo. Depois voltou acompanhado de mais pessoas, e mais pessoas, e tantas pessoas que eu precisei mandar todos ao inferno e implorar por privacidade. Eles pensam que eu sou louco e não param de aparecer de todos os lugares.

Tobi agora há pouco ficou meio quieto e ele só faz isso quando alguém se aproxima.

Devem ser os paramédicos, preciso me despedir… Até logo…

Com amor,
M.

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