O que Leva Alguém a Ser Monge?

“‘Eu sou, não sou? — mas o que sou? O que é esse mundo esquivo e por que ele permanece em silêncio quando o pergunto qual motivo de minha presença aqui?’”
 —Clearing the Path

Vivemos nossas vidas como andarilhos, desejando e buscando saciar nossos desejos na esperança de obter aquilo que queremos e na esperança de não encontrar aquilo que nos desagrada. Nessa longa caminhada, nossos desejos mudam e aquilo que obtemos se transforma, frequentemente, em algo que não queremos. Ainda, nos vemos incapacitados de nos proteger daquilo que repudiamos de forma definitiva. Nos sentimos transtornados quando não temos o que queremos, ou quando perdemos o que valorizamos. Na vida, tudo muda, menos isso. No Budismo, isso se chama saṃsāra. Nele não há felicidade permanente, visto que tudo é impermanente.

O saṃsāra é como uma grande festa repleta de pessoas, de coisas pra fazer e de experiências para saborear. Também, é repleta de perigos, dor, medo e sofrimento. Nem tudo o que desejamos ali está disponível para nós. E outras coisas lá, quando não nos ferem por acidente, têm como claro objetivo nos ferir. Assim, cedo ou tarde, algumas pessoas acabam se sentindo cansadas da festa e do entretenimento sem fim, cansadas também de serem sujeitas à dor. Com isso, elas buscam um canto afastado do caos, procurando uma vida mais serena.

Alguns ainda procuram entender a festa. Reza a lenda que, durante um espetáculo, Tales de Mileto respondeu que ele era um filósofo quando o perguntaram sua profissão. Ao questionarem o que é um filósofo, ele teria explicado:

“Observe este espetáculo. Algumas pessoas vem aqui para se divertir. Outras vem aqui para trabalhar. Outras para paquerar. E outras vem aqui e se perguntam o que é que está acontecendo. Esses são filósofos.”

Finalmente, outras pessoas, refletindo sobre o espetáculo diante delas, contemplam seu próprio passado recheado de outros espetáculos que nunca as levaram a plena satisfação. Assim, ao terem uma intuição da natureza insatisfatória das coisas ao redor, essas pessoas buscam ir além, se perguntando onde fica a saída, o caminho para a paz genuína.

E para quem não acredita que a morte encerra a existência, morrer não ajuda em nada. Segundo a doutrina budista, a morte não é o fim, mas apenas outro nascimento sujeito a outra morte¹; mesmo renascendo em paraísos ou infernos, mesmo renascendo como o deus Brahmā.

Um budista, ao meditar e conseguir lembrar de algumas de suas vidas anteriores, certa vez disse:

“Isso me ajudou a entender que qualquer sofrimento que eu sinta hoje, eu já o senti no passado, e qualquer prazer que eu busque hoje, eu já o obtive no passado. Nenhuma destas experiências são novas — apenas esquecidas.”

Gautama, o Buda, foi uma destas pessoas que se aventurou na última busca que um ser se aventura a buscar, a busca da última resposta: aquela que coloca todas as outras perguntas em repouso final. E ele declarou ter encontrado-a.

“E se eu, sendo sujeito ao envelhecimento, doença, morte, aflição e impureza, reconhecendo os perigos daquilo sujeito ao envelhecimento, doença, morte, aflição e impureza, buscasse a suprema segurança naquilo que não envelhece, que não adoece, que não morre, que não aflige e que não é impuro, o Nirvana?’
 — Buda (MN 26)

Como vimos anteriormente, ele chamou essa saída de Nirvana e afirmou que Nirvana é a maior das felicidades. Ele declarou que essa felicidade é suprema por ser ausente de insatisfação, ausente de qualquer sofrimento, e permanente.

Mas mesmo que todas as pessoas acreditassem no Buda, isso ainda seria insuficiente para convencê-los a seguir o caminho até seu destino final. Abaixo, o Buda conversa com o brahmin Ganaka Moggallana sobre isso:

— Ao serem inspirados e instruídos assim pelo bom Gautama, pergunto se todos os discípulos do Gautama realizam o destino final, Nirvana, ou se alguns não o realizam?
— Alguns de meus discípulos, brahmin, ao serem inspirados e instruídos por mim realizam o destino, mas outros não o realizam.
— Qual o motivo, bom Gautama, para isso? Uma vez que Nirvana existe, uma vez que o caminho para o Nirvana existe e uma vez que o bom Gautama está aqui e ensina o caminho…
— Muito bem, brahmin, eu responderei sua pergunta com outra pergunta. Responda como achar apropriado. Me diga, brahmin, você conhece a estrada que leva a Rajagaha?
— Sim senhor, conheço bem a estrada que leva a Rajagaha.
—Imagine, brahmin, que um homem apareça aqui querendo chegar a Rajagaha. Tendo abordado você, ele te pede que lhe mostre o caminho para Rajagaha. Você poderia responder assim: ‘Sim, bom homem, essa é a estrada para Rajagaha; siga ela por um tempo. Em certo momento, você verá uma vila; continue seguindo por mais um tempo até encontrar uma feira em uma cidade. Logo após, você verá Rajagaha, com seus lindos parques, agradáveis florestas, campos e lagoas’.
“Porém, ao ser instruído e inspirado assim por você, ele pode acabar pegando a estrada que leva ao oeste. Então, um segundo homem pode lhe pedir a mesma informação e você o ajuda da mesma forma. Este homem, então, chega são e salvo à Rajagaha. Daí eu lhe pergunto: qual o motivo para isso? Embora Rajagaha exista, embora o caminho para Rajagaha exista e embora você aqui os ensine, uma pessoa chega ao destino e a outra toma outra estrada para o oeste…”
— O que eu posso fazer sobre eles, bom Gautama? Eu meramente estou mostrando o caminho.
— Da mesma forma, brahmin, o Nirvana existe, o caminho para o Nirvana existe, e eu estou aqui ensinando. Alguns de meus discípulos chegam ao destino, e outros não. O Buda meramente mostra o caminho.
 — MN 107

Portanto, tendo o fim do sofrimento como objetivo, o Buda ensinou sua doutrina, o Caminho Óctuplo, para aqueles que buscam realizar esse destino. Como cada passo em direção ao Nirvana é, em si, um passo em direção à uma vida de menos sofrimento, sua doutrina beneficia também aqueles que não estão dispostos a deixar suas vidas normais para se dedicarem à busca, mas procuram viver uma vida mais feliz.

“Assim como o rio Ganges se inclina em direção ao oceano, flui em direção ao oceano, chega ao oceano, da mesma forma o grupo do Mestre Gautama, com seus monges e donos de casa se inclinam em direção ao Nirvana, fluem em direção ao Nirvana, chegam ao Nirvana.”
 — MN 73

Dessa forma, a comunidade budista (a sangha) foi formada, sendo composta por pessoas comuns, que seguem os ensinamentos do Buda de acordo com sua inclinação, e por aqueles que se dedicam exclusivamente à busca e ao treinamento espiritual — monges, monjas e ascetas.


¹Como disse o monge Ven. Ñāṇananda: “O primeiro presente de aniversário que ganhamos ao nascer é a promessa da morte.”