Sobre Minha Experiência Sendo Bissexual e Negra.

Camila Cerdeira
Sep 2, 2018 · 3 min read

Eu queria escrever sobre a minha experiência sendo uma mulher negra bissexual. Queria achar as palavras certas, a eloquência que fizesse as pessoas entender que eu não sou senhora da vivencia universal, mas que apesar de ser minha ela a experiência de ser negra e bi não é singular e restrita a mim, mas que muitas pessoas podem ser identificar com uma parte ou outra dela. Também queria achar o jeito certo dizer que conhecer a minha experiência talvez pudesse abrir a sua empatia para algo que você não experimenta diretamente nas suas relações e vida.

Só que não existem palavras certas ou jeito perfeito de fazer isso. Então eu fiz do meu jeito

Eu me permiti ser bi com quase 22 anos, hoje tenho 29. Nesses anos todos eu fiquei com uma única mulher negra, ela foi a primeira mulher que eu beijei e cheguei na segunda base. Não, eu não era apaixonada por ela e nem ela por mim, mas éramos amigas e existia uma atração entre a gente e eu me permiti viver essa atração. Mas depois dela eu não fiquei mais com mulheres negras, não por falta de vontade, mas as oportunidades não surgem.

Sendo bem honesta, as oportunidades de ficar com mulheres em geral me são raras. Eu consigo contar nos dedos das mãos com quantas mulheres já fiquei nesses meus setes anos assumida e tudo bem, eu tenho literalmente o dobro de tempo ficando com homens. Não deveria ser surpresa que tenha ficado com mais homens que mulheres, eu tive o dobro de tempo para isso. A primeira vez foi quando eu tinha 15 anos, então há 14 anos eu me envolvo com rapazes.

Mas eu fico muito mais com homens negros que com homens de qualquer outra etnia e sempre pareceu fácil me envolver com eles. Então por que é tão difícil me envolver com mulheres negras? Por muitos anos e continuamente eu pensei se não teria internalizado o preterimento da mulher negra e estaria reproduzindo a tão falada palmitagem. Isso até hoje me assombra um pouco.

E olha que eu não sou tímida, eu vou atrás de quem eu quero, eu elogio, dou em cima respeitando os limites de cada garota, mas tento deixar claro meu interesse quando o ambiente e situação que estamos permite. Eu não dou em cima de alguém em ambiente de trabalho ou estudo. Ainda assim nada.

E foi aí que eu comecei a entender a solidão da mulher negra. Quando eu via os ícones “lésbicos” e eram sempre essas garotas brancas, magras, padrão com trejeitos levemente masculinos. Essas bofinhos que parecem o Justin Bieber em algum ponto de sua carreira. E eu sou uma mulher negra de 1,75 com trejeitos masculinos que gosta de usar shortinho e dançar funk como se não houvesse amanhã não passo pelo corte.

Mesmo que eu seja na verdade muito fofa e o tipo de pessoa que sempre tem um elogio criativo para dar na foto do instagram, que sempre oferece um ombro amigo e um ouvido atento quando a pessoa parece mal independente do que for, sou a pessoa que fica feliz pelo quão feliz a outra está. Que cozinha jantares fofos e escreve bilhetes carinhosos.

Nada disso importa, por que eu não sou levada em consideração nem no primeiro corte, por que meu nariz é largo, por que na biografia do tinder tem com todas as letras BI. Então pouco importa se eu tenho cachos que são gostosos de fazer cafuné e que a minha gargalhada tem aquele som que dá vontade de continuar rindo, não importa que eu consiga conversar do que quer que seja por horas antes de saber qualquer dessas coisas a pessoa já passou minha foto para a esquerda.

A verdade é que a minha experiência de ser uma negra bissexual fez eu me sentir solitária, não desejada, não interessante, até mesmo para outras mulheres negras bi por que eu nunca consegui passar das primeiras conversas e tudo acaba cedo demais.

Não sei se nós mulheres negras já estamos inseguras demais que não nos permitimos tentar novas experiências. Confesso e reconheço que venho tentando trabalhar essa coisa toda de me deixar envolver romanticamente de novo, por que nos últimos 3 anos dado um péssimo e nada saudável relacionamento tem sido mais seguro relações casuais sem laços, mas tenho começado a sentir falta de algo mais sólido.

Camila Cerdeira

Written by

Escritora, Fotografa, co-editora e colaboradora do site Preta, Nerd & Burning Hell. Fortalezense de nascença, feminista, ativista negra e dos direitos LGBT.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade