abandono aos 21

Em meio a uma faxina em pleno domingo, sou atingida por uma certeza que venho tentado ignorar há alguns meses: eu estou me deixando de lado. Essa certeza é tão assustadora de primeiro momento que sou obrigada a parar por alguns segundos e repassar o peso que essa afirmação tem sobre mim.

É assustador pensar na facilidade com que nos abandonamos. Ou melhor, na facilidade como eu me deixei de lado.

Todo dia uma pequena batalha interna, sobre o que fazer para agradar tudo e todos, para agradar a mim e para ficar bem. E isso é bem difícil. As cobranças emocionais do tipo “você me prometeu isso”, “você não gosta mais de mim” ou até “eu fiz isso por você, porque você não faz isso por mim?” Tem se tornado um peso que eu sinceramente não consigo mais carregar. Porque além de tudo isso tem todas as cobranças, todas as “você fala de um jeito que parece patada” ou “você é muito séria, precisa ficar mais de boa”. Coisas que acabam apenas me afundando ainda mais e fixando na minha cabeça que não, eu não sou boa o bastante. Que não, eu não me dou o bastante. Que não, eu não sou carinhosa o bastante. Que não, eu não amo o bastante. Que não, eu não sou como a outra pessoa que é melhor nisso do que eu.

Mas a que ponto eu cheguei?

Cheguei no ponto de me sentir culpada toda vez que faço algo por mim, me sentir um monstro por pisar na bola, me sentir um monstro toda vez que eu falo algo com a melhor das intenções mas que pelo meu tom de voz soa uma ordem.

Eu sou mesmo um monstro? Eu preciso mesmo ser a vilã da historia de todo mundo porque quero fazer algo por mim? Isso é mesmo necessário? Afinal, o que eu estou fazendo de errado em pedir uns dias para ficar completamente só? Em parar de responder mensagens para ler meu livro? O mundo tá me sufocando e talvez até eu mesma esteja fazendo isso.

Eu não quero magoar ninguém, não quero ser a vilã, não quero ser o monstro, não quero ser comparada a alguém que pode sim fazer algo melhor do que eu porque eu não estou competindo por nada. Só quero continuar sendo a Gabriela, apaixonada por livros e Shakespeare, que odeia ficar no celular mandando mensagem, que gosta de musica e fotografia, que tem pessoas incríveis ao meu lado que mesmo que eu não demonstre sabem que eu gosto muito delas.

Eu só quero ser algo bom para mim mesma. Eu só quero não me abandonar mais.

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