Real ou abstrato

Fugidio, o instante que é e agora já não é mais, e que continua sendo, no âmago do ser.

O tempo é real ou abstrato? Transcorre agora por entre os dedos e permanece para sempre em suas consequências.

Consequência é real ou abstrata? Se dela não se toma conhecimento, existe realmente? Se afeta tantos outros instantes muito além do instante original, mesmo em seu anonimato, esse é o seu reconhecimento? Ou o seu poder é questão de fé? Uma rosa com outro nome ainda tem o seu aroma? Doença sem nome pode ser curada?

A fé é real ou abstrata? A falta de fé neutraliza esse instante? A presença da fé o resolve?

Instante que pode durar um piscar de olhos, um mês ou uma vida inteira.

Passado, que é presente. Presente, que é passado. Futuro impregnado de presente e passado.

O que foi será sempre, até quando não seja mais. Para quem tem sorte.

Sorte que não é sorte, mas esforço, oportunidade, empreendimento de recursos, apoio pessoal, força interna. É jornada, também é fim que se converte em reinício.

Reinício que é real ou abstrato? Reinício de fato ou devaneio otimista? O reinício é mesmo possível? Existe reinício após a fecundação?

Contudo, é fim? Existe fim que não seja a morte? Morte seletiva? Fechar de cortinas ou intermissão entre atos? Terá a jornada destino real ou abstrato? Final ou temporário?

Destino… existe? A condenação à provação é divina? É plano maior ou coincidência no microcosmo? Equívoco da criação, prática sádica conjugada com o masoquismo peculiar à espécie, técnica legítima de aprendizado humano? A chegada é questão de percepção? É possível nunca chegar? É possível nunca perceber que já chegou? É possível nunca perceber que nunca chegará?

A percepção é sensorial? Psicológica? É ao menos real? Sua abstração a torna mais ou menos perigosa? Claramente humana. Por isso, controlável? Ou incontrolável apesar disso?

Instante. Passou, não passou? Deve ter passado, era tão só um instante, tantos outros já o seguiram.

Esse instante nenhum relógio quantifica, não se mede no tempo, mas em sua intensidade. Na sua capacidade de retorno, privilégio de que os outros instantes não dispõem.

Natural e artificial. Irreal; tão real. Ofuscante, retumbante. Invisível, silencioso.

Trauma.