“Você está gostando demais de mim” ou “Os Homens que não amavam”

Já se passaram inúmeras situações que afetaram amplamente as estruturas e instituições da nossa sociedade e, ainda assim, o texto de Zygmunt Bauman cada vez parece mais premonitório. Em sua obra “Modernidade Líquida”, o autor polonês disseca o formato que nossa sociedade estaria tomando por meio da flexibilidade cada vez mais dinâmica e ininterrupta de um mundo do consumo constante de informação imediata.

Como crítico da escassez de referenciais e regulamentações de senso coletivo que estabeleçam valores morais, características da dita “Pós-Modernidade”, Bauman nos aponta para as consequências desse fluvialidade como a incerteza. Onde quero chegar com esse texto é sobre o aspecto do envolvimento humano que essa camada de inconstância mundial recobre.

Ao chamar os relacionamentos líquidos de “Conexões”, Bauman faz duas críticas às novas normas de envolvimento humano: A vantagem de uma conexão não é tão somente a oportunidade de se ter inúmeras quanto a possibilidade de se desfazer de qualquer uma. Essa transitoriedade se mascara nos discursos das novas gerações com uma disforme faceta de vanguardismo, quando na verdade corrobora uma supremacia da lógica de mercado.

Esse raciocínio nos transfigura socialmente em produtos perfilados em prateleiras. Poderíamos nos sentir mal com esse tratamento — e verdadeiramente nos sentimentos — , mas jamais devemos demonstrar. Ainda não descobrimos como percorrer a mesma velocidade do universo ao nosso redor, mas não deixamos que ele saiba da nossa fraqueza. Vestimos personas impenetráveis e as encastelamos sobre uma torre protegida por diversas muralhas que, ao mesmo tempo que nos protegem, nos escondem.

Erguer e desarmar tantas paredes não é um processo de instantes, portanto evitamos desperdiçar nosso tão inestimável tempo e simplesmente permanecemos ali. O que faríamos afinal? Chorar quando ficamos tristes? Agradecer quando nos faz bem? Qualquer tipo de interação que ultrapasse os códigos da superficialidade e apresentem alguma humanidade marejada de emoções sem o escrúpulo de se conterem diante do mundo é pavorosa.

Todos nós nos adaptamos para essa conduta e não olhamos para os olhos uns dos outros. Sequer olhamos nos próprios olhos diante do espelho, pois há um medo sórdido da existência que reside naquele reflexo. Inconscientes disso, qualquer relacionamento que nos cobre mais do que nossos nomes e opiniões rasas soa como um mal investimento. Mais que isso, é intimidador. Alguém ser capaz de te enxergar é de uma exposição mais densa que a nudez se constatarmos o quanto de nosso diálogo é puramente escrito pela internet afinal até a voz pode transparecer algo.

Tão ligados nisso tudo, né? Beleza, bora pro papo reto agora então:

Somos produtos e portanto precisamos vender nosso peixe. Fazemos pose, carão, trabalhamos no blasé e evocamos a mesma atmosfera de mistério de um trailer e convidamos nossos “objetos de desejo” a nos quererem. Tiro certeiro, capturamos a presa e ficamos ali no cantinho da pilastra o resto da noite. A música eletrônica meia-boca é deixada em segundo plano pelo som dos estalos das bocas. A duração do toque é variável, mas a separação é inevitável; alguém aqui precisa respirar.

Você sai do beijo, olha para a pessoa. “Qual é seu nome?” > “Ah, legal” > “Vou falar com minhas amigas, já volto”. Termina mais ou menos aí. As vezes você até sabe o nome pois eficientemente preparou o terreno e apurou as chances. Isso é o que chamamos de ONE NIGHT STAND. Foi só por prazer mesmo, não tem porque você pensar naquela pessoa no dia seguinte. Mas você pensa o que te faz falhar miseravelmente. Pronto, se expôs. No jogo moderno, só ganha aquele que permanecer altivo e inalcançável até o fim.

Se isso é uma situação corriqueira, vamos nos deslocar para os questionamentos: Se você só quer prazer, porque precisa ficar com alguém? Muitas vezes não compensa mais do que a própria auto-satisfação. Se só queria naquela hora, porque lembra disso? Você não fica pensando no sorvete que comeu no dia anterior por mais que o tenha desejado no ato da compra.

Permita-me responder com um frasismo: “Nossa geração vive a mentira do não-envolvimento ao ponto de não se envolver dentro de si mesma”. Nos adaptamos muito bem ao capitalismo fluido, mas nossa natureza viva não aceitou a mentira que contamos para nós mesmos.

T U D O É SE ENVOLVER. 
Dar um bom dia pro trocador do ônibus ou agradecer ao padeiro é um envolvimento. Imagina beijar alguém e permitir que ambos corpos se confundam em onde termina um e começa outro! Porra, isso é se envolver e é M U I T O.

