Reunião com Ansiedade

Bianca Bicalho

No marasmo de uma tarde tranquila, onde a vida corre e se desenrola independente de ações diretamente interligadas a você, bate uma sensação que estava adormecida. Ela reside nas paredes dos tecidos de seus órgãos e vem te perturbar quer você queira ou não. Te lembra que existe um futuro que você não vai querer repetir como passado. E, mesmo que nada pudesse estragar seu momento de paz, essa aflição pelo o que está por vir marca seu comportamento pelo resto do dia. Ou do ano.

Tenho procurado nos veículos de informação sobre como lidar com esse tipo de ansiedade e me controlar pelo o que está por vir, e como se não bastasse esse fenômeno geralmente tende a impedir o processo de produção de todo o restante. Se você desenha, vai deixar de desenhar, se você lê, vai deixar de ler, se você estuda vai deixar de estudar, tudo isso pra ser substituído por sensações de espera.

Sempre fui intolerante àquilo que tenho que esperar. Eu costumava trocar essa suspensão do tempo por comida. Esperar um ônibus se transformava em mastigar um chiclete. Acompanhar um filme só com pipoca, ou fandangos. Finais de semana solitários com uma panela de brigadeiro. Isso porque a sensação era refletida no meu estômago. Resultou-me numa leve gastrite que colava o órgão nas costas quando eu dormia por mais de 6 horas.

Ao perceber que fui tomada por um fenômeno crônico que podia acabar com minha saúde, meu comportamento e me levar os amigos tive uma conversa com a tal colega ansiedade. Sentamos na sala da casa do meu futuro. Toda decorada de mim e manchada pelas minhas marchas ao sucesso inútil. A ansiedade estava vestida de esperanças falidas, todas aquelas das quais me desfiz pelos últimos anos. Percebi que ela é uma amiga que tenho ignorado de propósito durante minhas caminhadas. Vi meu livro, meus projetos da escola, minhas amizades, todas abandonadas.

Fizemos um acordo e decidimos perdurá-las até o fim do ano. Não consegui abandonar quatro fandangos por semana pelo momento. Também acordamos que ela não pudesse me atrapalhar nas próximas provas. Assim tudo o que eu queria ser pudesse vir a ser realidade, mas enquanto isso não chegasse, conversaríamos um pouco mais durante o caminho. Sobre o tempo, sobre as paisagens, sobre as músicas dos quais tenho me rodeado.

Agora sim, ela poderia me deixar em paz quando eu precisasse ficar em paz.

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