Praticando o Budismo parte II: Meditação, Concentração & Atenção

Na Parte I, apresentamos o primeiro grupo do Caminho Óctuplo que representa o treinamento em virtude e conduta moral (sīla), composto por “Fala correta”, “Ação correta” e “Meio de vida correto”.

A seguir, o Grupo da Meditação, composto por “Esforço correto”, “Atenção correta” e “Concentração correta” é brevemente introduzido de acordo com as palavras do Buda presentes no cânone Pāli.

O Grupo da Meditação

Com a conduta virtuosa desenvolvida pelo Grupo da Virtude do Caminho Óctuplo, o praticante se vê dotado de um robusto suporte mental e emocional para desenvolver suas faculdades mentais, em particular, para expandir as qualidades mentais saudáveis e extinguir as qualidades nocivas.

Assim como um atleta organiza minuciosamente sua dieta e exercícios de aquecimento para prepará-lo para o treinamento propriamente dito, o meditador budista aperfeiçoa seu caráter e estuda os ensinamentos do Buda para prepará-lo para o treinamento meditativo.

O Grupo da Meditação é composto por “Esforço Correto”, “Atenção Correta”, e “Concentração Correta” do Caminho Óctuplo.

Hsu Yun.

Esforço Correto

“E o que, monges, é Esforço Correto?
Aqui, o discípulo gera desejo pelo não surgimento de novas qualidades mentais Nocivas; ele se esforça, cria energia, aplica sua mente, e se empenha.
Ele gera desejo pelo abandono de qualidades mentais Nocivas que surgiram; ele se esforça, cria energia, aplica sua mente, e se empenha.
Ele gera desejo pelo surgimento de novas qualidades mentais Saudáveis; ele se esforça, cria energia, aplica sua mente, e se empenha.
Ele gera desejo pelo sustento das qualidades mentais Saudáveis que surgiram, ele deseja que estas não desapareçam, ele deseja que elas se expandam nesse desenvolvimento; ele se esforça, cria energia, aplica sua mente, e se empenha.
Isso é chamado Esforço Correto.”
 — SN 45.8

Como vimos anteriormente, as qualidades mentais Nocivas principais são chamadas de os Cinco Obstáculos: (1) desejos sensoriais, (2) aversões, (3) inquietação e remorso, (4) preguiça e torpor e (5) dúvida. Já as qualidades Saudáveis¹ são produtos do desenvolvimento da mente em qualidades benéficas, qualidades que o Caminho Óctuplo se oferece como treinamento para cultivá-las:

“E o que é Saudável? Abstenção de matar seres vivos, abstenção de roubar, abstenção de má conduta sexual, abstenção de mentiras, abstenção de palavras maliciosas e raivosas, abstenção de fofocas, abstenção de cobiça, abstenção de aversões, Visão Correta. […]”
 — MN 9

Esforço Correto (sammā vāyāma) não apenas é benéfico por si só, como também é o prelúdio para o treino em Atenção Correta e Concentração Correta.

Atenção Correta

“E o que, monges, é Atenção Correta? Aqui, um monge contempla o corpo como o corpo, com atenção, resoluto, com compreensão clara, tendo removido desejos e aversões em relação ao mundo. Ele contempla as sensações como sensações. Ele contempla a mente como a mente. Ele contempla os fenômenos como fenômenos, com atenção, resoluto, com compreensão clara, tendo removido desejos e aversões em relação ao mundo.”
 — SN 45.8

Atenção Correta (sammā sati) corresponde à um dos treinamentos principais do Budismo. Em inglês, sati é frequentemente traduzido como “mindfulness”. Embora a passagem acima seja bastante resumida, Atenção Correta engloba a prática de meditação conhecida hoje como vipassana, que é incorporada em tipos de meditação de diversas linhagens, como o zazen da tradição Zen. A originalidade dessa prática é distintamente Budista.

O “Manual de Instruções” das práticas de Atenção Correta é descrito pelo Buda em três suttas principais: os famosos satipatthana sutta, o anapanasati sutta, e o kayagatasati sutta. Porém, essas práticas aparecem em diversas outras exposições do Buda.

Uma função importante dessa prática é preparar o praticante para desenvolver Concentração Correta (a seguir). Quando essa prática e a prática de concentração atingem o ápice, a atenção pode ser direcionada a observar fenômenos da realidade pela ótica de três aspectos:

  • Sua natureza impermanente (anicca)
  • Sua natureza insatisfatória (dukkha)
  • Sua natureza insubstancial (anatta)

A “perfeita compreensão”, em nosso íntimo e subconsciente mais profundo, desses três aspectos dos fenômenos corresponde à descoberta de que a felicidade permanente não pode ser encontrada nesses fenômenos. Tal ruptura leva à um desencanto e desapego a tudo que é transitório, ao mesmo tempo em uma paz se instala no íntimo. Essa paz é fruto da diminuição da ansiedade, da sede (taṇhā, em Pāli) por coisas transitórias. Sem ansiedade, sem sede, encontramos contentamento espiritual. Em seu último estágio, quando o último nó que nos amarra aos desejos sensoriais é rompido, esse contentamento e paz é chamada de Nirvana, o fim permanente do sofrimento.

