Soprando com o vento.

Uma mentira. Toda a minha vida tem sido uma mentira desde o começo. Uma ilusão. A gente tem mania de querer ver ligação, ver sentido nas coisas. Mas nem tudo faz sentido. Algumas coisas são só peças soltas, recortes sem sentido, palavras sem contexto. Eu sempre acho que estou chegando em algum lugar, mas eu estou andando em círculos. Eu não estou indo a lugar algum. Eu estive mentindo pra mim esse tempo todo.

Quando sua dor é tão forte que você sequer consegue por em palavras. Uma tristeza contínua e aguda, que parece simplesmente não querer te abandonar. Ela quer consumir você. Quer te fazer soltar a corda. Ela te faz uma cama e te convida a deitar nela. E você não consegue mais levantar. É quente e é seguro. E vai consumir você.

Sabe como é sentir-se rasgada em um milhão de partes e tentar colá-las vez após vez, enquanto o vento as leva para lugares em que você jamais vai conseguir chegar. E você corre, pegando pedaço por pedaço, deixando os outros caírem, enquanto o vento continua soprando, e as pessoas te olhando. Ninguém te ajuda. Ninguém sequer entende o que você está tentando fazer. E você se pergunta se vale a pena continuar recolhendo esses inúteis pedaços de papel, esses inúteis pedaços de si mesma. Você sabe que nunca vai se sentir inteira, de qualquer forma.

Eu sempre achei que aos poucos as coisas começariam a fazer sentido. Eu sempre achei que um dia alguém iria me amar exatamente pelo que sou. Alguém veria encanto em todas as minhas partes desconexas. Não se assustaria com a minha confusão, nem se perderia no imenso espaço vazio que eu levo comigo. Eu sempre achei que um dia alguém se abaixaria e começaria a recolher meus pedaços juntos comigo. Mas parece que achei errado. Eu estive mentindo pra mim esse tempo todo.

Eu abro os meus olhos e olho ao meu redor. Eu estou no meu barco de papel. Somente eu e um vasto oceano. Pra qualquer direção que eu olhe, tudo o que vejo é instável. Não tem ninguém comigo. Nenhuma certeza, nenhuma garantia. Nada firme onde eu possa me segurar. O vento sopra e o meu barco balança. Eu me sinto com frio e com medo. Eu não tenho nenhuma certeza e nenhuma garantia. Nada firme onde eu possa me segurar.

Quantos mares uma pomba branca precisará sobrevoar antes que ela possa dormir na areia? Sim, e quantas balas de canhão precisarão voar até serem para sempre banidas?

A resposta, meu amigo, está soprando ao vento. A resposta está soprando ao vento. E o vento continua soprando meus pedaços pra longe.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Amanda Amorim’s story.