Sem Alarde #03

O JANTAR (publicado no Sem Alarde)

Na noite de ontem saímos pra jantar no restaurante que um amigo, Jacquin, nos indicou. Era um lugar sofisticado, e de tão sofisticado havia um pianista tocando liquid jazz com apenas uma mão, visto que, como observei, não possuía a outra. De entrada, nos serviram pão molhado de quarenta reais; o que não tirou o nosso apetite de todo, e, portanto, pedimos então o prato principal. Simpatizamos com um miojo de noventa reais; para acompanhar, harmonizamos com o vinho mais barato da casa, um cabernet sauvignon de oitenta reais; como o sommelier nos explicou, era a união de duas excelentes uvas, a cabernet e a sauvignon. Muito felizes, aprendemos um pouco sobre bom vinho barato e ouvimos meia hora de meio piano antes de chegar o prato, o miojo, que comemos em seis minutos. Como continuávamos com fome, concluímos que seria mais vantajoso comer vinho ao invés de miojo e beber miojo ao invés de vinho; de maneira que pedimos mais dois pratos de vinho e uma garrafa de miojo. O último pedido foi, naturalmente, a conta. Ficamos muito contentes ao descobrir que foi calculada pelo Nobel de Matemática de 1996, mas também um pouco tristonhos quando percebemos que aquele velhinho simpático usava muitos zeros. Agradeci ao pianista por ele ter só um braço, já que não poderia imaginar quanto seria o couvert artístico caso ele ainda tivesse os dois. O pianista, ao que parece se sentiu ofendido, porque continuou a tocar com os pés e, com seu único braço, nos espancou violentamente. O segurança, um sujeito bastante apto fisicamente, e inteligente ao seu modo, interviu: e nos bateu também. Decidimos pagar a conta pacificamente e voltamos para casa a pé, porque ficaram com o nosso Uno.