Que todos morram

E se de repente todos os mosquitos sumissem da face da Terra?

Rodrigo Budrush
Jul 20, 2017 · 5 min read

Desde criança, sempre odiei mosquitos. Eu morava no litoral, perto da mata, numa cabana de madeira fria e mal iluminada. Lembro-me muito bem dos zumbidos irritantes que atrapalhavam o meu sono na madrugada, assim como dos calombos que se espalhavam por todo o meu corpo franzino e provocavam coceiras insuportáveis. “Não coça com a unha para não criar ferida”, instruía o meu avô. “Desliza o pulso sobre o calombo, bem devagarzinho, e depois assopra. Melhor: dá uma cuspida antes de assoprar, que assim refresca e alivia”. E não é que dava certo mesmo?

Ah, vovô… Jamais lera um único livro na vida, mas para mim era o mais inteligente dos homens. “Cada bichinho tem o seu lugar na natureza”, dizia ele, “até os mosquitos”. Até eles? Bem, para mim sempre foi difícil entender como um inseto tão irritante poderia ter alguma serventia. Ainda mais depois do dia em que o homem mais sábio do mundo acabou vencido por um Aedes aegypti. Foi durante o seu velório, quando uma mosca insistira em zanzar pelo seu rosto inerte e amarelado, que eu prometi a mim mesmo: um dia, quando crescesse, haveria de encontrar uma maneira de livrar o mundo de todas essas malditas pragas.

Eu tinha cinquenta anos quando ganhei o primeiro Prêmio Nobel para o Brasil. Confesso que quase tive uma crise de riso durante a cerimônia — convenhamos, aquele evento é tão formal que chega a ser engraçado. Mas, assim que recebi a medalha dourada das mãos do Rei da Suécia, um forte sentimento de satisfação tomou conta de mim. Na verdade, a última vez em que sentira algo parecido fora quando o meu avô me presenteara com um ovo de páscoa gigante. Para um garotinho humilde como eu, aquilo era como um raro tesouro que deveria ser desfrutado aos poucos. O homem feito, no entanto, não tinha reservas: nem o céu era o limite. Menos de cinco anos após meus estudos serem colocados em prática, o mundo viu-se repentinamente livre de mazelas como dengue, malária e febre amarela. Dezenas de milhões de vidas humanas foram poupadas. O planeta era agora um lugar muito mais seguro e confortável — e tudo isso graças a mim. Eu mesmo, o “pobre menino brasileiro que mudaria para sempre o destino da humanidade”, como sentenciou a revista americana Time na edição em que fui laureado com o título de “personalidade do ano”. Posso até estar enganado — e acredite em mim, não estou — , mas àquela altura talvez o único cientista da história que poderia rivalizar comigo em popularidade era Albert Einstein. E como era bom ser popular: conheci os principais líderes mundiais, virei ídolo pop — tinha até fã clube! — e uma verdadeira fila de doadores particulares se oferecia para financiar as minhas pesquisas. Viver num mundo sem mosquitos foi mesmo uma revolução e tanto.

Menos de um ano após a extinção, um grande estudo realizado em todo o planeta revelou que o evento não havia gerado grandes consequências ambientais. Algumas poucas espécies de peixe de água doce tiveram sua população reduzida de maneira drástica, e nada mais. No final das contas, o custo-benefício da empreitada havia sido absolutamente positivo — em especial para os países tropicais, que viram o fluxo de turistas explodir. Nossa Amazônia nunca fora tão visitada: ninguém precisava mais se preocupar com vacinas e a expedição na floresta ficara muito mais agradável. Era de fato um novo mundo.

Se havíamos sido tão bem-sucedidos, por que não dar um passo além? Por que não fazer o mesmo com outras espécies que não nos serviam para nada? Do alto de toda a minha imponência, resolvi que era chegada a hora de realizar a maior façanha do novo milênio: livrar a humanidade de todos os seres danosos à nossa raça. A opinião pública comprou a ideia de imediato.

Apesar dos protestos de uma ínfima parcela da comunidade científica — afinal, gente invejosa existe em todo lugar — , tudo ocorreu perfeitamente e, em pouco tempo, o meu grande plano enfim começou a tomar forma. Agora os meus alvos eram bichos nojentos e inúteis como baratas, ratos e moscas, além de pragas como gafanhotos e demais insetos que atrapalhavam a lavoura. Ao fim e ao cabo, meus estudos permitiram que o Brasil se transformasse numa verdadeira potência da biotecnologia. Junte a isso o impressionante impulso em nossa agricultura e o resultado foi que, no espaço de uma década, o país viveu a fase mais próspera de sua história, produzindo riqueza suficiente para tornar-se a terceira maior economia do planeta. Passados mais cinco anos após a implementação dessa nova etapa, o mundo já podia fazer um balanço dos resultados concretos: depois do êxito com os mosquitos, tudo deveria ter ficado ainda melhor sem os outros bichos, certo?

Bem, cerca de três anos após a extinção em massa das pragas urbanas, outros animais ainda mais repugnantes começaram a surgir. No lugar das moscas, morcegos. Em vez de baratas, pombos. Uma superpopulação de gambás assumiu o posto dos ratos. Além disso, as cidades ficaram mais sujas. Como não havia mais ratos e baratas para ajudar no escoamento das tubulações, estas começaram a entupir e o esgoto passou a invadir as casas. Para piorar, doenças ainda mais severas irromperam na população.

Não tardou para que uma crise de proporções globais se instalasse. Países poderosos como China, Rússia e Índia se indispuseram contra o Brasil, acusando-nos de ter feito tudo deliberadamente apenas para enfraquecê-los. A situação se agravou quando surgiram as primeiras notícias a respeito de sequelas mais críticas devido à falta dos mosquitos: florestas tropicais começaram a desaparecer e frutos importantes como o cacau ficaram subitamente ameaçados de extinção. Orientado por mim, nosso presidente fez um pronunciamento ao vivo para todo o planeta, onde tentou tranquilizar a todos dizendo que poderíamos reverter a situação com o uso da tecnologia. “Não podemos perder a cabeça”, disse ele, pouco antes de ter a sua explodida pelo disparo de um extremista russo. A cena grotesca foi o estopim de uma nova guerra planetária que se estenderia por anos e anos.

Como esperado, fomos um dos países mais afetados — espantosamente, o governo preferira investir o dinheiro dos tempos de bonança em educação e infraestrutura, dando pouquíssima atenção às Forças Armadas. Há quem diga que apenas 10% da população mundial conseguiu sobreviver ao caos. Eu sou um deles. Vivo hoje num bunker subterrâneo em São Paulo que, dizem, é o maior do mundo. Os cinco mil privilegiados que aqui vivem batizaram carinhosamente este lugar de Ratos do Porão. Todos aqui me detestam e tratam-me como se eu fosse o verdadeiro anticristo.

Ninguém sabe ainda quando será seguro retornar à superfície. Tudo o que sei é que os nossos suprimentos devem acabar dentro de alguns meses. Ironicamente, o que não falta por aqui são barras de chocolate. Este velho daria tudo para trocá-las por alguns bons mosquitos.


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Rodrigo Budrush

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Escritor, roteirista e videomaker. Conheça meu livro "Moscas Volantes": http://amzn.to/2gR4kPU

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