Só o incômodo expulsa o demônio das pessoas

Hoje acordei sentindo muito frio e dor na garganta. Falei pra Estela: tô ficando doente de novo. Ela me perguntou o que eu tinha e meu diagnóstico nem precisou do Google, disse logo: tô com escapismo.

As horas do dia vão passando e o quadro cada vez mais se agrava. Não vou terminar de ler aquele livro. Nem vou finalmente ver sobre o que é este auto e-mail que me enviei em 27/05/2016. Também não vou lavar a cabeça. Nem vou estudar aquele curso que comprei on-line. Não quero ir pra faculdade hoje. Mas também não vou arrumar minha estante que pede socorro há meses. Muito menos almoçar. Não vou tirar essa camisola. Nem vou na academia. Não vou tocar guitarra. Também não farei fotografias. Não vou ligar pra ninguém e pedir ajuda. Vou mesmo passar o dia sentada nesta cadeira com o estofado rasgado me sentindo mal e esperando que alguma mágica aconteça, que a vida se encaminhe. Porque é exatamente o que eu sei fazer.

Como explicar para as pessoas que não consigo e nem quero mover um palito? Como não ficar agressiva quando elas dizem que eu preciso fazer alguma coisa para sair disso? Por que eu me importo tanto com a opinião delas, mas ao mesmo tempo quero que me deixem quieta? Por que eu passo todos os dias me achando uma chata do cacete, mas ao mesmo tempo especial e diferentona?

Eu não sei. Ontem saí aos prantos do consultório da psicologa. Falei pra ela o quanto sentia que ia pra lá ser julgada, que me sentia como se tivesse que problematizar tudo o que se passa na minha cabeça para que aquilo continuasse fazendo sentido e também em como eu me sentia uma pessoa com defeito. A sensação que tinha até ontem é que eu estava frequentando e pagando para resolver um problema que eu mesma não sei qual é.

Implorei a ela para que me desse um caminho. Como eu faço para sair dessa inércia? Ela só me disse que eu deveria parar de faltar as sessões e falar mais coisas como as que falei. No fim das contas, eu só preciso me sentir incomodada. Este, pra mim, é o grande ponto de contratar os serviços de um psicologo. Eu quero me incomodar. Mas nem sempre permito. E isso deixa o processo cada vez mais longo.

Só o incômodo expulsa o demônio das pessoas. Gostaria de escrever isso pelos muros da cidade. A dificuldade, no entanto, é se incomodar de verdade. Colocar sua vida pra funcionar do jeito que você acha que seria melhor e aceitar que pode dar tudo errado. E quanta vergonha é assumir que tenho um medo de falhar que me consome por inteira. Paralisada, todo dia. Toda semana é a mesma história, nenhuma das minhas conquistas ou mudanças são levadas a sério por mim. Sou uma maquininha de auto desprezo disfarçada de maquininha de senso de humor, esperando sempre que o tempo se responsabilize pelo meu destino.

Por que eu tenho escrito sobre isso ultimamente? Porque me incomoda pra cacete ter um monte de conhecidos e desconhecidos sabendo do meu íntimo que não é poético ou estético. E porque também vou falhar ao tentar me expor. Eu quero me incomodar comigo mesma. Talvez esse seja um caminho.

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