Sentir dá trabalho

Ontem acordei desconfigurada. Acontece de vez em quando, parece que alocaram meus órgãos de forma equivocada e sinto câimbra no cérebro. Por ser um quadro comum na minha vida há pelo menos uns 15 anos sempre tento seguir a rotina e não dar muita atenção.

Essa “câimbra” no cérebro se dá porque eu simplesmente esqueço de respirar e meu cérebro fica sem oxigenação. É bem ruim, imagine só. Então na tentativa de seguir o fluxo da vida, fui almoçar com o Thiago aqui perto de casa. Comecei com as tremedeiras nas mãos, a sensação de o coração estar deslocado dentro da caixa torácica e, como de costume, parei de consegui engolir a comida. O nhoque à parisiense saía pela minha boca como quem cospe um chiclete no chão, mas lenta e morbidamente, com algumas lágrimas nos olhos.

Choro um pouco, Thiago me dá a mão e pergunta se deve fazer alguma coisa. Não há nada o que ser feito, estou tendo uma daquelas crises de ansiedade que me consumiram a saúde em um nível assustador e paralisante e que me fizeram novamente entrar em tratamento psiquiátrico há um pouco mais de um ano.

Antes do tratamento passei em torno de seis meses vivendo esse quadro diariamente. De uma a vinte vezes por dia. Sempre tentando acreditar que ia passar, que eu só estava estressada.

Pulando alguns meses na história e diversas sessões de psicanálise, descobri que tenho um medo imenso de sentir e que isso estava me dirigindo a um abismo incontornável.

Sentir dá trabalho. Te coloca em uma espécie de vulnerabilidade. Agora você tem o que perder. Você se apega as coisas e as pessoas. Sai do campo da fantasia composto por pessoas e situações irreais e dá de cara com a realidade do que você inconscientemente construiu durante tantos anos de apagão sentimental. E então vem a lida com essas coisas e pessoas.

E o dia-a-dia é sempre um convite a voltar para o modo anestesiado e irreal. O dia-a-dia é um convite eterno para me perder no campo da racionalidade e do discurso. Dominando e controlando. Porque sentir dá trabalho.

Usar as redes sociais estragou muito minha cabeça. Não sou de dar opiniões políticas, filosóficas, de conduta etc, mas consumo tudo isso diariamente em uma escala doentia através do Facebook. Sou usuária de Internet desde quando isso aqui era tudo mato (risos) e as pessoas tinham blogs e compartilhavam seus cotidianos. Era um pouco mais humanizado e real. Hoje me vejo rodeada de discursos repetidos que não acrescentam nada além de tristeza. Não há troca. Há só medição. Um grande placar de certo e errado.

Eu acredito no espírito e isso já é bastante virtual. Ficar este tempo todo na Internet virtualiza ainda mais as coisas e o concreto vai ficando cada vez mais longínquo. Tudo isso que vemos na tela do nosso computador é a tradução de comandos compilados para a linguagem de máquina. Na realidade isso aqui é tudo 0110010100101. E nós não somos assim tão binários.

Mas por que eu estou escrevendo isso numa plataforma virtual se vejo tantos problemas? Porque sinto que a vida migrou pra cá. Os sentimentos e fatos são recortados e aplicados na rede social. E isso me aterroriza porque sentir dá trabalho. E grande parte do trabalho que dá sentir é sair dessa virtualização da Internet que combina e encaixa direitinho com a falta de capacidade de estar no momento aqui-agora.

A MTV tinha uma vinheta que dizia: desligue a TV e vá ler um livro. Vou adaptar e dizer: solta esse celular, abaixa essa tampa do laptop e se dê um beliscão. Sentir dá trabalho, mas sua saúde mental vai te agradecer.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.