Dona Brazilda vai à terapia

E todos nós podemos aprender um pouquinho com a sua consulta

A mulher batia os pés de maneira impaciente. Quando alguém estava prestes a revelar um grande segredo no programa da TV, eis que a porta branca à sua frente subitamente se abriu.

– Brazilda, vamos lá? – anunciou o especialista.

Branca, na faixa dos trinta anos, a bela espécie de uma rara beleza entrou apressada no consultório. Estava ansiosa por aquele momento.

– A famosa Brazilda. É sua primeira vez aqui, né?

– Sim – respondeu ela. – Antes tarde do que nunca.

– Está certo – assentiu ele. – Sente-se, por favor.

A católica apostólica romana ajeitou-se no confortável divã de couro branco.

– Diga lá, o que te aflige, Brazilda?

Dois segundos de silêncio, um breve suspiro e logo a mulher urbana e conservadora, com ensino fundamental incompleto e renda média mensal de R$ 1.113,00, desatou a falar sem parar.

– Ai, doutor, acho que tô passando por uma crise. Não sei explicar, mas não tô conseguindo mais me reconhecer. Eu achava que tava tudo certo, que as coisas iam às mil maravilhas, mas de repente saquei que tudo aquilo era mais uma daquelas ilusões do passado. Mais um voo de galinha, como dizem por aí. De uma hora para outra, tudo começou a desandar na minha vida. Perdi amizades, briguei com a família, me atrapalhei no orçamento doméstico… Há pouco tempo, levei o maior tombão, ó – disse, mostrando umas cicatrizes nas pernas. – Fui dar umas pedaladas na minha bike, me atrapalhei no processo e acabei caindo. Caí com tudo no chão. E ainda por cima amassei o meu para-lama. Só porque tinha acabado de pagar a última prestação. Complicado, né.

O especialista apenas ouvia tudo e fazia algumas anotações num bloquinho.

– De vez em quando ainda dói, viu – completou ela.

– É a dor do crescimento – observou ele.

A mulher deu um grande suspiro.

– Às vezes acho que não sou capaz de fazer nada direito.

– Você tem mais potencial do que imagina – retrucou ele.

– Tenho a impressão que eu nunca aproveito o agora direito, sabe? Que eu fico sempre na espera de um futuro bom que nunca acontece.

A mulher silenciou. O especialista fez mais algumas anotações no caderninho, ajeitou os óculos de aros finos e encarou a paciente com um sorriso no rosto.

– Você diz que não faz nada direito, mas eu vi as fotos da sua festa na internet.

– Viu, é? – disse ela, acanhada.

– Sim! E quem não viu? Foi muito linda, parabéns.

A mulher se animou e novamente desandou a falar.

– É mesmo, né, e quem é que não acharia lindo? Sabe, doutor, os outros que me perdoem, mas de festa eu entendo. A Londrinete, aquela invejosa, bradou aos quatro ventos que eu jamais conseguiria fazer uma festa mais bonita que a dela. Deu no que deu, né, meu bem. Pra essas aí, só posso dar meu beijinho no ombro – disse ela, reproduzindo o movimento. – E depois, vamos combinar, né: essas festas de gente bacana são uma pasmaceira só.

O especialista ficou sem palavras.

– Hã… bem… – resmungou ele, olhando para o seu relógio.

– Já sei, o meu tempo tá acabando, né? Poxa, que pena – lamentou ela, levantando do divã e colocando sua bolsa. – Queria tanto falar com você sobre o golpe…

– Golpe? – surpreendeu-se o especialista.

– É, eu levei um golpe hoje pela manhã.

– Na cabeça?

– Acho que sim, não me lembro. Podemos examinar depois?

– Acho melhor investigarmos isso direito – sugeriu o especialista, incisivo. – Vou mandar tirarem uma chapa, ok?

– Tirar a chapa? Então eu preciso temer algo? – respondeu ela, contrariada. – Não dá pra resolver isso numa consulta simples?

O especialista olhou novamente o relógio.

– Seu tempo acabou. Tchau, querida.


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