Mindfulness — Uma introdução

O treinamento budista, sumarizado no chamado Caminho Óctuplo, se desdobra em um rico e abrangente arcabouço de práticas, ora realizando um dos oito aspectos deste caminho, ora complementando-o. Destacam-se, por exemplo, os Quatro Tipos de Empenhos, os Sete Fatores do Despertar, os Quatro Jhānas e os Quatro Alicerces da Atenção (em inglês, “the four foundations of mindfulness”)¹.

Em particular, os Quatro Alicerces da Atenção são entendidos como o núcleo da prática budista mais ligada ao seu propósito final: a compreensão da natureza de si e da natureza do sofrimento. Tais práticas detalham o ramo “Atenção Correta” na perspectiva do Caminho Óctuplo, e o seu desenvolvimento realiza o primeiro de sete fatores que culminam no despertar.

Popularmente, os exercícios meditativos que fazem parte dos Quatro Alicerces da Atenção são conhecidos como vipassanā. Esse termo significa “insight” e, em geral, se refere a prática que desenvolve o insight que penetra a natureza da realidade.

Hoje em dia, a meditação vipassanā também é popularmente conhecida como meditação mindfulness. Entretanto, uma prática clínica/terapêutica batizada como “mindfulness” recentemente ganhou popularidade no ocidente. Embora existam leves semelhanças (e acredita-se que seus criadores se inspiraram nas práticas budistas), as diferenças são significativas. Assim, uma prática divulgada como “mindfulness” não necessariamente representa as instruções do Buda como temos registro. O presente texto se limita apenas a discutir a prática budista.

Na seção abaixo, o significado de mindfulness/atenção será introduzido no contexto do cânone budista. Em seguida, os Quatro Alicerces da Atenção serão introduzidos segundo o principal sutta que descreve essa prática: o Satipaṭṭhāna Sutta da coleção Majjhima Nikaya do cânone pāli.

Sati, Mindfulness e Atenção

Nos textos budistas traduzidos para o inglês, o termo “mindfulness” (pt. “atenção”) aparece como tradução para a palavra sati, em pāli. Porém, essas traduções falham em abranger as sutilezas e usos variados de sati nos discursos do Buda.

Sati, mais do que tratar de atenção, trata da faculdade de lembrar e de “ter em mente”. O famoso monge Asaṅga (século IV) explica:

“O que é sati? O não esquecimento da mente no que diz respeito ao objeto experimentado (observado). Sua função é a não-distração.”
 — Asaṅga, Abhidharmasamuccaya

No contexto dos ensinamentos do Buda, sati significa não só não ser descuidado e distraído em cada ação, mas ter em mente o que se está fazendo e o que se está observando sem confusão. Em práticas mais profundas, se refere a observação das características essenciais daquilo que entra em contato conosco (ex. toques, formas, sons, pensamentos, …). Por características essenciais, entende-se características como a sua impermanência, a sua incapacidade de nos satisfazer por completo, a sua natureza Saudável ou Nociva, a sua incapacidade de estar sob nosso completo controle, dentre outras.

Como ilustração, suponha um praticante budista faminto e bem treinando nas práticas de Atenção. Ao almoçar, tal pessoa teria em mente que a comida está sujeita a mudanças, e está sujeita a acabar. Ainda, a pessoa teria completa compreensão de que o alimento não está sob seu completo controle: determinadas coisas podem acontecer e não temos absoluto poder de evitá-las. Assim, se a refeição aparece estragada ou, digamos, é roubada, essa pessoa não se aflige. Ela não se surpreende como uma pessoa comum se surpreenderia e não sofre por causa disso — afinal, pode-se dizer que não é surpreendente para ela. Esta pessoa apenas continuaria com fome e poderia decidir buscar outra forma de se alimentar.

Em contraste, uma pessoa comum faminta, ao perder sua refeição, frequentemente cria um segundo sofrimento. Ela sofre em dobro: sofre de fome e sofre de frustração, ou mesmo, raiva.

Os Quatro Alicerces da Atenção

Os Quatro Alicerces da Atenção são práticas cruciais da doutrina budista, baseadas no desenvolvimento da atenção, com o intuito de dissolver a ilusão.

Há um número substancial de discursos do Buda sobre esse tema, e diversos tratados, livros e manuais foram escritos por praticantes budistas ao longo dos milênios sobre essas práticas, buscando esclarecer em mais detalhes aquilo que os suttas não detalham. Tendo em vista o volume do tema, aqui ele será apresentado apenas brevemente.

Na abertura do Satipaṭṭhāna Sutta, o Buda aparece descrevendo o papel central dos Quatro Alicerces da Atenção:

“Monges, esse é o caminho onde todas as coisas convergem, para purificar os seres senscientes, para dar um fim ao sofrimento e tristeza, para ir além da miséria e da lamentação, para alcançar o fim, para testemunhar o Nirvana; isso é, os quatro alicerces da meditação sobre atenção.”

