Hoje o amor tem um único nome
Minha família parece ter saído de um filme do Fellini: todos falam alto, gesticulam, brigam, exageram nos sentimentos. E, neste cenário, sempre se destacou uma figura: minha tia Wilma, ou Macaca (explicarei adiante), uma das irmãs da minha mãe. Uma canceriana por excelência: sensível, amorosa, maternal, apegada à família. Mas também tão brava, independente e teimosa quanto uma filha de Oyá pode ser.
Quando eu nasci, meus dois primos por parte de mãe já eram bem mais velhos, de modo que me tornei o centro de todos os mimos e cuidados da família. Sobretudo da Macaca. Ela, que biologicamente não se tornou mãe, transferiu para os sobrinhos todo esse instinto de proteção e afeto, construindo com a gente, desde a nossa infância, laços de cumplicidade que permaneceram firmes ao longo dos anos.
Minha mãe conta que, quando eu tinha dois, três, anos, ela ia praticamente todos os dias à nossa casa brincar comigo e, certa vez, lendo uma história, começou a imitar uma macaca. Estranho que, obviamente, eu não me lembro da situação em si; mas eu me recordo das minhas risadas, como se aquela alegria genuína que ela despertou em mim tivesse permanecido intacta no coração da criança que eu ainda sou. A partir daquele dia, ela se tornou a Macaca.
Tenho muito carinho por todas as minhas tias, mas a Macaca é a minha parceira, a minha cúmplice. Que saía no quintal para dançar comigo na chuva. Que me deixava invadir o seu quarto para brincar com todas as fantasias e adereços de Carnaval que ela guardou da juventude (e juntas fomos odaliscas, melindrosas, ciganas, gregas). Que me benzia com arruda e alecrim quando eu estava triste. Que conversava comigo sobre o Evangelho de domingo, mas também sobre astrologia e tarô. Que todos os anos trazia para mim um pãozinho da Festa de Santo Antônio e flores do andor de São Benedito. Foi a ela que eu contei pelas primeira vez muitas coisas. E escolher com quem partilhamos o que somos, o que sentimos, é especial.
Nos últimos meses, durante o tratamento contra um câncer que foi tão cruel quanto a própria doença, a sua fé, coragem e resiliência foram incríveis. E até os médicos se surpreenderam e arriscaram um prognóstico otimista. Mas a vida também pode ser traiçoeira.
Por isso, hoje, vendo-a tão frágil e debilitada, eu não sei o que responder quando a minha mãe me pergunta: “O que nós vamos fazer?”.
A única coisa que eu quero agora é permanecer junto da minha tia, agradecer por cada instante da sua vida e rezar para que o seu tempo seja leve.
Porque hoje o amor tem um nome. O dela.
