A Pegada do Elefante

Uma Discussão do Cūlahatthipadopama Sutta

O discurso MN 27 do cânone budista trata de um sutil problema humano: dos limites do conhecimento e, portanto, da nossa capacidade de sermos enganados quando somos convencidos de que concluímos algo corretamente.

Cientistas encontram algo bastante familiar nesse texto, já que a postura mental que o Buda estabelece é precisamente aquela exigida de um cientista profissional. Isso é, a importância do cuidado e da precisão ao observar e pensar sobre fatos evitando poluir aquilo que se observa com induções frágeis e interpretações pessoais sujeitas a erro e ao engano. Cientistas, em geral, são treinados intensamente nessas questões. O Budismo abraça as mesmas exigências.

Um outro atrativo que envolve este discurso é a notável atitude de candura por parte do Buda, ou melhor, honestidade intelectual. Um importante aspecto desta qualidade é descrita pelo professor de ética Louis M. Guenin (Harvard):

“O núcleo da honestidade intelectual consiste em uma disposição virtuosa voltada a extinguir o engano quando existe incentivo para enganar.” 
Intelectual Honesty

A seguir, apresento trechos do sutta MN 27 e discuto algumas de suas passagens. Uma tradução completa em português deste sutta está disponível aqui.


O MN 27 relata um encontro entre um andarilho chamado Pilotika e um brahmin, Jānussoni. Após saber que Pilotika acabou de se encontrar com o Buda, Jānussoni pergunta a Pilotika:

O que você pensa sobre a lucidez e sabedoria do recluso Gotama? Ele é ou não é sábio?

Enquanto os seguidores do Buda se referiam a ele com títulos mais reverentes como “senhor”, “venerável”, dentre outros, popularmente ele era conhecido como o “recluso Gotama”, onde Gotama é seu nome propriamente dito¹.

Ao responder Jānussoni, o andarilho se mostra franco, dando uma resposta que se alinha aos ensinamentos do Buda. Porém, sua resposta acaba sendo interpretada como grande admiração:

“Quem sou eu para conhecer a lucidez e sabedoria do recluso Gotama? Conhecer sua lucidez e sabedoria certamente requer que a pessoa seja seu igual”.

Em seguida, Jānussoni questiona Pilotika sobre o porquê dessa estima e confiança de pelo Buda. Usando uma metáfora de pegadas de elefante, Pilotika então descreve quatro coisas que o convenceram de que o recluso Gotama é, de fato, um iluminado²:

“Suponha que um perito em elefantes entra na floresta e nota uma pegada de elefante, longa e extensa. Ele então chegaria a seguinte conclusão: ‘De fato, trata-se de um grande elefante macho’. Da mesma forma, quando eu vi quatro pegadas do recluso Gotama, eu cheguei a conclusão: ‘O recluso Gotama é perfeitamente iluminado, seus ensinamentos são bem proclamados e seus discípulos praticam o bom caminho’.”

As quatro “pegadas” que convenceram Pilotika foram, em sumário, ele ter testemunhado:

  1. Nobres pessoas estudadas e espertas (“conhecedoras das doutrinas dos outros”, “mentalmente afiadas”) que derrubam líderes espirituais em debates filosóficos encontrarem o Buda e, ao invés de questioná-lo, se convertem após um discurso do Buda.
  2. brahmins inteligentes e espertos, também conhecidos por derrubar líderes espirituais em debates, se convertendo ao ouvir o Buda.
  3. Pessoas comuns inteligentes (também conhecidas por ganhar em debates filosóficos) que se converteram ao ouvir o Buda.
  4. Outros reclusos que da mesma forma se converteram ao ouvir o Buda e, após treinar seguindo seus ensinamentos, disseram “Nós estávamos perdidos; nós nos considerávamos iluminados quando não éramos, de fato, iluminados.”

