Sem Alarde #04

COMO ME TORNEI UM PLANETA

*publicado no Sem Alarde

Nos últimos milhões de anos não tenho feito muita coisa além de girar. E, além de girar, não existe nada de muito mais interessante para se fazer aqui no Espaço. Giro em torno do meu eixo, o que chamam de movimento de rotação. E giro também em movimento de translação, que lembra a tradição indígena de dançar em volta da fogueira para gravar documentários. Mas isso é pouco comparado à louca dança de ser um planeta. No caso de um planeta, a fogueira é uma grande bola de fogo que chamamos de Sol — particularmente, prefiro chamá-la de “boneca”, “gatinha”, ou então, “Grande Bola de Fogo”.

Saber que movimentos você deve realizar quando está em órbita é muito importante. Primeiro, por ser uma questão educacional básica e, depois, para a sua própria segurança, mesmo. Muita atenção, portanto: ficar a par dos seus movimentos é de suma importância para o caso de você de repente se ver perdido em pleno espaço, que é um lugar grande, realmente grande, do tamanho do próprio universo. Sabe-se do caso de um planeta que, ainda jovem, foi seduzido pela possibilidade de encontrar novas galáxias mais atrativas e acabou se perdendo. Ninguém sabe exatamente onde ele foi parar e a sua história termina aqui, o que é uma pena, ou eu poderia fornecer mais detalhes.

Ficar zanzando no espaço pode ser perigoso para um planeta. Você pode acabar se chocando contra um meteoro, bater de frente em outro planeta, ir de encontro à Grande Bola de Fogo ou até mesmo ser tragado por um buraco negro e se perder para sempre no Vácuo Eterno do Mau e da Escuridão, um lugar muito, muito, muito assustador mesmo. Quando criança, todo planeta já ouviu ao menos uma vez a seguinte cantiga de roda, a canção do vácuo:

Não fique vagando por aí
O buraco negro é quem diz:
‘Abro minha boca
mesmo que você corra
e sugo você pelo nariz’
Não há no espaço um só lugar
Onde o buraco-negro não possa estar
Seja um bom menino, viva de mansinho,
Eras e eras a girar.

A parte do “sugo você pelo nariz” nunca cheguei a entender direito. São muitos os idiomas falados no espaço e a tradução pode ter sido comprometida (sem contar que para algumas civilização intergalácticas as palavras não são faladas, mas transmitidas por telepatia, e-mail ou whatssapp). O que ocorre é que, na verdade, a letra de Canção do Vácuopode ser completamente diferente. Na verdade, talvez numa verdade até mais plausível, essa canção possivelmente nunca existiu e talvez eu tenha mentido para você. Portanto, anote isto, que é outra regra básica para quando você está sozinho no Espaço: nunca confie em estranhos, nunca fale com estranhos e, o mais importante: nunca seja você mesmo um estranho.

Uma outra coisa importante a saber sobre um planeta é que eles duram muito e, tirando um planeta que girava tão rápido que teve toda sua história lançada em um livro de bolso, eles podem durar o infinito. E o infinito, caros pontos insignificantes, demora um bocado de tempo para passar se você não tem com o que se distrair. Por isso, se existe uma coisa realmente boa em estar perdido no espaço sideral, é o tempo para se pensar em questões primordiais. De onde viemos, para onde vamos, por que giramos tanto, etc. Por milhões de anos, uma das mais intrigantes das questões primordiais seria: por que cargas d`água Saturno insiste em usar aqueles anéis tão fora de moda? Dizem as más línguas que Saturno nunca se adaptou muito bem à rotação, e por isso sofreu por muito tempo com problemas de tontura e acabou ficando meio tantã. Uma pena. Outros planetas, ainda mais maldosos, espalham por aí que ele tem sofrido de sérios problemas com excesso de gases, e sendo um peidorrão, foi transferido para uma área mais isolada do Sistema Solar.

A minha segunda grande questão foi tentar compreender por qual motivo me tornei um planeta. Não pensem que foi fácil. Para chegar a uma resposta satisfatória refleti por alguns milhões de anos, atravessei eras geológicas, cataclismos, guerras cosmológicas e meus ácaros (pequenas formas de vida que estão em todos os lugares, incluindo você quando não toma banho) se tornaram espécies tão evoluídas que já dominam inclusive outros planetas. E, a resposta fundamental ao real motivo pelo qual me tornei um planeta, é: eu jamais poderia saber. Passei tanto tempo focado na questão que acabei me esquecendo inclusive como eu me tornara um planeta. Por sorte, os meus ácaros superevoluídos conseguiram reproduzir em laboratório todo o meu processo evolutivo, de modo que pude acompanhar de perto minha humilde origem.

Eis como tudo sucedeu.

Antes de virar uma enorme massa disforme em mutação eu fui um humano como qualquer outro. Na linha evolutiva, entre todas as espécies que habitavam o até então conhecido planeta de onde vim, os humanos estavam em um nível intermediário entre as amebas e os chimpanzés, o mais evoluído dos primatas. Cada espécie tinha o seu diferencial, alguma coisa que desse um tchans, uma razão dele existir. Os chimpanzés saltavam de árvore em árvore e catavam piolhos uns dos outros enquanto pensavam em quão idiota era o homem e porque eles sempre estavam lhes apontando armas. Os peixes nadavam muito bem e eram coloridos, mas de vez em quando cometiam a burrada de morder algum pedaço de plástico pensando que era comida e, coitadinhos, morriam sufocados fora d`água apanhados por um anzol — esse vacilo os deixava atrás dos chimpanzés, mas não dos humanos. Os humanos sabiam no máximo escrever livros e operar máquinas, mas tão mal que às vezes acabavam colocando os pés pelas mãos escrevendo poemas chatíssimos ou disparando balas uns nos outros com suas máquinas metálicas. Deste modo, ser o terceiro lugar na linha evolutiva não tão ruim para quem fazia tanta besteira. Em situação pior estavam as amebas, que nem sei bem o que elas fazem, e talvez o Google possa lhe explicar isso melhor.

Então, eu levava minha vida humana quando as coisas aconteceram.

Primeiro veio uma guerra envolvendo várias das máquinas que os humanos não sabiam utilizar bem. Veio a aniquilação completa. Com o mundo completamente destruído, ninguém tinha lugar para ficar, chão para pisar e nem onde cair morto, de modo que todas as formas de vida como peixes, chimpanzés, amebas e humanos foram lançadas ao infinito do espaço. Passaram a vagar sozinhos, flutuando na imensidão, e aos poucos foram se adaptando a uma nova realidade: girando, girando e girando até se tornarem algo completamente diferente das formas de vida que conhecíamos. Viramos planetas independentes, cada qual em sua órbita, como várias pedrinhas insignificantes arremessadas para o alto sem qualquer habilidade especial — exceto, talvez, girar.

E continuamos girando.