Gabiru Crioulo
Sep 1, 2018 · 4 min read

"Amigo, eu quero mais do que você possa imaginar"


Amigo, eu quero mais do que possa imaginar, ou talvez possa imaginar, aquele beijo foi bom, mas quero mais do que isso, eu mereço mais do que aquilo. Te entendo, amigo, quando vê meu corpo sendo despido no espelho do teu quarto enquanto troco de roupa, sei o quanto aquilo passa a ser provocante, é mesmo minha intenção te provocar. Vejo seus olhos tentarem se desviar para o outro canto, enquanto eu canto, troco de bermuda, e boto os sapatos, posso ver o quanto você soa frio e sua boca treme, se eu fosse bobo, até pensaria que era algo relacionado a amor o que sente, mas nós sabemos, ou pelo menos eu sei, que não é.

Igor, eu quero mais que aquilo que você quer enquanto se masturba, algo que foge do líbido, que foge das carícias, ou que talvez não fuja das carícias, mas ainda assim, é algo mais. Quero uma resposta imediata as minhas mensagens quando sutilmente te convido para sair, quero servir de colo enquanto fala do seu ex, — e como fala do seu ex(…) —, quero que me deixe deixar sua mãe falar das suas peripécias de infância, quero poder te falar de quando tive uma namorada também.

Sei o quanto eu quero te dar, e sei o quanto quer me dar, mas não quero fazer isso só uma vez, não só enquanto estamos bêbados, ou fartos de maconha, nem mesmo nas suas carências, ou melhor, não somente em suas carências. Quero te dar enquanto não terminar o inverno, e também na passagem do outono, ta fazendo frio, e é por toda essa estação que quero te dar, quero te dar não somente aquilo, mas algo mais. Quero te dar as mãos enquanto caminhamos pela Glicério, quero te dar colo no branco da praça perto da Sete, quero fazer carinho nos teus cabelos crespos um pouco antes de você ter de raspar para se alistar no serviço militar, e por falar nisso, em breve você faz dezoito, e vamos ficar sossegados quanto a tudo aquilo que conversamos no primeiro encontro.

Igor, quero que pare de me mandar nudez, e quero também que pare de me pedir, te mandei aquelas, e também várias outras, não sei exatamente porque, talvez por medo, pressão, ou talvez libido, mas peço que pare, pois não gosto de mandar, ao menos receber, nem se quer me excita esse tipo de abordagem, toda aquela performa, não passava de encenação. Não sinto apenas desejo pelo seu corpo, existem outras coisas que observo muito mais do que o volume da sua cueca quando me beija assim que sai do banho.

Eu olho para você mais do que possa imaginar, ou talvez possa imaginar, nunca irei saber. Eu noto seu sorriso tímido quando elogio seu sorriso tímido, reparo nos desajustes dos teus caninos, no som que sua língua faz quando estala ao dizer “caneca”, na forma como um de seus olhos pendem para lados opostos quando está tímido, — você, sempre tão carismático, ao mesmo tempo tímido —, sei que passa muito tempo na internet defendendo Diva Pop, e o quanto te irrita quando te racho nos memes. Amo a forma como você vibra nos coletivos de esquerda, e o quanto fica triste quando sua mãe não te deixa ir nos protesto, você chora por dentro e por fora Temer, mas pelo visto, chorar ultimamente tem virado seu hobbie.

Ainda não sei como não transamos, tivemos diversas oportunidades, mas eu, quase sempre receoso, me nego, e você empático, me deixa negar. Claro que tem aquela parada d’eu ser virgem com vinte e dois anos, mas para você são apenas detalhes. Admiro muito sua paciência, mas com o tempo eu mesmo vou perdendo a paciência, e então brigamos; brigamos porque você quer por as mãos por dentre as minhas calças, brigamos por você esperar seus pais dormirem para fazer constantemente uma tentativa, confesso que aquele colchão de ar na sala é tentador, mas não estou pronto.

Não estou pronto porque não me deixa estar, ou talvez por eu querer algo mais além disso. Garoto, sou mais que um corpo a se foder, uma carne barata, ou coisa do gênero. Espero que um dia perceba isso, e espero que perceba antes que eu vá, porque estou por ir; você é lindo, mas existem outros boys, e outras girls, e outros mil gêneros e bocas para se tentar, mas vou ficar enquanto da pé, e quando não der, bom, apago seu número, volto para casa, e está tudo certo; você é padronizado, vai ficar bem, quanto a mim, não sei exatamente, mas devem existir outros de você por ai, exatamente desse jeito, me esperando para fazer revolução por esse Brasil a fora Temer.