Os quatro alicerces se referem ao (1) corpo, (2) sensações, (3) mente, (4) princípios (dhammas). As práticas de atenção ao corpo devem se estender pelo dia-a-dia do praticante. Já durante a meditação, a prática se torna mais suave: ao desenvolver de forma mais refinada a atenção ao corpo, o praticante pode gradualmente direcionar à atenção às sensações. Progressivamente, da atenção as sensações à atenção à mente e desta, à atenção aos princípios.

Atenção ao Corpo

O Buda instrui os monges a treinarem Atenção ao Corpo da seguinte forma:

“Quando um praticante anda, ele compreende: ‘Estou andando’; quando ele pára em pé ele compreende: “Estou em pé parado”; ou quando ele se senta, ele compreende: ‘Estou sentado’; quando ele se deita, ele compreende, ‘Estou deitado’. Assim, em qualquer posição que seu corpo assuma, ele compreende claramente como tal.
Mais ainda, quando o praticante se retira ou retorna, ele age com consciência; quando ele olha para frente ou para os lados, ele age com consciência; quando se abaixa ou estende seus braços e pernas, ele age com consciência; quando veste suas roubas, ele age com consciência; […] quando bebe, come, mastiga e saboreia, ele age com consciência; quando defeca e urina, ele age com consciência; […] quando ele fala ou se mantém em silêncio, ele age com consciência.
Enquanto ele assim pratica, diligente, ardente e resoluto, as memórias e aspirações mundanas são deixadas de lado; ao deixá-las de lado, a mente se acalma e se estabelece internamente, ela se torna focada, concentrada. É assim que o praticante desenvolve Atenção ao Corpo.”

Essa é a prática mais básica da Atenção: ela favorece a calma e o cuidado em todas as nossas ações, nas nossas interações no momento presente. Isso é, essa prática acaba por inibir o praticante de fazer algo pensando em outra coisa — sendo, portanto, desatencioso. Além disso, essa prática cria condições para o desenvolvimento da unificação da nossa mente (em contraste com o estado de perturbação e instabilidade, tão comuns no dia-a-dia da vida comum).

O exercício seguinte corresponde as práticas iniciais de meditação, propriamente dita. O praticante deve escolher um local reservado, sem distúrbios e confortável, sentar-se com a coluna reta e o corpo em repouso. Tendo feito isso, o próprio Buda instrui como começar a meditação:

“E como se deve meditar observando um aspecto do corpo? Aqui, um monge […] se senta em postura de meditação, com seu corpo ereto e foca sua atenção bem aqui. Atenciosamente, ele inspira; atenciosamente ele expira.
Inspirando profundamente, ele claramente sabe ‘Estou inspirando profundamente’; expirando profundamente, ele claramente sabe ‘Estou expirando profundamente’.
Inspirando sutilmente ele claramente sabe ‘Estou inspirando sutilmente’; expirando sutilmente ele claramente sabe ‘Estou expirando sutilmente’.
Ele pratica assim: ‘Eu inspirarei experimentando o corpo da respiração’. Ele pratica assim: ‘Eu expirarei experimentando o corpo da respiração’.
Ele pratica assim: ‘Eu inspirarei acalmando o corpo/respiração’. Ele pratica assim: ‘Eu expirarei acalmando o corpo/respiração’.
Assim como um carpinteiro experiente, ao fazer um corte profundo na madeira, entenderia claramente ‘Estou fazendo um corte profundo’ e ao fazer um corte superficial entenderia claramente ‘Estou fazendo um corte superficial’. Da mesma forma, o praticante treina.
Dessa forma, ele medita observando um aspecto interno do corpo; ele medita observando um aspecto externo do corpo; ele medita observando um aspecto interno e externo do corpo.
Ele medita observando as causas da originação do corpo; ele medita observando as causas da dissolução do corpo; ele medita observando as causas da originação e dissolução do corpo.
Ou, o reconhecimento de que ‘Há o corpo’ é estabelecido até onde é necessário para o conhecimento e atenção. O praticante medita independente, sem se agarrar a nada no mundo. É dessa forma também que o praticante medita observando um aspecto do corpo.”

Atenção às Sensações

Por “sensação”, o Buda se refere ao agregado Vedanā, isso é, as reações “afetivas” a todo e qualquer estímulo sensorial contactado pelos nossos sentidos.

“E por que se chama Vedanā? ‘Sente-se’, monges, é por isso que é chamado ‘Vedanā’. E o que se sente? Sente-se prazer, sente-se dor, sente-se nem-dor-nem-prazer.
 — SN 22.79

Assim, o Buda instrui:

