Qual o plano dos liberais para depois que a esquerda deixar o poder na América Latina?

A derrocada do governo petista não pode ser vista como um fato isolado — ao menos na América do Sul. Em um curto espaço de tempo, governos de esquerda tiveram derrotas políticas importantes na Argentina, Bolívia e Venezuela, além de perda de popularidade acentuada no Chile, Equador e Uruguai, que devem mudar os rumos das próximas eleições.

É difícil, entretanto, saber a essa altura se o desencanto do eleitorado com projetos bolivarianistas e assemelhados seja uma decepção com a esquerda. Afinal, governos que representam ideais de estado forte e políticas coletivistas funcionaram — ao menos do ponto de vista eleitoral — durante o período em que o consumo interno e o apetite chinês estiveram fortes. Com mais dinheiro em caixa, foi possível para esses governos focar em políticas de redistribuição de renda e investimento estatal, às vezes ao custo de uma política fiscal relaxada.

Agora que o cenário de bonança fiscal não está mais posto, qual ideologia norteará os novos governos? Será que as crises política, fiscal e econômica vistas na América Latina trarão em seu bojo uma maior aceitação às ideias liberais, de um menor papel do estado na economia e na vida das pessoas?

Esse foi um tema bastante discutido no Fórum da Liberdade, a maior reunião de pessoas ligadas ao pensamento liberal do Brasil, que teve a sua 29ª edição nos dias 11 e 12 de abril, em Porto Alegre (todos os vídeos das palestras podem ser vistos aqui). No auditório da PUC-RS, a queda de Dilma Rousseff era dada quase como certa, mesmo antes da votação na Câmara. Havia, em cada palestra, celebração pelo iminente fim do lulopetismo na presidência. Mas não euforia.

“Se a gente não pensar na agenda do dia seguinte, se ficarmos na cachaça da comemoração, corremos um risco muito sério. Uma massa de eleitores sem referência poderá ser cooptada por soluções messiânicas, que conduzam a ideias [econômicas] heterodoxas”, disse no Fórum Sérgio Maia, presidente da Associação dos Dirigentes de Marketing e Vendas do Brasil. Para ele, este é um momento de “esperança”.

A esperança, que se note, não seria por uma eventual guinada liberal da gestão Temer — ainda que ele já tenha acenado para mais privatizações e reforma da previdência. O otimismo contido dos palestrantes se dava pelo simples fato de, com o PT e seus aliados fora do comando político, haveria uma possibilidade de o liberalismo ganhar força. “Enquanto estivermos obrigados a transferir e delegar a responsabilidade que é nossa, seja para um terceiro privado ou para o governo, continuaremos debatendo os mesmos problemas”, afirmou Bruno Garschagen, autor de Pare de acreditar no governo.

Marcos Troyjo, da Universidade de Columbia (EUA), reforçou que “o Brasil precisa abandonar o capitalismo de estado”, para ele a ideologia norteadora das políticas públicas durante a maior parte da nossa história. “As manifestações de 2013 foram, ainda que inconscientemente, um grito contra o capitalismo de estado e suas extraordinárias ineficiências”, avaliou Troyjo. Ele diz que os países da região perderam uma imensa oportunidade de reformas e crescimento mais sustentável durante o boom das commodities, nos últimos 10 ou 15 anos. E quando essa oportunidade vier novamente, o Brasil não “poderá deixar o bonde passar”.

Marcos Troyjo, da Universidade de Columbia, explica por que o "milagre" brasileiro não era sustentável.

“Pelo bem da democracia e liberdade latino-americana, quero que o Brasil encontre seu caminho. Nós precisamos urgentemente de pessoas na elite política que estejam fora de uma modelo mental que condenou o Brasil ao que vemos hoje”, disse Jorge Quiroga, que foi presidente da Bolívia em 2001, antes de Evo Morales.

Quiroga, um dos palestrantes mais aplaudidos do Fórum, disse que o juiz Sérgio Moro e Leopoldo López, líder na oposição da Venezuela, eram os símbolos de uma mudança de mentalidade no continente, que estaria farto de corrupção e também do estatismo. Para o cientista político Adriano Gianturco, as duas coisas estão sempre ligadas. “A corrupção é o sintoma de um sistema que não funciona. A doença é o estatismo, o intervencionismo”. Para Gianturco, não deveria haver surpresa com o Petrolão porque as empresas estatais sempre são “alvo de clientelismo, favoritismo, nepotismo e corrupção”. Se o povo está indo para as ruas para protestar contra a corrupção, deveria estar exigindo uma nova mentalidade de governo, em sua avaliação.

Se havia certo consenso no Fórum sobre o que fazer para reanimar a economia brasileira dentro da perspectiva liberal, cada um tinha uma ideia de como fazer essa nova mentalidade — ao menos no contexto brasileiro — chegar a mais gente. Luis Alberto Lacalle, ex-presidente do Uruguai, disse que caberia às pessoas de bem participarem dos partidos políticos. Só reclamar dos governantes não adiantaria. “Não os deixem sozinhos. Ajudem. A indiferença é sempre culpável“, disse.

O ex-presidente boliviano, Jorge Quiroga, sobre a nova conjuntura sul-americana após a derrocada do bolivarianismo.

Muitos palestrantes, como o filósofo canadense Stephen Hicks, argumentaram que a batalha para mudar os corações e mentes de esquerdistas se daria não apenas na política, de cima para baixo, mas convencendo a população da superioridade prática das ideias liberais. Para Hicks ou Yaron Brook, Diretor-executivo do Ayn Rand Institute, o foco da onda liberal no Brasil não deveria ser, primordialmente, o Congresso ou Brasília. Mas sim intelectuais e professores universitários, os irradiadores dos consensos de esquerda na política brasileira.

Um dos últimos a falar no Fórum, Brook disse que todos os 3 mil presentes no auditório deveriam gastar uma ou duas horas de seu dia para apresentar a outras pessoas os ideais liberais. “Entrem no Facebook, comentem, discutam com seus professores. Leiam os livros. E vocês terão um país que serão orgulhosos, e todos os seus vizinhos os agradecerão muito”. Foi aplaudido de pé.

É muito cedo para dizer como será o pós-PT. É possível inclusive que a esquerda volte energizada com o discurso de um "golpe". Mas é inegável que o liberalismo no Brasil começa a ganhar espaço na mídia, nas redes sociais e entre intelectuais, apresentando-se como alternativa. Resta saber agora quando que essas ideias ganharão mais aceitação popular, se traduzindo em votos.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Pedro Burgos’s story.