As mulheres e os ambientes sagrados no Japão, por Hônen Shonin

- texto traduzido do livro A history of Japanese religion organizado por Kazuo Kasahara.
Não se poderia fazer melhor se não recorrer-se ao reformador Hônen (1133–1212) para entender a atitude com relação às mulheres sustentada em ambientes sagrados de prática e estudo no antigo Budismo japonês, tais quais Tôdai-ji, Enryaku-ji, Kongôbu-ji, Daigo-ji, Sûfuku-ji, e Kimbusen-ji. Hônen, que viveu metade de sua vida no peíodo Heian (794–1185), gastou trinta anos em antigos centros do Budismo Japonês — Tôdai-ji em Nara e Enryaku-ji no Monte Hiei — desde seus doze anos até quarenta e dois anos de idade, quando ele deixou o Monte Hiei para pregar sua doutrina salvífica através da fé em Amida e a recitação do Nembutsu. Pouquíssimos homens religiosos eram tão qualificados quanto Hônen para comentar sobre a situação das mulheres em relação aos ambientes sagrados dos centros tradicionais do Budismo.
No Muryôju-kyô Shaku (Comentário sobre o Longo Sukhavati-vyuha), Hônen notifica a prática de templos das escolas dos períodos Nara e Heian que rigidamente excluíram as mulheres de participar de suas atividades e até mesmo de entrar de seus ambientes sagrados: “Nesta região do Japão, todos os mais sagrados e exaltados lugares santos proibiram as mulheres de entrar.” Ele cita exemplos específicos deste tipo de prática e continua descrevendo a atitude em relação às mulheres nos antigos centros Budistas:
Enryaku-ji no Monte Hiei foi estabelecido pelo próprio Dengyô Daishi (Saichô) como um lugar cujas montanhas e vales não eram para ser maculados pela presença de mulheres. Naqueles ambientes sagrados o ápice do Veículo Único (ditado pelo Sutra do Lótus) se eleva sublime aos céus, e as mulheres, que estão carregadas dos cinco obstáculos para a iluminação, jamais devem atravessar. Os vales são profundos e calmos, e as mulheres, que estão submetidas aos cinco obstáculos e as três obediências, jamais devem entrar neles. Uma mulher pode ouvir as bençãos da maravilhosa imagem de Yakushi (Nyorai), o Buda da Medicina, (no Enryaku-ji) no Monte Hiei, mas ela não pode ver a estátua com seus próprios olhos. Uma mulher pode admirar à distância dos ambientes santos estabelecidos aparte por Dengyô Daishi, mas ela nunca deve subir a montanha sagrada.
Hônen relata que as mulheres eram também proibidas de acessar o Kongôbu-ji no Monte Kôya:
Monte Koya foi estabelecido por Kûkai para utilização sagrada e negado às mulheres. A doutrina do supremo veículo do Shingon floresce lá, onde a lua dos três mistérios do corpo, fala e mente iluminam todas as coisas. Ainda assim, nem todas elas — para mulheres, vazias da capacidade de atingir a iluminação, continuam não iluminadas. As águas da sabedoria são ditas que fluem para todos, igualmente. Ainda assim, elas não fluem para o maculado corpo das mulheres. Até mesmo no Monte Hiei e no Monte Kôya, os ensinamentos do Buda não são acessíveis às mulheres. Quão tão certo e natural é isso, então, que mulheres devem ser negadas a entrar e serem excluídas da incomparável Terra Pura da Perfeita Bem-Aventurança?
O esquecimento do Monte Kôya a respeito das mulheres é evidente no Nyojaku Kôyasan Ôjô Den (Biografias daqueles do Monte Kôya que atingiram o renascimento na Terra Pura), que enumera nenhuma única mulher ao longo das trinta e oito pessoas cujas vidas são recontadas. Depois de observar que as mulheres foram banidas de todos os ambientes sagrados do Budismo tradicional, Hônen declara:
É triste ter que dizer que, ainda que as mulheres tenham pernas para caminhar, existem as montanhas do Dharma em que elas não podem escalar e jardins do Buda que elas não podem entrar. Novamente, vergonhoso dizer que, apesar das mulheres terem olhos para ver, existem lugares santos que elas não podem visualizar e maravilhosas imagens as quais elas não podem admirar. Portanto, até mesmo os templos, meros amontoados de entulhos e bosques neste mundo de sofrimento, recusam a entrada das mulheres, e até mesmo as rústicas imagens de Buda feitas de de barro e tábuas rejeitam sua admiração. Como, então, poderiam as mulheres serem permitidas a renascer na Terra do Buda e olhar o Buda, possuidor de todas as virtudes, e habitar na Terra Pura da Perfeita Bem-Aventurança, feita de incontáveis preciosas jóias?