Pela janela
A vida passou.
Debruçada na mureta, ela me observava passar.
Mais um dia, algumas horas, muitos minutos e infinitos segundos. O tempo havia engolido seus anseios, os sonhos só lhe vinham à cabeça quando seus olhos estavam fechados e seu corpo relaxado. O mesmo corpo que fora carregado pela maré dos anos, que em algum momento, parou de nadar contra e deixou-se levar. Suas heranças, deixadas pelo caminho, transformaram-se em âncoras que a obrigavam a parar e colocar-se em último plano, pois a liberdade havia perdido seu significado e tornara-se apenas uma mera palavra em seu vocabulário pobre.
Seu mundo não passava de uma pequena rotina, onde o dia sempre chegava ao fim, para então renascer. Exatamente igual ao anterior e não muito diferente do próximo. A sabedoria carregada pela sua idade era o seu maior trunfo.
Naquele pequeno momento, ela vislumbrou sua história através de mim, deixei nela um pedaço de minha juventude, um fio de vigor que há anos ela não experimentava. Seus olhos brilharam. Ela acenou.
A rotina é um vício, a noite nunca tarda a chegar. Dessa vez ela esperou por aqueles sonhos que vinham, muitas vezes, sem significado algum. Fechou os olhos, mas tudo o que conseguiu ver dali em diante, foi escuridão.