Embora não seja difícil obter uma compreensão intelectual desses conceitos, essa compreensão intelectual certamente não é o Nirvana (da mesma forma que uma pessoa que ouve ou lê uma descrição sobre sexo não perde a virgindade ao entender o que foi dito ou lido). A prova inquestionável disso é que, mesmo entendendo, ainda sofremos.

Uma vez que a nossa mente costuma ser distraída, descontrolada e desfocada, para penetrar na realidade com precisão e profundidade é necessário domar e unificar a mente. Assim, as práticas de Concentração Correta e Atenção Correta andam lado a lado, reenforçando-se mutuamente.

A prática de Atenção Correta e os exercício de meditação correspondente são detalhados um pouco mais em “Mindfulness — Uma Introdução”.

Concentração Correta

“E o que, monges, é Concentração Correta? Aqui, [sentado em meditação] isolado de Prazeres Sensoriais e isolado de qualidades mentais Nocivas, o discípulo entra e habita no primeiro jhāna, que é acompanhado por pensamento aplicado, com êxtase físico e felicidade cuja origem é o retiro na solidão.
Com o enfraquecimento e desaparecimento do pensamento aplicado, com a mente sem pensamentos, ele habita no segundo jhāna, que possui confiança interna e unificação da mente, e êxtase e felicidade originados na concentração.
Com o o desvanecer do êxtase, ele habita equânime e, com atenção e compreensão clara, ele experimenta felicidade no corpo; ele penetra e habita no terceiro jhāna, em que os nobres declaram: ‘Ele é equânime, atento e alerta, aquele que habita em felicidade’.
Com o abandono de prazeres e dores, e com o desaparecimento anterior das alegrias e desprazeres, ele penetra e habita no quarto jhāna, que não é nem prazeiroso nem doloroso e inclui a purificação da atenção por equanimidade.

Isso é chamado Concentração Correta.”
— SN 45.8

Acima, o termo jhāna é equiparado com Concentração Correta (sammā samadhi). Mas o que é esse jhāna ou dhyana em sânscrito — que chegou à China pronunciado como Ch’an, e ao Japão, como Zen?

Tratam-se de estados de meditação e concentração profundos, e são divididos em quatro estágios, do primeiro ao quarto jhāna. O pré-requisito para penetrar no primeiro jhāna — e portanto, para penetrar nos jhānas mais profundos seguintes — é uma mente livre das principais qualidades mentais Nocivas, isso é, os Cinco Obstáculos: desejos sensoriais, aversões, preguiça e torpor, inquietação e remorso e dúvidas (sobre como alcançar o jhāna)

Infelizmente os suttas não são mais detalhados sobre as técnicas para alcançar os jhānas². Só encontramos textos mais detalhados em momentos posteriores da história, compostos por outros monges e comentadores . O manual clássico mais famoso é o Visuddhimagga, compilado pelo monge chamado Buddhaghoṣa por volta do século V D.C. Até hoje, manuais de jhāna são escritos por monges budistas e meditadores.

Devido a falta de detalhes nos suttas, há controvérsias sobre o quão profundo deve ser o estado meditativo para ser considerado jhāna. Algumas pessoas acreditam que uma concentração comum deve ser considerada jhāna. Porém, é difícil conciliar essa idéia com diversas passagens nos suttas. Por exemplo, alguns suttas mostram monges com dificuldade de alcançar o primeiro jhāna mesmo depois de muito treino.

Em contraste com aqueles que acreditam que jhānas são fáceis, outros praticantes preferem errar mais “para muito” do que “para pouco”, evitando o risco de “comprar o ingresso para o show, e acreditar que o ingresso é o próprio show”³.

Por exemplo, um famoso monge chamado Pa Awk Sayadaw só reconhece a proficiência de um discípulo em um dado jhāna se ele for capaz de penetrar, quando quiser, no jhāna e, sem perder a concentração, permanecer nesse estado por três horas e sair do jhāna nesse momento. Nesse caso, o jhāna é tão profundo que a habilidade de sair do jhāna no momento desejado também deve ser treinada.

De qualquer forma, o Buda instruiu seus discípulos a terem completo domínio da prática em todos os seus aspectos. Ele os instruiu a se aplicarem com vigor e serem mestres nelas!

“Meditem, discípulos! Não sejam negligentes, não se arrependam depois! Essa é nossa instrução a vocês!”
— Buda (SN 43.1)

Continua na Parte III.


¹Como explicado no post sobre qualidades mentais, estamos definindo, por enquanto as qualidades mentais Saudáveis por meio das ações que as produzem. Nominalmente, elas são definidas como os Sete Fatores do Despertar, assunto que discutiremos no futuro.

²Uma hipótese para essa ausência é que essa prática talvez fosse bastante comum entre os meditadores da época. Por exemplo, nos Sutras Yoga de Patañjali, um texto da tradição Yoga, há a curiosa menção ao primeiro jhāna, porém de forma bem mais resumida e não há menção dos outros jhānas. Ainda, é possível que, mesmo que não tenha sido o Buda quem introduziu a técnica aos outros meditadores, que ele tenha sido quem a sistematizou , com seus pré-requisitos e seus fatores envolvidos em cada estágio. Afinal, aparentemente os quatro estágios e seus fatores são conhecidos apenas em textos budistas.

³Uma versão moderna e condensada da parábola do Buda sobre o cerne da madeira.