A Primeira Vez Pode Ensinar Muito | RPG

Como jogar RPG me ensinou muitas coisas.

Camila Cerdeira
Jun 3 · 5 min read
Yule, por Viviane Ribeiro

Yule é o nome da minha primeira personagem.

Ela é uma elfa ladina criada por uma família de nobres humanos. Em vez de cuidar dos negócios da família, abandonou tudo para viajar por Arton e encontrar e libertar seus pais biológicos. Ela encontrou duas meio irmãs em sua jornada, Cupp, uma swashbuckler humana, e Butter, uma barda qareen. As três lutaram com lobos gigantes, se infiltraram em um baile de vampiros, resgataram reféns hipnotizados e no fim Yule morreu heroicamente garantindo que Cupp ainda tivesse uma chance de viver enquanto lutavam contra uma horda de demônios que atacava a cidade que antes as considerava vilãs.

Butter e Cupp por Viviane Ribeiro

Claro que no mundo do RPG você sempre pode trazer seu personagem de volta em outra mesa. Eu atualmente estou jogando com a Yule e com a Abla, minha barbara das Savanas, (mas sobre ela eu falo um outro dia). O que eu quero trazer, além de um pequeno relato das incríveis façanhas de Yule, é contar tudo que eu aprendi com minha primeira personagem.

uando eu comecei nunca havia construído um personagem de RPG na vida, eu não sabia como as regras do jogo funcionavam, eu não sabia onde eu estava me metendo. Tudo isso por que, além de não jogar, eu não esperava começar a jogar no dia que comecei. Eu fui visitar uns amigos e por acaso eles estavam jogando e eu fiquei para ver, por que eu adorava acompanhar histórias. Nesta aventura que assisti Cupp e Butter quase morreram e eu disse:

Me dá uma ficha que eu vou proteger vocês.

Mesmo sem saber exatamente o que fazer, eu sabia que minha personagem tinha que fazer tudo que as personagens delas não faziam. Então eu criei uma personagem que estava tentando balancear o grupo, faltava diplomacia? Eu apostei tudo em diplomacia. Precisava de furtividade? Vou criar um ladino.

Com a minha entrada no grupo, por ter esta compensação em mente, nossas missões obtinham sucesso muito facilmente. Mesmo o nosso Mestre colocando desafios de nível maior que o nosso. A Swashbuckler era o nosso tanque, ela tinha um CA (classe de armadura) altíssimo e ainda ganhava armadura arcana da barda, ela era o touro descontrolado que ia para cima dos monstros. Yule ficava pendurada numa arvore ou prédio, no maior estilo Gavião Arqueiro. Eu era resistente e foram meses, talvez um ano até que minha personagem recebesse dano, que a barda conseguia curar num estalar de dedos. Butter ficava longe da briga, tocando seu tambor e garantindo que cada PV (ponto de vida) perdido fosse recuperado. Quando estávamos por volta do 7 nível eu vi Butter curar mais de 200 Pontos de Vida.

Foi jogando assim que ficou obvio como funciona jogar RPG e por que é um jogo coletivo. Claro que todo mundo gosta de ser o herói protagonista da história, que vai sentar no trono e assumir o reinado no final, mas sem um bardo ou mago para ser healer (fazer magias de cura) você provavelmente vai descer antes do terceiro encontro de campanha. Fora que ter um ladino no grupo pode ser sempre uma mão na roda, afinal até o Steven Rogers (que é a definição de paladino leal e bom) tem o Bucky para o trabalho sujo.

Outro ponto era que eu tinha muito medo de fazer um personagem ruim e por causa de isso estragar o jogo de todo mundo.

Eu aprendi então a não ter medo de pedir conselhos, seja para os amigos de mesa, seja para internet.

A Ordem do Dado me deu dicas incríveis sem saber e eu provavelmente maratonei todos os vídeos deles, se você não fez isso, recomendo. Algo que eu notei é que eu podia não saber como funciona subir de nível e quando se aplica um teste de perícia ou um teste de habilidade, mas eu sabia criar personagens. Eu sou uma escritora, eu li fantasia, eu vi fantasia, eu conheço os arquétipos. Foi assim que eu comecei a brincar com a minha personagem. Ela era uma folha em branco com um monte de números colados a ela, eu era quem iria traduzir isso para uma personalidade.

Como eu dei personalidade para Yule, a elfa ladina.

Elfos são tristes e distantes? Certo, ela não confia em ninguém, não confia a ponto de esconder as pontas das orelhas num gorro. Assim em algumas ocasiões de combate o narrador me fazia rolar enganação sempre que era atingida para ter certeza que o gorro não subiu demais. Teve uma vez que uma bruxa colocou uma música élfica para tocar e Yule foi a única afetada.

Com o tempo fui entregando detalhes do passado para o narrador. Esses detalhes extras que escrevi foi o que permitiu que a história continuasse após a morte de Yule e Cupp. Sim, depois que a arqueira morreu, Cupp ficou desprotegida e foi morta logo em seguida. O dinheiro da família de Cupp e a conexão de Yule com uma pirata, sua ex-namorada cuja relação não terminou nos melhores termos, eram as peças que faltavam para que Butter iniciasse um plano para tentar reviver a companheira e a irmã falecidas.

RPG é um jogo que e a gente joga junto do mestre, então fazer um background de personagem jogador pode e vai ajudar o mestre a ter material para criar mais aventuras. Só cuidado para não se empolgar demais no seu background e escrever páginas e páginas de uma história que ninguém vai ver. Yule desenvolveu sua história passada e fizemos com que ela fosse relevante em jogo.

Yule foi minha primeira personagem e apesar de ainda jogar ocasionalmente com ela, ela é a personagem que me deixa mais confortável de jogar. Especialmente pelo tempo que passamos estamos juntas e por todas as lições que ela me ensinou. E vocês, aprenderam o que com suas primeiras personagens?

Saiba Mais:

Você pode conhecer a Viviane Ribeiro, a artista dos personagens aqui. Você pode conhecer mais do mundo de Arton aqui.

Camila Cerdeira

Written by

Escritora, Fotografa, co-editora e colaboradora do site Preta, Nerd & Burning Hell. Fortalezense de nascença, feminista, ativista negra e dos direitos LGBT.