Confissões de Vestibulanda — A Percepção.

Aqui me encontro, confessando sobre um assunto do qual já estou farta, de uma forma mais pessoal, sobre esse esforço incomum que jovens como eu têm de fazer para entrar na faculdade.

Quando terminei o Ensino Médio em 2013, considerado o pior ano da minha vida, minhas tentativas de prestar uma faculdade foram como um último suspiro que eu dera naquele ano. Não lembro de querer conferir listas, de ter consciência sobre as relações de vaga na faculdade, eu queria apenas que essa fase acabasse.

E por mais que a Lei de Murphy pareça instantânea e corriqueira, ela se estende para mim até hoje. Não procurei melhorar em 2014, um ano onde eu prestei apenas a prova do ENEM, e pretendia compensar em 2015, o qual devia ser o ano da minha vida.

Todas os ventos pareciam ao meu favor, e por mais que fosse contra a minha vontade, frequentei um ano todo de cursinho. Cursinho na minha cabeça, era apenas para aqueles que faziam o ensino em escola pública, diferentemente de mim que desde sempre estudei em escola particular.

E quando você menos espera, a vida está pronta para te colocar no seu devido lugar.

Concluindo minhas expectativas no final do ano, me senti nada especial, lembrando que eu não era magnífica. Como nesta música do Bon Iver:

At once I knew, I was not magnificent

Lembro de ter me esforçado para compensar as matérias, feito resumos e exercícios, da minha mão doendo quando eu tinha tempo para desenhar, isso tudo para passar em Artes Visuais. Agora, lembrando dos meus colegas e amigos que pretendiam prestar Medicina, visualizo como uma tortura ter que despender esforços, desperdiçar o tempo para estudar algo que não tem nada a ver com seu curso no ensino superior. Como artista adormecida, troquei os pincéis pela canetas marca texto, os sketchbooks pelas apostilas, a criatividade pela racionalidade. Algo que me prejudicou na hora de fazer as provas de Habilidades Específicas, mas nada que algumas madrugadas lendo livros acadêmicos não pudessem resolver. Mas não resolveram.

Mas apesar de todo a onda depressiva, estou pronta para outra. Outro cursinho, outras apostilas, outro ano me recriando. E talvez eu esteja aqui por consequência de uma cultura que não reverencia o acúmulo imaterial. Não sabemos dar valor àquilo que possuímos e não podemos ver, não podemos tocar, algo que simplesmente existe e o qual me faz conseguir raciocinar e escrever em prol dos outros.

É verdade que o ensino brasileiro está viciado. E quando cito ensino, quero dizer dentro e fora das escolas (públicas e privadas). Não somos acostumados a tomar o estudo como algo frequente, como um processo de formação intelectual, um aprendizado que nos encaminha além de interpretar escritos. É com sabedoria que um médico decide se vale a pena salvar uma vida. É com sabedoria que um veterinário disponibiliza um dia por semana para dar consultas grátis. É com sabedoria que um professor aconselha seus alunos.

Assim eu percebi que nessa escala da experiência da vida, ainda estou abaixo da média. Desiludida de minhas expectativas, de tudo o que eu sou capaz e de tudo aquilo que sou. Porém a sabedoria transborda por dentro e não para fora. E talvez esse ano foi responsável por mais uma das lições das quais eu vivia me recusando a deglutir.

Além de tudo, admitir-se como vestibulando é se descobrir a todo momento. O processo de cursinho te presenteia como um redescobrimento pessoal. Alguns tem a oportunidade de demonstrar sua capacidade, mas muitos acabam mudando de curso. A realidade é que determinar o futuro numa única opção para um jovem de apenas 17 anos é algo inadmissível, algo que se comete, e que acaba gerando uma série de desenvolturas, que, em muitas das vezes são ruins.

Dos anos que se passaram eu espero recuperar minha identidade, minha criatividade e vontade de tornar meus sonhos realidades, fazendo ou não faculdade, sendo bem sucedida ou não, mas nunca deixando de lado a caminhada.

Para meus amigos que passaram, desejo muito boa sorte nessa nova caminhada, porque passamos anos tentando conseguir uma vaga, que quando conseguimos, achamos que a vida termina ali, mas ainda há muito morro pra escalar. E para aqueles que não passaram e não vêem futuro à frente recomendo esse vídeo:

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