Nada a temer, nada a combinar / na hora de achar meu lugar no trem / e não sentir pavor / dos ratos soltos na casa /minha casa

Criança pequena lá em Barbacena

A Pequena Miss Sunshine aí de cima sou eu no auge da minha infância. Olho para essa criança e não consigo fazer a mínima conexão que seja com a pessoa que eu sou hoje. Em determinado momento, por motivos de sobrevivência, retalhei minha história e passei a existir a partir dos meus vinte e um anos. O que me dá um total de nove anos de idade no momento. Eu olho para a imagem acima, ligo para minha mãe e peço: fale sobre mim. E ela me conta coisas que eu acho a maior graça. Mas, mesmo assim, é sobre a menina da foto, não é sobre mim. Sucede o mesmo sobre a adolescência. Não consigo me ligar a mim mesma. Como eu não posso sentir que eu mesma não sou eu? Não estou dizendo que não me recordo, pelo contrário, memórias eu tenho saindo pelo ladrão, mas é como se as tivesse lido em um livro da coleção Vagalume.

Algum dia desses, faz pouco tempo, decidi lutar pelo bem estar dessas desconhecidas que já não estão mais no tempo, mas ocupam um espaço dentro de mim como bonequinhas russas com pinturas diferentes entre si. Quando você passa anos na anestesia e resolver catucar, certas coisas parecem apenas fontes de constrangimento e de tristeza. Mas eu olho pra essa criança da foto e mesmo não sendo eu, penso que jamais deixaria que alguém fizesse a ela o que foi feito. Então eu me pego no colo e entro em um processo de cura. O mesmo para a minha adolescente. Que raiva que eu tinha dela, toda deformada, lesada, feia, as piores armações de óculos. E então eu sento do lado dela, que está sentada em cima de uma poça d’água no recreio do colégio e falo com ela. O que é que dói tanto? E fico horrorizada com a indiferença que tive por mim por tantos anos. Mas não me puno. Não, não mais. Deixa a adolescente chorar.

Continuo não sentindo que essas histórias antigas me pertençam, o que me faz ser capaz de viver realidades paralelas, a desta Bianca de agora e a Bianca de dezesseis anos atrás. Cada uma no seu ciclo. Uma Bianca é essa mulher que escreve aqui e a outra Bianca está embaixo da mesa chorando. A maioria de vocês só vê esta aqui. Algumas outras pessoas vêem a outra. Alguns lidam bem, outros nem tanto e por fim há os que preferiam que eu ficasse no zoológico.

O que eu quero falar aqui é que eu perdi tudo. Eu perdi tudo que eu fui. Sou uma glória de mulher sem passado que existe simultânea a uma mulher que é só passado e nada mais. Eu perdi tudo. E construí várias outras coisas. Várias vezes. Eu sobrevivi a mim mesma. Várias vezes. A grande questão: o que é o presente? O tempo é um elástico que arrebenta na minha cara constantemente. Vou e volto. E volto gritando, horrorizada. Ai, mas por que se importar tanto com o passado? Eu já me perguntei isso muitas vezes. A única resposta é: eu ainda não saí de lá. Está tudo retido ali. Eu não sou nostálgica. Só do que não vivi. Eu não sou nostálgica, mas depois que saí do coma da negação, o passado aparece e isso não é nostalgia. Aparece no meu ouvido. Uma doença que tenho no labirinto. Meu corpo, esta metáfora. Eu, completamente partida e perdida em um labirinto quebrado. E nem é em Creta. É um labirinto no Engenho Novo.

Por que eu escrevo isso publicamente? Porque eu quero que vocês saibam. Quero que todo mundo saiba. Porque eu passei tempo demais calada e submissa. Então aqui está este meu eu desmontado, eficiente e deficiente. Um Janus bem na frente de todo mundo. Falando com a delicadeza de metáforas e gritando com o desespero do que já não consegue mais ser contido. Acabando e começando. Bem na frente de todo mundo. Todos os dias. Que nem todos vocês. Perdendo tudo. Porque é só perdendo tudo que alguma coisa qualquer se torna alguma coisa. Porque é só perdendo tudo que a ausência se torna uma presença. Porque é só perdendo tudo que essa presença pode finalmente ir embora. Porque é só perdendo tudo que cada milímetro de pele pode sentir. Porque é só perdendo tudo que você não tem nada a perder. E não ter nada a perder é a maior das glórias, se você souber o que isso quer dizer.

(Trem de Doido é o nome do trem que levava pessoas para o maior hospício do Brasil, em Barbacena)

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