Após essa conversa, Jānussoni foi ao encontro do Buda e descreveu a ele seu encontro com Pilotika. O Buda então disse:

“Nesse ponto, brahmin, a metáfora da pegada do elefante ainda não está completa. Ouça-me para conhecê-la por completo:
Brahmin, suponha que um perito em elefantes entra na floresta e nota uma pegada de elefante, longa e extensa. Um perito sábio não chegaria ainda a conclusão: ‘De fato, trata-se de um grande elefante macho’.
Por que não? Pois em uma floresta existem pequenos elefantes fêmeas que deixam grandes pegadas, e esta pegada deve ser de uma delas.
Seguindo a pegada, o perito encontra outra larga pegada e alguns arranhões no alto. Nesse momento, um perito sábio não chegaria ainda a conclusão: ‘De fato, trata-se de um grande elefante macho’.
Por que não? Pois em uma floresta existem elefantes fêmeas altas que deixam largas pegadas, possuem grandes dentes e esta pegada deve de uma delas.
Seguindo esta pegada, o perito encontra outra larga pegada, alguns arranhões no alto e marcas de presas. Nesse momento, um perito sábio não chegaria ainda a conclusão: ‘De fato, trata-se de um grande elefante macho’.
Por que não? Pois em uma floresta existem elefantes fêmeas altas que deixam largas pegadas, possuem grandes dentes e presas, e esta pegada deve ser de uma delas.
Seguindo esta pegada, o perito encontra outra larga pegada, alguns arranhões no alto, marcas de presas e galhos quebrados. E ele vê o grande elefante macho na raiz de uma árvore ou no campo, andando, sentado ou deitado. E ele chega a conclusão: “Este é um grande elefante macho!”

Primeiramente, é excepcional que, ao conversar com Jānussoni, que pertence a outra religião (ele era um brahmin), o Buda não tenha exaltado as razões que levaram Pilotika a estimá-lo. Isso é, ele não exaltou os elogios de Pilotika sobre seu sucesso em converter diversas pessoas que o encontraram com o interesse de desafiá-lo.

Não só isso, como Buda está dizendo que essas quatro razões que o Pilotika tem para crer na iluminação do Buda não são suficientes para uma pessoa dizer que o Buda é iluminado. E a razão disso, como a metáfora explica, é simples: ele poderia, ainda, estar enganado, se baseando apenas nessas quatro observações. Assim como o perito poderia acabar encontrando algo que não fosse um grande elefante macho olhando apenas as pegadas.

Em outras palavras, o Buda está criticando Pilotika, dizendo que ele está sendo descuidado ao acreditar que o Buda é iluminado sem saber se ele realmente é, baseando-se apenas na observação de que "pessoas inteligentes" estão se convertendo. E isso certamente é possível, afinal, mesmo pessoas inteligentes são enganadas por outras pessoas.

Pela metáfora da pegada, o Buda então afirma que a forma apropriada de uma pessoa avaliar se o Buda é iluminado é se essa mesma pessoa alcançar a iluminação — algo análogo a um especialista que reconhece outro especialista. Além disso, a metáfora ilustra o problema mais geral: tiramos conclusões possivelmente incorretas quando não temos evidências suficientes de algo. Por exemplo, poderíamos estar acusando alguém de um crime onde as aparências mostram que a pessoa o cometeu, mas de fato não cometeu.

Curiosamente, a língua de um povo pode fazer muita diferença sobre quão rápido e claro podemos identificar enganos no que as pessoas dizem. Por exemplo, uma tribo do Peru conhecida como Matse, possui uma língua altamente sofisticada para descrever eventos:
“Os Matses precisam ser mestres em epistemologia. […] Quando eles usam um verbo, a língua os obriga a especificar — como o mais rigoroso advogado — exatamente como eles conheceram o evento que estão descrevendo. Há formas verbais diferentes dependendo se o evento foi testemunhado diretamente, se o evento foi inferido, se foi conjecturado ou se ouviu dizer. Se o tempo verbal for usado incorretamente, o que foi dito é considerado uma mentira. […] Além disso, a língua os obriga a dizer quando a pessoa fez a inferência e quando a pessoa acha que o evento em si ocorreu.” ―― Guy Deutscher, Through the Language Glass.
Se em português, nós diríamos “um elefante passou por aqui as 11 da manhã”, em Matse, isso não é possível. A língua nos forçaria a dizer algo próximo a uma das possibilidades abaixo:
• “Eu vi um elefante passando por aqui as 11 da manhã”
• “Eu vi pegadas grandes as 11:30 da manhã e concluí há quinze minutos atrás que são de elefantes que passaram por aqui as 11 da manhã”
• “Eu sempre vejo elefantes passando por aqui todos os dias as 11 da manhã, então acho que eles passaram por aqui hoje também as 11 da manhã”
• “Me contaram que um elefante passou por aqui as 11 da manhã”

