Sem Alarde #07

VIDA DE UM HOMEM COMUM

*publicado no Sem Alarde

Levamos uma vida tranquila, saímos pouco, nos fins de semana gostamos de apostar sexo na sinuca. Moramos num predinho simples sem elevador, nem muito menos escada, de modo que para entrar em casa você precisa escalar pelo lado de fora. Propriamente o que faço agora, meio sem jeito e esquivando dos vizinhos, pendurado numa caixa de ar-condicionado no terceiro andar. Apoio o pé no parapeito e, sem muita dificuldade, entro pela janela.

O apartamento é minúsculo. O teto é mais baixo que o normal. Você precisa andar de joelhos, como um bicho, porque embora o dinheiro seja pouco, ao menos dava para um teto, ainda que baixo, ainda que em meio apartamento. É mais que o suficiente, devo dizer.

Ainda a pouco engatinhei para a quarto onde a minha dona está dormindo. Dou-me conta, não pela primeira vez, de que ela é agora uma mulher envelhecida. Continua bonita, mas de outro modo. Antes de adormecer olho para um retrato nosso sobre a cabeceira. Eu usava uma coleira e estávamos numa praia, ambos sorríamos.