“E como se medita observando um aspecto das sensações?
Aqui, quando um praticante sente uma sensação prazeirosa, ele reconhece com clareza: ‘Eu sinto uma sensação prazeirosa’.
Quando um praticante sente uma sensação dolorosa, ele reconhece com clareza: ‘Eu sinto uma sensação dolorosa’.
Quando um praticante sente uma sensação neutra, ele reconhece com clareza: ‘Eu sinto uma sensação neutra’.
Quando um praticante sente um prazer mundano [dos sentidos], ele reconhece com clareza: ‘Eu sinto um prazer mundano [dos sentidos]’.
Quando um praticante sente um prazer espiritual², ele reconhece com clareza: ‘Eu sinto um prazer espiritual’.
Quando um praticante sente uma dor mundana [dos sentidos], ele reconhece com clareza: ‘Eu sinto uma dor mundana [dos sentidos]’.
Quando um praticante sente uma dor espiritual, ele reconhece com clareza: ‘Eu sinto uma dor espiritual’.
Quando um praticante sente uma sensação neutra mundana [dos sentidos], ele reconhece com clareza: ‘Eu sinto uma sensação neutra mundana [dos sentidos]’.
Quando um praticante sente uma sensação neutra espiritual, ele reconhece com clareza: ‘Eu sinto uma sensação neutra espiritual’.
Dessa forma, ele medita observando um aspecto das sensações internas; ele medita observando um aspecto das sensações externas; ele medita observando um aspecto das sensações internas e externas.
Ele medita observando as causas da origem das sensações; ele medita observando as causas do fim das sensações; ele medita observando as causas da origem e do fim das sensações.
Ou, o reconhecimento de que ‘Há sensações’ é estabelecido até onde é necessário para o conhecimento e atenção. O praticante medita independente, sem se agarrar a nada no mundo. É dessa forma também que o praticante medita observando um aspecto das sensações.”

Atenção à Mente

Nesta etapa, o Buda ensina a observar cuidadosamente as diversas facetas da mente, seja da nossa própria mente ou da mente de outra pessoa (por exemplo, o estado mental dela). Ele ensina a observar quatro estados mentais nocivos/imaturos e quatro em estado de amadurecimento.

“E como um praticante medita observando um aspecto da mente?
Aqui, um praticante claramente reconhece uma mente com luxúria como uma ‘mente com luxúria’. Ele claramente reconhece uma mente sem luxúria como uma ‘mente sem luxúria’.
Ele claramente reconhece uma mente com raiva como ‘uma mente com raiva’. […] uma mente iludida […] uma mente contraída […] uma mente dispersa […] uma mente desenvolvida […] uma mente superada […] uma mente concentrada (em samadhi) […] uma mente livre […]”

Atenção aos Principios (dhammas)

A quarta e última prática meditativa dos Quatro Alicerces da Atenção é a observação dos aspectos fundamentais da natureza da realidade³. Tal observação é auxiliada pelo framework budista.

“E como um praticante medita observando um aspecto dos princípios?
Aqui, o praticante medita observando os princípios relacionados aos Cinco Obstáculos. […] Quando o praticante possui desejos sensoriais, ele reconhece claramente ‘Desejos sensoriais estão presentes’; quando desejos sensoriais não estão presentes, ele reconhece claramente ‘Desejos sensoriais não estão presentes’; e ele sabe claramente como desejos sensoriais que não surgiram passam a surgir; como desejos sensuais que surgiram são abandonados; e como desejos sensoriais abandonados passam a não surgir novamente.

O mesmo trecho do discurso (pericópio) é repetido para os demais elementos dos Cinco Obstáculos: aversão, preguiça & torpor, inquietação & remorso, e dúvida.

O Buda continua, então, com a observação dos Cinco Agregados:

“Ainda, o praticante medita observando um aspecto dos princípios relacionados aos Cinco Agregados. […]”
Aqui, o praticante entende: ‘Tal é forma, isto é a origem da forma, isto é o fim da forma; tal é sensação, isto é a origem da sensação, isto é o fim da sensação; tal é percepção, isto é a origem da percepção, isto é o fim da percepção; tal é formação volitiva, isto é a origem da formação volitiva, isto é o fim da formação volitiva; tal é consciência, isto é a origem da consciência, isto é o fim da consciência.’”

A prática de atenção aos princípios se extende mais profundamente, englobando práticas mais avançadas de observação das bases sensoriais (o campo dos sentidos), a observação dos sete fatores que potencializam o fim do sofrimento, e uma análise minuciosa das cadeias de causa e efeito na perspectiva do sofrimento, de sua origem, de seu fim, e do método que encerra seu fim . Levada a cabo em sua forma mais profunda, tal prática é descrita culminando na experiência do Nirvana, a realização do fim do sofrimento.


¹Os ensinamentos budistas foram compilados e organizados em diversas listas numéricas para facilitar a memorização por parte dos budistas e monges nos tempos do Buda.

²Usei a escolha de Maurice Walshe, quem escolheu a palavra “espiritual” como oposto de “mundano”. Os comentários do sutta definem “sensação espiritual” como aquelas relacionadas à renúncia (presumivelmente, do monge). Thich Nhat Hanh entende “sensação mundana” como sensação fisiológica, e “sensação espiritual” como sensação psicológica (ver Analayo, Satipaṭṭhāna: the direct path to realization).

³”Aspectos fundamentais da natureza da realidade” relativos à emancipação do sofrimento. Por exemplo, a composição física da matéria em átomos e moléculas informa muito pouco sobre sua relação com nossa mente, nossos desejos/aversões, e sobre o surgimento do sofrimento dentro de nós. Portanto, esses aspectos são ignorados do ponto de vista do objetivo do Budismo, que não pretende descrever a composição da realidade, mas esclarecer o caminho para o fim do sofrimento.