Se o Buda está dizendo que seus admiradores não devem ser tão apressado ao concluir que o Buda é iluminado, naturalmente, isso não significa que resta a todos os “não iluminados” negar o status do Buda. Significa apenas que se uma pessoa afirma ou nega sem de fato saber, ela simplesmente está fazendo isso: falando o que não sabe.

Nessa perspectiva, esse discurso (que é um texto religioso) está efetivamente criticando fé. No Budismo, é classificado como um tipo de conhecimento, porém o tipo mais fraco. O tipo de conhecimento mais valioso no Budismo é o experiencial e direto — por vezes referido como “insight” — que não permite engano. Na metáfora, é quando o perito imagina um elefante (quando ele acha que um elefante criou as pegadas), e insight é o momento em que o perito vê o elefante.

Mas, se o Buda está alertando os seus discípulos a não crerem tão levianamente que seu professor é iluminado e a não basearem conhecimento em fé, como podem saber se o Buda é mesmo iluminado? E mais: sem saber isso, como podem, ainda assim, continuarem sendo budistas?

O Buda aborda um pouco desta questão no restante do sutta, ao explicar o caminho para a iluminação (a extinção do sofrimento) e de que forma uma pessoa pode reconhecer se esse caminho funciona. Em particular, ele declara que 4 estágios funcionariam como as primeiras 4 "pegadas do Buda", ou seja, "marcas" pelos quais se tem maior confiança de que se está no caminho certo. São eles o primeiro, segundo, terceiro e quarto Jhānas.

Os Jhānas funcionam, então, como "milestones" ou um marco no treinamento budista. Até realizá-los, uma pessoa precisa ter certa confiança de que a doutrina tem fundamento. Mas ao realizá-los, pouco a pouco a confiança daria lugar ao conhecimento propriamente dito. Assim como na metáfora, ao ver o elefante, não mais precisa-se acreditar que as pegadas são dele.

Dessa forma, a atitude do budista é ilustrada como alguém que se propõe a experimentar algo que ele não sabe, sem sombra de dúvidas, se é verdade; mas está disposto a investigar. É alguém que segue os ensinamentos e, observando os resultados, tira suas próprias conclusões.

Em geral, na medida em que o treinamento progride, o discípulo confirma por sua própria experiência se o que lhe foi ensinado confere. Se confere, o discípulo ganha confiança na doutrina e continua o treinamento. Se ele se vê convencido de que a doutrina de fato não leva ao objetivo que clama, então nada mais natural que ele abandone a doutrina.


¹ Os textos considerados mais antigos apenas mencionam o nome “Gotama” como o nome do Buda. Outros textos usam o nome completo Siddhattha Gotama (ou Siddhārtha Gautama em sânscrito). No entanto, ainda existem dúvidas sobre seu nome real.

²Iluminação, no Budismo, é algo estritamente definido. Sendo breve, uma pessoa “iluminada” se refere a uma pessoa que extinguiu 3 “impulsos mentais”: aversões, obsessões e ignorância das leis que regem e manifestam sofrimento. Por “extinção”, entende-se que esses fenômenos mentais não passam mais a se manifestar em uma pessoa; não se trata, portanto, de ausência momentânea, mas permanente. Por “aversões” (dosa em pali), compreende-se um amplo espectro de impulsos mentais envolvendo, desde simples sentimentos de aversão, até raiva, ódio e agressão. Por “obsessões” (lobha pali), entende-se de um tipo particular e bem preciso de desejo que tem como componente um sentimento de necessidade em algum grau (ex. não saciá-la gera algum sofrimento). É normalmente traduzido para “paixão” ou “obsessão”, embora ambas opções deixam a desejar. Em inglês, “craving” possui significado um pouco mais próximo.