A origem de Deus

No Brahmajāla Sutta, um sutta bastante importante, o primeiro da coleção do Digha Nikaya, o Buda apresenta e ilustra 62 formas em que uma pessoa chega a uma visão, perspectiva ou crença incorreta a respeito da realidade.

Uma dessas conclusões incorretas é a de que certas coisas são eternas e outras coisas não são. Curiosamente, o Buda explica como essa visão surge ao contar como um ser espiritual passa a acreditar que ele é “o Deus Criador” e como uma pessoa passa a acreditar nele.

“Existem, monges, alguns reclusos e brahmins que são eternalistas sobre algumas coisas, e não-eternalistas sobre outras coisas. […] Qual o motivo que os leva a proclamarem essa crença?
Em determinado momento, monges, após um longo período de tempo, esse mundo (universo?) se contrai. Enquanto o mundo se contrai, a maior parte dos seres reaparecem no mundo do Brahma Ābhassara. E lá esses seres passam a morar, seres mentais sem corpos, de luz própria, se alimentando de êxtase, se movendo pelo espaço, gloriosos. E eles vivem assim por um longo, longo período de tempo.
Mas, cedo ou tarde, após um longo período de tempo, chega um momento em que esse mundo (universo?) passa a expandir novamente. Enquanto ele se expande, o palácio de Brahmā surge, vazio. Então, um certo ser, ao exaurir seu tempo de vida, falece no plano de Ābhassara e reaparece no palácio de Brahmā. E lá ele mora, um ser feito de mente, se alimentando de êxtase, luminoso, se movendo pelo espaço, glorioso.
Após viver assim por um longo tempo, surge nele uma agitação e insatisfação: ‘Ah, que outros seres pudessem aparecer aqui!’. Por coincidência, logo depois, outros seres falecem no plano de Ābhassara devido a exaustão de seu tempo de vida e reaparecem no palácio de Brahmā. […]
Então, o ser que lá primeiro surgiu conclui: ‘Eu sou o Brahmā, o Grande Brahmā, o Vingador, o Invisível, o Vidente Universal, o Portador do Poder, o Senhor, o Criador, o Ser Supremo, o Ordenador, o Todo-Poderoso, o Pai de tudo o que é e de tudo que será. E esses seres que surgiram aqui foram criados por mim. Por que razão? Pois eu desejei: ‘Ah, que outros seres pudessem aparecer aqui!’. E após eu ter decidido isso, estes seres surgiram.’
E os seres que ali surgiram depois também refletem: ‘Esse deve ser Brahmā, o Todo-Poderoso […]. E nós fomos criados por ele. Por que razão? Pois vemos que ele estava aqui primeiro, e nós aparecemos depois dele’. Monges, o ser que surgiu lá primeiro possui maior idade, maior beleza, e maior autoridade que os seres que apareceram lá depois.
Agora, monges, chega um certo momento em que um ser, após falecer daquele plano, reaparece nesse mundo e, enquanto vive nesse mundo, ele toma o caminho espiritual. Daí, por meio de dedicação e ardor, ele obtém tal grau de concentração mental que com sua mente ele se recorda da sua vida anterior, porém não chega a se recordar da vida antes desta. Então ele conclui: ‘Nós fomos criados por ele, pelo Brahmā, o Todo-Poderoso […]. Ele é permanente, estável, eterno, não muda, e ele será o mesmo por toda a eternidade. Mas nós, que fomos criados por ele e aparecemos nesse mundo somos impermanentes, instáveis, de vida curta, condenados a falecer’.”
 — DN 1