Aos Kālāmas: em quem acreditar?

Uma discussão sobre o Kālāma Sutta¹

Um sutta bastante famoso do cânone pāli, especialmente no ocidente, é o Kesaputtiya Sutta (AN 3.65), mais conhecido como Kālāma Sutta. Este texto relata a visita do Buda à uma vila chamada Kesaputtiya. Ao saberem da presença do Buda, seus habitantes, os Kālāmas, se reunem em sua presença. Com essa recepção e curiosidade, é provável que a fama do Buda já estivesse se espalhando neste período. Pelo texto, porém, não parece que eles são seguidores do Buda pois, ao se reunirem, os Kālāmas apresentam a ele a seguinte pergunta:

“Senhor, alguns ascetas e brahmins visitam nossa vila. Eles explicam suas doutrinas, mas denigrem e denunciam as doutrinas dos outros. Então, outros ascetas e brahmins visitam nossa vila. E eles também explicam suas doutrinas e denigrem as dos outros. Com isso, ficamos perplexos e em dúvida. Como saber qual destes bons ascetas falam o que é verdade e qual deles falam o que é falso?”

A resposta do Buda surpreende as pessoas até os dias atuais. Embora seja um longo diálogo, a primeira parte é a mais controversa:

“Kālāmas, faz sentido que vocês estejam perplexos e em dúvida. Não se deixem levar por tradição, por linhagens de ensinamentos, por boatos, pela autoridade de escrituras, por lógica abstrata, por mera inferência ou por especulação. Não aceitem doutrinas após meramente pensarem sobre elas, ou pela competência do transmissor, ou porque vocês o respeitam [como seu professor].”

Numa leitura superficial, parece que o Buda está dizendo que essas coisas não tem valor algum. Assim, caímos na armadilha de ler essas palavras, não pelo que elas dizem, mas pelo que nós queremos ler. Entusiasmados com o que vemos, ficamos cegos para o que elas podem estar, de fato, apontando.

Por exemplo, uma pessoa que sente repulsa por religiões, ao ler “não se deixe levar por autoridade de escrituras” pode se sentir ratificada pelo Buda pensando “de fato, as escrituras religiosas são inúteis”. No entanto, devemos questionar esse sentimento ao lembrar que essa mesma resposta do Buda nos veio por escrituras religiosas budistas que ele mesmo instruiu seus discípulos a memorizar e ensinar.

Outro exemplo seria uma pessoa que nutre profunda aversão por lógica e raciocínio. Ela pode sentir que o Buda está concordando que devemos deixar essas coisas de lado e seguir nossa intuição e emoções. De fato, seguir a “intuição” e emoções podem ser vias extremamente atraentes. Mas problemas difíceis não costumam ser resolvidos nesse modo: basta que as emoções mudem pra medo, que elas facilmente nos convencem a dar meia volta e evitar o problema, por exemplo.

Por fim, budistas podem ver no Budismo uma tradição oral, linhagens, escrituras (o próprio texto acima!) e um professor que eles respeitam (o Buda, que disse o que disse acima). Seria, portanto, uma contradição insolúvel acreditar que esses são os significados da resposta que o Buda ofereceu.

Rejeitando essa interpretação superficial como incoerente, voltamos ao dilema. Isso é, voltamos à pergunta sincera dos Kālāmas. Por um lado, somos apresentados a soluções diversas em que seus proponentes discordam entre si. Por outro, aqui estamos, perplexos, sem saber o que fazer, sem saber como viver nossas vidas.

Resolvendo o Nó

Ter em mente um pouco de contexto pode ser útil para esclarecer a resposta inicial do Buda acima:

  • Os brahmins, sacerdotes da tradição védica, ainda tinham presença significativa nessa época e sua tradição os levava a declarar conhecerem a “Verdade” apenas por saberem recitar os textos de sua religião (os Vedas) — textos que eles consideravam infalíveis.
  • Haviam muitos ascetas que faziam uso excessivo (e incorreto) de lógica abstrata, levando-os a declarar conhecerem a “Verdade” apenas por terem seguido uma certa linha de raciocínio altamente especulativa e de consistência duvidosa. Assim como os gregos contemporâneos, os indianos ainda estavam começando a apreender sobre a natureza e limitações das induções, inferências, correspondências ontológicas, linguagem, etc.
  • Outros ascetas declaravam sua doutrina baseando-se, primordialmente, em fé. São ascetas que pensaram ou foram expostos a certas idéias e, por sentirem prazer nelas, passaram a acreditar que são verdade — independente de terem entrado em contato com elas, e independente delas não estarem de acordo com a realidade.

Com isso em mente, o Buda parece estar abordando a atitude das pessoas em seu tempo, resumindo os vários motivos pelos quais pessoas passam a acreditar em um líder religioso.

Agora vamos ao coração da lição epistemológica deste discurso. Recordando, o Buda listou os seguintes motivos que nos levam à acreditar em uma doutrina:

  • Porque é a tradição
  • Porque é a linhagem
  • Porque ouvi dizer
  • Porque os textos dizem
  • Porque foi deduzido
  • Porque eu refleti sobre
  • Porque me explicaram muito bem
  • Porque meu mestre/professor disse

E a lição, que no íntimo sabemos, mas frequentemente ignoramos e caímos na mesma armadilha é: nenhuma dessas razões é suficiente para que algo seja verdade.

