minhas mãos como as mãos de minhas avós

Rafael Budni
Sep 1, 2018 · 4 min read

“There is a vitality, a life force, an energy, a quickening that is translated through you into action, and because there is only one of you in all of time, this expression is unique. And if you block it, it will never exist through any other medium and it will be lost. The world will not have it. It is not your business to determine how good it is nor how valuable nor how it compares with other expressions. It is your business to keep it yours clearly and directly, to keep the channel open. You do not even have to believe in yourself or your work. You have to keep yourself open and aware to the urges that motivate you. Keep the channel open. … No artist is pleased. [There is] no satisfaction whatever at any time. There is only a queer divine dissatisfaction, a blessed unrest that keeps us marching and makes us more alive than the others” — Martha Graham*

eu não lembro como iniciou a minha relação com a comida. meus pais contam histórias e guardam fotos de hábitos, costumes e coisas que eu fazia quando ainda era muito pequeno: seja sentar no colo de uma tia, comendo cereal, com um ano de idade, enquanto todos se esbaldavam em uma churrascaria; abrir o forno durante a tarde para roubar arroz frio da panela; o mesmo macarrão que meu pai fazia diariamente quando só minha mãe trabalhava fora; escolher no fundo do quintal a galinha que seria servida para o almoço; as experiências com 10 anos sozinho sábado à noite e mais uma infindável lista de receitas, combinações que nunca vi ninguém fazer (café com manteiga, alguém?), tentativas que resultaram em desastres (o bolo que coloquei 4 xícaras de trigo em vez de colheres). lembrar do meu desenvolvimento como índividuo ou como ser social é lembrar de refeições.

cresci cuidado por minha mãe, minha tia e minha avó. todas cozinheiras excelentes. não era raro que eu me encantasse por pratos que só sabia descrever de um jeito muito próprio: sopa de mandioca virava sopá de jacaré — uma alusão ao borbulhar da respiração de um animal na água, com a fervura da sopa que minha tia fazia — e bife à milanesa se chamava bife com sujeira. pratos que cresci comendo, cresci pedindo, cresci amando, mas não cresci fazendo. nunca tentei, embora saiba o processo teórico inteiro na minha mente.

apesar disso, também criei minhas receitas, aprendi outras, sempre com um ponto: nunca gostei de cozinhar só pra mim, sempre soou muito triste ou solitário demais se dedicar a algo e colocar seu amor em algo que você não vai dividir com alguém. digo isso sem querer qualquer proposta de romantização: pelo contrário, tem muito de um ego que quer ser massageado com expressões, elogios e hmmmmm's.

eu aprendi de frequentar a cozinha, caseiro como jacó, cúmplice de olhos atentos ao que minha mãe fazia, pratos que por sua vez foram ensinados minhas avós, e que provavelmente aprenderam de um saber vindo de mãos mais antigas.

minha geração da família não cozinha mais. quando cozinha, cozinha pouco ou com ingredientes ruins, processos ruins, sem o fervor que nossas mães e avós tinham — ou que eu acho que tinham.

da minha parte, ao cozinhar só pra mim, meu afastamento com a cozinha se consolidou. produtos industrializados e ultraprocessados se firmaram na minha rotina. cozinhar passou a ser obrigação mental que eu evitei até chegar a uma espécie de adoecimento emocional. passei a sentir saudade das panelas e das facas, de forma que mesmo as comidas de minha família, que nunca valorizei.

***

comidas que me trouxeram aqui talvez deixem de existir. receitas de amigos, vizinho, tios distantes, se perderão. memórias materializadas em forma de paladar arrefecem quando distantes das panelas.

mais do que eu o que como, eu sou o que comi.

tapioca
pão de queijo
sanduíche de tomate
sanduíche de mortadela e tártaro
farofa de bife de fígado
farofa de ovo
ovo mexido com tomate
ovo molinho
spaghetti com catchup
ovo quadrado
café com manteiga
bolo de banana com castanha
moqueca
doce de abóbora com coco
doce de coco com ovos
bife frito com água e shoyu
mortadela frita
sanduíche de mortadela
queso fundido
queijo quente
bolo de fubá cremoso
costela no pacote de pão
polentina
quirera
torresmo de galinha
frango à passarinho
bife de ancho com farofa de alho
pão
risoto de abacaxi com gorgonzola
pizza quadrada
arroz com verduras
ceviche
bife à milanesa
bolo de coco gelado
sorvete de coco queimado
milho frito
bolacha champagne
feijão com pão
salada de beterraba
alface com shoyu
frango assado com shoyu
empadão
sfiha
tomate com açúcar
suco de cenoura, laranja e limão
caipirinha de steinhaegger
molho ranch
pirão
cuca
pappardele com linguiça blumenau e molho de limão
flor de abobrinha recheada
coxinha de mandioca
ovos com bacon
gelatina colorida
creme chinês
castanhas açucaradas
iogurte de ameixa
sopa de mandioca
sopa de feijão com vina
sopa eslava
frango com maçã
macarronada com frango
fígado frito
carne de panela
batata gratinada
strogonoff com purê
amendoim torrado
paçoca
pinhão
doce de abóbora de cubinhos
doce de figo
sorvete de passas ao rum
licor de jabuticaba
abacate com leite em pó
costelinha barbecue
goiabada cascão

eu tenho uma lembrança de cada prato destes. se eles vivem em mim, eu também vivo neles. é disso e de muitas outras porções fartas e suculentas que sou feito e que quero dividir com outros.

*Martha: The Life and Work of Martha Graham — Página 4, Agnes de Mille — Random House, 1991, ISBN 0–394–5564.

Rafael Budni

Written by

Procuro ser chato em tempo integral, mas amorzinho nas horas vagas.