Você manda mensagem no dia seguinte e chama para sair. As vezes você sequer deseja que esse convite culmine num beijo. A pessoa demora pra responder e se o faz, monossílabas. Em dado momento a pessoa não consegue mais usar de artifícios para te despistar e diz “Desculpa, não vai dar certo” ou “Não quero um relacionamento agora”.

O que é dar certo? Nunca terminar um namoro?
Má notícia: se esse é seu critério, é possível que você morra sem um relacionamento seu ter “dado certo” ou se deu foi porque um de vocês morreu antes de poderem terminar, vai por mim.
Não é preciso muito tempo pensando para concluir que terminar não é sinônimo de errar. 
F.R.I.E.N.D.S terminou. Significa que deu errado???

Você pediu ele em namoro? Não.
Você teve uma troca antes e nós vivemos nossa vida em busca de compartilhar. Você não quer namorar, casar, ter dois filhos e um cachorro. Muito provavelmente você quer uma nova amizade. E talvez um dia você pudesse querer, mas a eventualidade disso já foi decepada na raiz.

Alguém está desesperado. Apavorado. Com carência de outras pessoas e de um verdadeiro si mesmo. E esse alguém não é você, que apesar do mundo em que vive, arriscou, deu a cara a tapa e demonstrou que quer.

Esse alguém é ele; No masculino.

Minha pontuação específica quanto a esse lado do tabuleiro usa como base minhas experiências enquanto homem homossexual e os incontáveis depoimentos de amigas que fazem paralelo com narrativas que já vivenciei. A repetição de tal padrão me leva a crer que a deficiência parte do masculino no nosso contexto atual. Contexto onde nunca antes a reivindicação existencial feminina teve tanto poder ao ponto de a mídia já estar aos poucos se ajustando para atender tamanha demanda. Mulheres em todos os cantos do globo dizendo que podem ser o que quiserem, coisa que homens já podiam há muito tempo.

Apesar dessa maior liberdade irrefutável do Homem, um discurso subjetivo maldito tem o efeito contrário. As definições de Homem na verdade são bem limitadas: Cerveja, Esportes, Objetificar mulher. Não vai muito para além disso. Mesmo escolher uma faculdade com um enfoque mais social já atesta contra sua masculinidade, o bibelô mais frágil do mundo.

Essencialmente praticamente nenhuma existência é capaz de ser comportada por fundamentos tão ínfimos, mas a adaptação é a maior característica do ser humano e o masculino se apertou para caber nessa descrição menor que carro de palhaço. Enquanto mulheres estão expandido suas perspectivas, os poderes de seus corpos e suas sexualidades, o recalque do Homem é cada vez mais pavimentado e deixado para trás. Ao invés de seguir o andar da carroça reinventado e ampliando o significado de ser garoto, possibilitando uma real manifestação do sagrado masculino a maioria dos homens ainda está acorrentado em condições cruéis de vida premeditada.

Essa infinita tristeza do masculino robótico e minimizado trás consequências negativas para todos. Outros homens repetem tais demarcações para se incluírem; homens que se envolvem com homens não têm o direito de desejar algo mais próximo do que a mera sexualização; mulheres que se envolvem com homens são descartadas pois “estão gostando demais do cara e ele não quer machucá-las” ao mesmo tempo em que são machucadas por invasões físicas e mentais.

É isso que o Homem, trancafiado em seu próprio reducionismo, está fazendo. A culpa de não haver envolvimento é porque VOCÊ se entregou demais, afinal chamou para sair quando devia ter dado um gelo e permitido que aquilo tudo não passasse de uma individualização máxima do prazer, só que menos prática do que a masturbação.

Os homens do nosso mundo fluvial angustiado ainda não se deram ao direito de experimentar, de contornar, de dançar ou abraçar a feminilidade embutida em suas almas. Nesse processo, tampouco aceitam suas masculinidades, mas sim uma emulação medíocre delas que fantasia personagens bidimensionais de filmes datados.

Reitero, aceitar que ao encostar em alguém você está cumprindo o ritual mais necessário da nossa espécie é um ato de revolução. Olhar nos olhos de um outro ser e perceber que quando você beija alguém, alguém está sendo beijado: Isso é vanguarda.

Quando um homem te dá um bolo; quando te diz para pararem de ficar para não estragar a amizade ao mesmo tempo em que te evita no corredor (“estragando a amizade”); quando colocam a culpa em você; quando fazem pose pois alguém lhes deu afeto, mas não pretendem devolver nem ao menos dando respostas educadas e diretas, ele está tremendo de medo, acredite.

Quando um homem diz não saber o que quer, é sem querer a mais pura verdade. Muito menos sabem como conseguir. Todos os homens — tal qual todos os seres humanos — querem mais que tudo amar e serem amados. Muitos deles, entretanto, não perceberam que são capazes disso.