Muitas pessoas, no entanto, entendem essa lição como motivo para ir ao outro extremo e passam a ignorar afirmações feitas por tradição, linhagens, ouvidas, lidas, deduzidas, refletidas, ou ditas por determinadas pessoas. Assim, o outro lado da moeda da lição é que: nenhuma dessas razões é suficiente para que algo seja falso.

Ou seja, é um engano quando sentimos certeza de que algo é verdadeiro (ou falso) prematuramente, só porque está escrito em um livro; quando sentimos certeza após mera reflexão ou raciocínio; quando sentimos certeza porque alguém que temos em alto respeito afirmou ou negou, etc.

E como ocorre esse engano? Não sabendo, ainda assim, somos seduzidos a afirmar ou negar. A certeza prematura não se identifica como prematura. É, portanto, um engano tomar partido com justificativas frágeis; vestir a camisa da certeza quando há risco de estar errado. Pois saber, de fato saber, requer esforço — frequentemente, mais esforço do que estamos dispostos a dedicar.

Ao promover uma frágil crença para uma certeza que, no momento, ainda não lhe faz justiça, convidamos pra nossa vida a possibilidade do engano. E quando ficamos vulneráveis ao engano, convidamos a possibilidade da frustração, a possibilidade do descrédito e a possibilidade do vexame.

Caminhando passo a passo

Após alertar os Kālāmas sobre o perigo de tomar uma doutrina como verdadeira ou falsa sem saber seguramente sua veracidade, o Buda dá “uns passos para trás” na discussão. Ao invés de doutriná-los (se tornando, assim, apenas “mais um asceta” dentre os vários que passaram por Kesaputtiya ensinando coisas contraditórias), o Buda decide sondar os Kālāmas e o entendimento que estes possuem sobre virtude por meio de uma série de perguntas e respostas. Por exemplo:

— “Kālāmas, considere uma pessoa cheia de ódio, tomada por ódio, que destrói a vida, … que encoraja outros a fazerem o mesmo. Essas ações o levarão a miséria e sofrimento por muito tempo?”
 — “Sim, senhor.”

Dessa forma, o Kālāmas vão mostrando seu próprio entendimento, de acordo com o que eles reconhecem ser razoável, seja por experiência própria ou porque são entendimentos comuns, reconhecidos por sábios que eles respeitam. Com a resposta positiva dos Kālāmas, o Buda aproveita a deixa para esclarecer como analisar a questão:

“Assim, Kālāmas, quando foi dito: ‘Kālāmas, não se deixem levar pela tradição oral …’. Mas, quando souberem por si mesmos: ‘Essas coisas são nocivas; essas coisas são condenáveis; essas coisas são censuradas pelos sábios; essas coisas, se praticadas, levam a miséria e sofrimento’ então vocês as abandonam.”

Logo após isso, o Buda pede aos Kālāmas para imaginar uma pessoa (“nobre discípulo”) que desenvolveu bondade, compaixão, equanimidade e alegria altruística. Sabendo, pelas respostas às perguntas anteriores, que os Kālāmas concordam que essas práticas são benéficas e entendendo que eles são céticos em relação a vida após morte, o Buda os leva a analisar os benefícios dessas práticas nas várias possibilidades:

Então, Kālāmas, esse [hipotético] nobre discípulo que não possui ódio, com a mente livre de inimizade e ódio, com a mente pura, possui quatro confianças nessa mesma vida:
1. A primeira confiança que ele ganhou é essa: ‘Se houver vida após a morte, e se há frutos para ações boas e más, é possível que ao morrer eu apareça em um destino bom, em um paraíso’.
2. A segunda confiança que ele ganhou é essa: ‘Se não houver vida após a morte, e se não houver fruto de ações boas e más, ainda assim, aqui mesmo nessa vida, eu me encontro feliz, sem inimizades ou ódio, livre de problemas’.
3. A terceira confiança que ele ganhou é essa: ‘Suponha que o mal chega a quem faz maldade. Então, por eu não ter intenções más dirigidas a ninguém, como eu poderia sofrer [devido a essas maldades], se não faço maldade?’
4. A quarta confiança que ele ganhou é essa: ‘Suponha que o mal não chegue a quem faz maldade. Então, aqui mesmo, eu me vejo livre nos dois lados.’

Ao mostrar, portanto, que independente da vida após a morte ser realidade, essas práticas são benéficas aqui e agora (algo que eles podem observar por conta própria) e que, se houver vida após a morte, essas práticas provavelmente levam a um destino bom (com menos sofrimento), o Buda conclui que tal pessoa ganha quatro confianças para se dedicar as práticas de bondade, compaixão, equanimidade e alegria altruística.

Note que, ao engajar os Kālāmas nesse diálogo, o Buda se utilizou de três medidas: a opinião de pessoas respeitadas, a reflexão, a lógica e dedução. Porém, ele não declarou que, com base em alguma delas, podemos dizer que algo é absolutamente verdade. Mas, sim, que podemos combinar habilidosamente esses métodos para identificar um caminho confiável.

Assim, um discípulo habilidoso se utiliza de várias medidas e faculdades para avaliar e obter confiança em seguir um determinado caminho. Mas tal discípulo não deve cair na cegueira de sustentar sobre bases frágeis qualquer certeza ou fé.


¹Ao lado do Cūlahatthipadopama Sutta (leia sobre em A Pegada do Elefante), este discurso aos Kālāmas é um importante texto que trata de questões de Teoria do Conhecimento em uma abordagem altamente prática.